23 de junho de 2016

Tradução - Por que os americanos têm medo de dragões?


Mais uma tradução… Ei, isso está se tornando até divertido, não? Exceto pela parte em que passo mais de uma semana para conseguir traduzir menos de quatro páginas, porque toda vez que vou pegando o ritmo do que estou fazendo, alguém me chama para tratar de outra coisa...

O artigo de hoje foi traduzido de um ensaio publicado por Ursula LeGuin, autora do clássico A Mão Esquerda da Escuridão. Eu o descobri lendo A Menina Submersa, e, posteriormente, encontrei-o citado num ensaio do Gaiman - que, aliás, escreveu bastante sobre o mesmo tema entre os ensaios de seu novo livro, The View from the Cheap Seats, em especial no artigo sobre bibliotecas e achei muito interessante a forma como ele trabalha a questão da ficção como uma face da verdade.

Aliás, esse é tema também de uma das melhores citações de Hogfather, do Terry Pratchett, um dos livros que considero a melhor defesa à fantasia e à ficção.

O artigo é datado e creio que posso dizer que muita coisa mudou, mas em sua essência, ele é ainda bem atual. Recomendo procurar o artigo original, considerando o fato que não sou uma tradutora e tive de fazer algumas adaptações, especialmente com expressões idiomáticas.

Tendo dado esse aviso… fiquem com a tradução.

Por que os americanos têm medo de dragões?, por Ursula K. LeGuin

Esta era para ser uma conversa sobre fantasia. Mas eu não tenho me sentido muito fantasiosa ultimamente, e não conseguia me decidir sobre o que dizer; assim comecei a questionar outras pessoas para encontrar ideias. “E quanto à fantasia? Diga-me algo sobre fantasia”. E um amigo meu disse, “Tudo bem, vou lhe contar algo fantástico. Dez anos atrás, fui à seção infantil da biblioteca de tal-e-tal cidade, e pedi por O Hobbit; e a bibliotecária me respondeu, ‘Oh, nos mantemos este apenas na coleção para adultos; não achamos que escapismo seja bom para crianças.’”

Meu amigo e eu demos boas gargalhadas e estremecemos à ideia, e por fim concordamos que as coisas mudaram bastante nos últimos dez anos. Esse tipo de censura moralista de obras de fantasia é muito raro nas bibliotecas infantis de hoje. Mas o fato de que as bibliotecas infantis tornaram-se oásis no deserto não significa que não haja ainda um deserto. O ponto de vista do qual aquela bibliotecária falou ainda existe. Ela apenas repetiu, em perfeita boa-fé, algo que está profundamente arraigado no caráter americano: uma reprovação moral da fantasia, uma reprovação tão intensa, e muitas vezes tão agressiva, que não posso deixar de enxergá-la como algo que decorre, fundamental, do medo.

Então: Por que os Americanos têm medo de dragões?

Antes de tentar responder minha pergunta, permitam-me dizer que não são apenas os americanos que têm medo de dragões. Suspeito que quase todos os povos altamente desenvolvidos tecnologicamente são mais ou menos anti-fantasia. Há várias literaturas nacionais como a nossa que não têm qualquer tradição de fantasia adulta pelas últimas centenas de anos: os franceses, por exemplo. Em compensação você tem os alemães, que têm bastante no gênero; e os ingleses, que o amam e o fazem melhor que ninguém. Assim é que o medo de dragões não é simplesmente uma coisa do Ocidente, ou um fenômeno da tecnologia. Mas não quero entrar nessas vastas questões históricas; falarei dos americanos modernos, o único povo que conheço o suficiente para poder falar sobre.

Em tendo me perguntado porque os americanos têm medo de dragões, comecei a perceber que uma boa parte dos americanos não é apenas anti-fantasia, mas totalmente anti-ficção. Temos a tendência, como povo, a olhar para todas as obras de cunho imaginativo com suspeita ou desprezo.

“Minha esposa lê romances. Eu não tenho tempo.”

“Costumava ler ficção científica quando era um adolescente, mas claro que não o faço agora.”

“Contos de fadas são para crianças. Eu vivo no mundo real.”

Quem fala assim? Quem é que descarta Guerra e Paz, A Máquina do Tempo e Sonho de Uma Noite de Verão com esta perfeita auto-confiança? É, eu temo, o homem médio, comum que encontramos na rua - o trabalhador, acima dos trinta, homem - aqueles que dirigem esse país.

Tal rejeição de toda a arte da ficção está relacionada a várias características americanas: nosso puritanismo, nossa ética de trabalho, nosso foco nos resultados e até mesmo nossos costumes sexuais.

Ler Guerra e Paz ou O Senhor dos Anéis claramente não é “trabalho” - você faz isso por prazer. E se não pode se justificar como “educacional” ou “aperfeiçoamento”, então, no sistema de valores puritano, só pode ser auto-indulgência ou escapismo. Pois o prazer não é valor para o Puritano; ao contrário, é pecado.

Igualmente, no sistema de valores do homem de negócios, se um ato não traz um ganho imediato e tangível, não tem qualquer justificação. Assim é que a única pessoa que tem uma desculpa para ler Tolstoy ou Tolkien é o professor de inglês, porque ele é pago para isso. Mas nossos homens de negócio podem se permitir ler um best-seller aqui e ali: não porque seja um bom livro, mas porque é um best-seller - é um sucesso, algo que gerou dinheiro. Para a estranhamente mística mente do trocador-de-dinheiro, isso justifica sua existência e ao lê-lo, ele participa, um pouco, pode poder e maná de seu sucesso. Se isso não é magia, aliás, eu não sei o que seria.

O último elemento, o de gênero, é mais complexo. Espero não ser compreendida como sexista se eu disser que em nossa cultura, essa atitude anti-ficção é basicamente masculina. O garoto e homem americanos são muito comumente forçados a definir sua masculinidade por uma rejeição de certos traços, certos talentos e potenciais humanos que nossa cultura define como “feminino” ou “infantis”. E uma dessas características, analisando friamente os fatos, é a absolutamente essencial capacidade humana de imaginar.

Tendo chegado a esse ponto, fui rapidamente ao dicionário.

O pequeno Dicionário Oxford diz “Imaginação. 1. A ação de imaginar, de formar um conceito mental do que não está realmente presente aos sentidos; 2. A consideração mental de ações ou eventos ainda inexistentes.”

Muito bem, certamente posso manter a “absolutamente essencial capacidade humana”. Mas devo estreitar a definição para caber em nosso atual assunto. Por “imaginação”, então, quero dizer o livre divertimento da mente, tanto intelectual como sensorial. E por “divertimento” digo recreação, re-criação, a recombinação do que é conhecido no que é novo. Por “livre” digo que a ação é feita sem um objetivo imediato de ganho - espontaneamente. Isso não significa, contudo, que não haja propósito por trás desse jogo livre da mente. Há uma finalidade e uma finalidade pode ser de fato bem séria. O jogo imaginativo das crianças é claramente uma prática de ações e emoções da maioridade; uma criança que não brinca não amadurece. Quanto à livre diversão da mente adulta, ela tanto pode resultar em Guerra e Paz como da Teoria da Relatividade.

Ser livre, ao final das contas, não é ser indisciplinado. Devo dizer que a disciplina da imaginação pode de fato ser o método essencial ou técnica tanto da arte quanto da ciência. É nosso puritanismo, insistindo que disciplina significa repressão ou punição, que confunde o sujeito. Disciplinar algo, no sentido próprio da palavra, não significa reprimi-lo, mas sim treiná-lo - encorajar a crescer, e agir, e ser fértil, estejamos falando de um pessegueiro ou da mente humana.

Creio que uma boa parte dos homens americanos foi ensinada exatamente o oposto. Eles aprenderam a reprimir sua imaginação, a rejeitá-la como algo infantil ou efeminado, inútil e provavelmente pecaminoso.

Eles aprenderam a temê-la. Mas eles nunca aprenderam a discipliná-la.

Agora, eu duvido que a imaginação possa ser suprimida. Se você realmente pudesse erradicá-la numa criança, ela cresceria para ser uma berinjela. Como todas as nossas inclinações perversas, a imaginação prevalecerá. Mas se ela é rejeitada e desprezada, crescerá em formas selvagens e debilitadas; será deformada. Na melhor das hipóteses, será meros devaneios centrados no ego; na pior, uma ilusão, algo que é uma ocupação muito perigosa quando levada a sério.

No que se refere à literatura, nos velhos tempos, os verdadeiros dias do Puritanismo, a única leitura permitida era a Bíblia. Hoje em dia, com nosso puritanismo secular, o homem que se recusa a ler romances porque não é masculino fazê-lo, ou porque eles não são verdadeiros, provavelmente acabará assistindo thrillers policiais sangrentos na televisão ou lerá histórias do Velho Oeste retalhadas ou histórias de esportes, ou irá para a pornografia, da Playboy para baixo. É sua imaginação faminta, ansiando por sustento, que o força a assim agir. Mas ele pode racionalizar esse tipo de entretenimento dizendo que é realista - afinal, existe sexo, e existem criminosos e jogadores de beisebol e costumava haver cowboys - e também porque é viril, pelo que ele quer realmente dizer que não interessa às mulheres.

Que todos esses gêneros são estéreis, irremediavelmente estéreis, é uma garantia para ele, muito mais que um defeito. Se eles fossem genuinamente realistas, quero dizer, genuinamente imaginados e imaginativos, ele teria medo deles. Falso realismo é a literatura escapista da nossa época. E provavelmente a leitura escapista total é aquela obra-prima de total irrealidade: o relatório diário do mercado de ações.

Agora, o que acontece com a esposa do nosso homem médio? Ela provavelmente não foi obrigada a silenciar sua imaginação a fim de desempenhar seu papel na vida, mas ela também não foi treinada para discipliná-la. A ela é permitido ler romances, até fantasia. Mas, sem formação e incentivo, é provável que seus devaneios descambem para bem pobre alimento, como novelas e “verdadeiros romances”, histórias de aias e romances históricos sentimentais e todo o resto da conversa fiada usada para substituir os genuínos trabalhos imaginativos por símiles sem alma produzidos por uma sociedade profundamente desconfiada dos usos da imaginação.

O que, então , são os usos da imaginação?

Veja, acho que temos algo terrível aqui: um cidadão trabalhador, direito, responsável, uma pessoa crescida e educada, que teme dragões, e hobbits, e morre de medo de fadas. É engraçado, mas é também terrível. Algo está muito errado. Não sei o que fazer sobre o assunto além de tentar e dar uma resposta honesta a sua questão, ainda que no mais das vezes ela pergunte num tom de voz agressivo e desdenhoso: “O que há de bom nisso tudo?” ele diz. Dragões e hobbits e pequenos homens verdes - qual o uso disso?”

A melhor resposta, infelizmente, não será ouvida. Ele não ouvirá. A melhor, mais verdadeira resposta é “O uso disso é lhe dar prazer e encanto.”

“Eu não tenho tempo” ele explode, engolindo uma pílula para sua úlcera e se apressando para o campo de golfe.

Assim tentamos nossa próxima-melhor resposta. Provavelmente não terá melhor resultado, mas deve ser dita: “O uso de ficção imaginativa é aprofundar sua compreensão do mundo e de outros seres humanos, e seus próprios sentimentos, e seu destino.”

Ao que, temo, ele irá retorquir, “Olha, eu recebi um aumento ano passado, e estou dando para minha família o melhor de tudo, nós temos dois carros e uma TV colorida. Eu entendo o suficiente do mundo!”

E ele está certo, irrespondivelmente correto, se é isso que ele quer, e tudo o que ele deseja.

O tipo de coisa que você aprende lendo sobre os problemas de um hobbit tentando jogar um anel mágico num vulcão imaginário tem muito pouco a ver com seu status social ou sucesso material ou renda. De fato, se há alguma relação entre os dois, é uma relação negativa. Há uma correlação inversa entre fantasia e dinheiro. Isso é uma lei, conhecida pelos economistas como a Lei Le Guin. Se você quer um exemplo notável da Lei Le Guin, apenas dê uma carona para uma daquelas pessoas no meio da estrada que não possuem nada além de uma mochila, um violão, uma bela cabeleira, um sorriso e um polegar. De novo e de novo você descobrirá que esses desocupados leram O Senhor dos Anéis - alguns deles podem praticamente recitá-lo. Agora olhe para Aristóteles Onassis ou J. Paul Getty: você acredita que esses homens tiveram algo a ver, em algum momento, em alguma circunstância, com um hobbit?

Mas, para continuar um pouco mais em meu exemplo, e tirando da questão da economia, vocês já perceberam o quão sombrio o senhor Onassis e o senhor Getty e todos aqueles bilionários parecem em suas fotografias? Eles têm esse olhar estranho, apertado, como se estivessem com fome. Como se estivessem famintos por algo, como se tivessem perdido algo e tentassem lembrar onde poderia estar, ou, talvez, o que poderia ser que eles perderam.

Poderia ser sua infância?

Então que chego a minha defesa pessoal dos usos da imaginação, especialmente na ficção, e mais especialmente nos contos de fadas, lendas, fantasia, ficção científica e todo o resto da margem lunática. Acredito que maturidade não é uma superação, mas um crescimento; que um adulto não é uma criança que morreu, mas uma criança que sobreviveu. Acredito que todas as melhores aptidões de um ser humano maduro existem na criança, e que se essa capacidade é incentivada na juventude, ela agirá bem e sabiamente como uma pessoa adulta; mas se elas são reprimidas e negadas na criança, isso irá tolher seu crescimento e paralisar sua personalidade adulta. E, finalmente, acredito que uma das mais profundamente humanas dessas faculdades é o poder da imaginação: de modo que é nosso agradável dever, como bibliotecários ou professores, pais, escritores ou simplesmente como adultos, encorajar a capacidade de imaginar de nossas crianças, encorajar para que cresçam livres, a florescer como a árvore ainda verde, dando-lhe o melhor, absolutamente o melhor e mais puro alimento que ela pode absorver. E nunca, sob quaisquer circunstâncias, esmagá-la, ou zombar dela ou implicar que seja infantil ou pouco masculino ou falso.

Porque a fantasia é verdadeira, claro. Não é factual, mas é verdade. As crianças sabem disso. Os adultos sabem também e é precisamente por isso que muitos deles têm medo de fantasia. Eles sabem que a verdade desafia, até ameaça, tudo o que é falso, tudo o que é dissimulado, desnecessário e trivial na vida que eles são forçados a viver. Eles têm medo de dragões porque têm medo da liberdade.

Então que acredito que devemos confiar em nossos filhos. Crianças normais que não confundem realidade e fantasia - eles confundem muitos menos frequência que nós, adultos (como um certo grande fantasista apontou em uma história chamada A Roupa Nova do Imperador). Crianças que sabem perfeitamente bem que unicórnios não são reais, mas que também sabem que livros sobre unicórnios, se são bons livros, são livros verdadeiros. Muitas vezes isso é mais do que mamãe e papai entendem, pois, ao negar sua infância, os adultos negam metade do seu conhecimento e são deixados com o triste, estéril fato de que “Unicórnios não são reais”. E esse fato é algo que nunca levará ninguém a lugar algum (exceto na história O Unicórnio no Jardim, por outro grande fantasista, no qual é mostrado que a devoção à irrealidade dos unicórnios pode levá-lo direto para o hospício).

É por essas declarações, tais como “Era uma vez um dragão” ou “Em um buraco no chão vivia um hobbit” - é por esses belos não-fatos que nós, fantásticos seres humanos, podemos chegar, de nossa forma peculiar, à verdade.


A Coruja


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