14 de abril de 2016

#LendoSandman: Terra dos Sonhos


Entre um ato e outro de uma peça ou uma ópera, por vezes o teatro apresentava pequenas esquetes ou números musicais - uma forma de manter o público entretido no intervalo necessário à mudança de cenários e trajes. Embora seja um costume que tenha caído em desuso, o entreatos foi incorporado de forma satisfatória na tradição shakesperiana no que chamamos de peça dentro de uma peça: é o que ocorre, por exemplo, em Sonho de Uma Noite de Verão e A Megera Domada.

Terra dos Sonhos, o terceiro arco de Sandman é um entreatos escrito. É composto de quatro histórias independentes, das quais apenas a primeira dá continuidade à cronologia que acompanhamos em Prelúdios e Noturnos e Casa de Bonecas, e as outras residindo num terreno nebuloso, àquele estado em que estamos meio dormindo, meio acordados, quando tudo parece possível e razoável.


O volume abre com Calíope, contando a história da ninfa aprisionada para servir de inspiração a dois escritores sem muito caráter.

Na mitologia clássica, Calíope é uma das nove musas, filhas de Zeus e Mnemosyne, a Memória. Ela é patrona da poesia épica e teve com Apolo um filho, considerado um dos maiores artistas que já existiram, mesmo entre os deuses: Orfeu, o Orfeu de Eurídice, que desceu ao Inferno atrás de sua amada.

Os poetas, músicos e escritores que desejavam seus serviços costumavam seduzi-las através de sua arte. Heródoto clama por Clio, que presidia a História, Sófocles vivia aos pés de Melpomene, amante das tragédias e Homero, o poeta cego, prestava suas homenagens aos pés de Calíope, que, em troca, lhe deu a Ilíada e a Odisséia.

Na versão de Gaiman, os deuses teriam se retirado da Terra para algum outro lugar não explicitado muito tempo atrás. Calíope, contudo, saudosa de suas raízes, ainda percorria por vezes seus antigos territórios e foi justamente quando visitava o Monte Hélicon que Erasmus Fry a capturou.

Diferente de outros poetas, contudo, que lhe prestavam respeito e cortejavam seus favores, foi pela violência que ele decidiu se apropriar dos dons concedidos pela musa, violência essa que se perpetua em sua transferência de posse para Richard Madoc.

Não acho que seja uma coincidência que Gaiman tenha feito Fry e Madoc abusarem sexualmente de Calíope - na tradição literária ocidental, praticamente todos os grandes poetas líricos dedicaram sua obra a musas platônicas (Dante e Beatriz são o primeiro exemplo que vem à mente). A inspiração, para eles, vinha no mais das vezes de um desejo não consumado.

Os dois escritores com que cruzamos caminho em Terra dos Sonhos, contudo, não estão interessados em arte pela arte ou relacionamentos platônicos. Eles são arrogantes e gananciosos; desejam o sucesso e o dinheiro e não o reconhecimento de uma devoção singular.

Para eles, a inspiração representada por Calíope não é uma vocação amorosa, mas um meio para um fim. Não é a arte, não é o amor que os leva à poesia, mas um interesse mercenário. É sintomático, pois, que eles tratem Calíope não como uma pessoa, mas como um objeto que deve satisfazer suas necessidades.

Calíope chama como suas mães as Moiras (sempre elas!), e através delas descobrimos que Sonho - ou Oneiros, em grego - foi amante da musa e teve com ela um filho ‘que foi ao Hades atrás de sua amada’ (e por aí já podemos identificar a figura de Orfeu), mas algo aconteceu que os separou, e essa não foi uma separação amigável.

Considerando o que aconteceu com Nada, acho que podemos concluir a essas alturas que Sonho não costuma ter muita sorte no amor (haveria aí dedo de Desejo?).

A musa implora às três que são uma que terminem seu cativeiro, mas nem mesmo elas podem interferir - tudo foi feito de acordo com as regras e não é possível escapar delas. Não há outros deuses nesse plano que pudessem ou tivessem interesse em libertá-la; os Perpétuos poderiam ser uma alternativa, mas apenas Sonho poderia talvez interferir, só que ele mesmo se encontra preso.

E assim, os anos passam… Até Sonho/Oneiros se libertar, ouvir sobre os problemas de sua antiga amante e decidir ajudar.

Já falei bastante sobre a questão da mudança de Sonho em ocasiões anteriores, mas Calíope é, talvez, dos capítulos mais significativos para tratar disso. Quando as Moiras explicam à musa aprisionada que Oneiros está também preso, elas deixam claro que acham ser pouco provável que, ainda que pudesse fazer algo para ajudá-la, ele teria interesse em fazê-lo.

De fato, é de se duvidar que Sonho fosse fazer algo por Calíope. Ele é rancoroso e não hesitou anteriormente em castigar uma amante que o teria desprezado. Se o relacionamento dele com a musa terminou de forma trágica - e considerando a história mitológica de Orfeu, que parece ter sido reproduzida nessa versão dos fatos, é óbvio que esse é o caso - ele talvez acreditasse que Calíope está apenas colhendo o que plantou.

Contudo, ele se compadece do sofrimento dela, porque ele mesmo sofreu da mesma maneira, e cuida para que Madoc seja forçado a libertá-la.


Ao final do conto é impossível não estabelecer um certo paralelo e pensar no que significa o Sonho que liberta Calíope para o Sonho que prendeu Nada. Poderá essa história servir como precedente para realização de outras libertações?

Duas coisas que acho muito interessantes nesse capítulo são o relacionamento de Sonho e Calíope e a forma como Morpheus obriga Madoc a liberar a musa. Para um escritor, pode existir alguém que o inspire a escrever, a criar, alguém que ele se sinta compelido a reproduzir ou a cortejar com suas palavras. Mas, assim como o desejo serve de matéria-prima para a criatividade, também o é sonho.

(Perdi a conta das vezes em que acordei com idéias na ponta das mãos para uma história e a maior parte dos meus contos deve um pouco ao que encontro no reino do Sonhar).

Trazendo essa questão para dentro do universo de Sandman, é algo que talvez poderia explicar a rivalidade entre Desejo e Sonho que descobrimos em Casa de Bonecas. Se Sonho e Desejo influenciam os mortais em sua imaginação, na forma como eles criam - se é através desse processo de criação que surgem deuses e mitos, que se imortalizam histórias - então existe um motivo para que eles lutem por predominância (ou para que Desejo deseje suplantar Sonho).

Por isso existe um relacionamento entre Sonho e Calíope: como musa, ela não é apenas inspiração, mas uma representação do fenômeno criativo/imaginativo. E por isso Sonho, que é também chamado de Príncipe das Histórias, abre as comportas de seu reino para literalmente inundar a mente de Madoc com inspiração, até que ele se afogue em idéias.

O segundo capítulo desse arco dá um passo à frente na construção de uma “Teoria do Sonhar”.

Um Sonho de Mil Gatos me faz lembrar do conto Os Gatos de Ulthar de Lovecraft. A diferença é que o gatos lovecraftianos têm poder próprio e não demoram a conseguir sua vingança.

Engraçado que na minha memória de quando li Sandman pela primeira vez, pouco menos de uma década atrás, eu associava esse conto com Bast, da mitologia egípcia. Tenho quase certeza que Bast ainda há de aparecer até terminar o projeto, mas posso também estar confundindo com algo que tenha acontecido em Deuses Americanos.

Enfim… tratemos da história.

Em Um Sonho de Mil Gatos, após perder os filhotes, mortos por seu dono humano - vez não serem de raça como a mãe siamesa e assim não ‘valerem’ nada - uma gata busca vingança e encontra um caminho para ela entre seus sonhos.

Após viajar um longo caminho, ela encontra o Gato dos Sonhos, na verdade, uma enorme pantera negra, que é um dos aspectos assumidos por Morpheus. Aqui é de se lembrar que já vimos Sonho assumir diversos aspectos, a depender de seu interlocutor: sua aparência, em outras palavras, vai de acordo com as crenças de quem o vê. O lorde do Sonhar tem tantas faces quanto nomes, adequando-se a cada cultura a que adentra, em vez de forçar que os outros se adequem a ele.

Isso vale, como podemos ver por essa história, inclusive para os animais. Em outras palavras, toda a criatura que sonha tem sua própria versão de Sonho.

O Gato dos Sonhos revela a sua visitante que houve uma época em que os humanos eram os animais de estimação e os gatos, os verdadeiros senhores do mundo. Contudo, os humanos sonharam com um mundo em que eles eram a espécie dominante, e, sonhando, mudaram a realidade desde o começo do mundo.


Que os gatos tenham sido considerados senhores num período perdido da História faz completo sentido - basta pensar em homens das cavernas e tigres dentes-de-sabre. Mas que, sonhando, possamos mudar o mundo de uma forma literal é um conceito mais difícil de apreender.

Considerando que a gata siamesa aqui assume um papel messiânico, creio que possamos associá-la a outras figuras do mesmo estilo. No final, refletindo sobre o significado desse conto, com a siamesa discursando para outros gatos para que eles se unam a ela, para que sonhem juntos e assim mudem a realidade, lembrei do histórico discurso de Martin Luther King, “Eu Tenho um Sonho”.

A base desse discurso é a criação de uma realidade diferente, uma realidade que primeiro sonhamos e então construímos. O sonho é a faísca de inspiração, como o foi para Richard Madoc. Como o é para a siamesa.

Claro que a gata de Um Sonho de Mil Gatos quer um banho de sangue e não igualdade para todos, mas em essência, a dor dela e o mote para seu discurso tem por origem um mesmo problema. Seus filhotes são mortos porque são gatos vira-latas e como tais, não têm valor de mercado. Ao se descobrir impotente para impedir o assassinato de seus filhos, a gata descobre que ela mesma só é importante na medida de seu valor, de sua raça, como um objeto, não como ser senciente.

Tanto em Calíope quanto nessa história falamos de criação, mudança e liberdade. Um Sonho de Mil Gatos introduz ainda outro conceito importante: a verdade.

O filhote que acompanha o gato de rua ao discurso da gata siamesa observa que a história que ela contou soa como verdade, ‘ou como uma verdade, pelo menos’. A história dos gatos que dominavam a terra não é uma ilusão, ainda que tenha acontecido apenas dentro do sonho da siamesa: ela é uma faceta da verdade, um aspecto dela.

Essa mesma idéia está presente no capítulo seguinte, Sonho de uma Noite de Verão.

Gaiman plantou as sementes para essa história ainda no arco anterior, quando no capítulo Homens de Boa Fortuna, Morpheus conhece Shakespeare (cujo sobrenome nunca é grafado do mesmo jeito, o que é hilário, porque nenhuma das assinaturas de Shakespeare que sobreviveram até hoje têm a mesma grafia…) e com ele faz um pacto - e a peça que o povo de Faërie assiste aqui é justamente a primeira parte do pagamento desse pacto.

Embora não seja necessário ter lido a peça original para entender o que se passa nesse capítulo de Sandman, saber o que acontece lá certamente enriquece a experiência e o próprio sentido do que se está lendo.

É hilário pensar que a companhia de atores pensa que está a representar sobre personagens folclóricos, imaginários… e que eles estão se apresentando justamente para esses personagens que, teoricamente, existem apenas dentro de sua peça. E eis aqui o conceito de verdade como uma faceta, como um aspecto de algo maior.

Independente de sua platéia, a peça é uma verdade enquanto está sendo apresentada. “Nunca aconteceu, mas ainda assim é verdade”, é o que diz Puck, ecoando as palavras do gatinho branco de O Sonho de Mil Gatos


É também o que diz Morpheus, ao explicar os motivos de ter convidado Titania, Oberon e sua corte para assistir Sonho de uma Noite de Verão.


Como bem resumiria Dumbledore, “Claro que está acontecendo em sua mente, Harry, mas por que isso significa que não é real?”. Em outras palavras, se sonhos podem mudar o mundo e criar realidades, porque não seriam verdadeiros?

O fato de que a corte de Faërie está indo embora desse plano conecta-se diretamente com o que já lemos em Calíope. Os povos mudam, e mudam com eles suas crenças e superstições. À medida que a civilização avança, ela vai abandonando seus antigos deuses e construindo novos mitos. Calíope e outros deuses gregos foram substituídos porque não havia mais lugar entre os mortais para a crença neles. O mundo moderno e seu progresso não tem espaço para fadas.

Mas como Sonho muito bem observa, mesmo depois que os fatos tenham se tornado pó e cinzas e sejam esquecidos, as histórias e os sonhos irão perdurar. Não perdemos por completo a magia e, ao menos enquanto estamos assistindo a peça, acreditamos que tudo aquilo é real. É tudo verdade.

Fantasticamente, Puck encerra esse capítulo quebrando a quarta barreira e se dirigindo diretamente a nós, leitores, que somos também parte dessa platéia e desse sonho. Ele não retorna para o reino sob a colina e não desaparece da História.

Tenho certeza que ainda veremos mais um pouco de Puck ao seguirmos adiante...

A última história de Terra dos Sonhos, Fachada, traz Morte, numa conversa bastante franca com Urania Blackwell, uma heroína da DC, metamorfa capaz de manipular elementos químicos através de seu corpo que trabalhou como espiã para o governo.

Fachada traz uma faceta muito interessante de histórias de super-heróis, explorando o isolamento e os sentimentos de inadequação causados pelo ‘ser diferente’. Urania é uma heroína poderosa, mas seus poderes fazem-na sobressair de maneira negativa - sua aparência estranha, diferente, causando estranheza.

O fato de ser rechaçada por sua aparência faz com que ela se isole cada vez mais, mergulhando numa depressão profunda, além de tudo atormentada pela idéia de que, por sua natureza, ela é praticamente imortal.

Após um encontro desastroso com uma amiga dos tempos de trabalho, mergulhada em completo desespero, Urania se vê de frente com Morte, que está por ali de passagem para levar outra pessoa, mas ouvindo o choro da outra, decide tentar ajudar.

A conversa entre as duas é muito interessante e revela muito da natureza da Morte. Ela não é bendita ou compassiva (para Urania, que crê ser a morte uma benção - os adjetivos seriam diferentes se fosse alguém que se recusa a querer morrer): a morte apenas é.


Essa é uma ‘definição’ que cabe a todos os Perpétuos. Eles são exatamente aquilo que representam, sem maiores adjetivos. Que tenham desenvolvido uma personalidade no processo de sua existência não interessa ou interfere em seu trabalho. Eles são o que são e ponto final.

Das histórias de Terra dos Sonhos, Fachada é o único em que Morpheus não aparece diretamente. Na verdade, no arco inteiro, ele não é protagonista, mas está constantemente na nossa visão periférica.

Contudo, é nesse conto que encontramos o título do arco, explicando assim do que se trata realmente esse terceiro volume de histórias.


Como Calíope e a corte de Faërie, Rá - o deus egípcio responsável pela transformação de Urania na Garota Elemento - não existe mais nesse plano, um mundo moderno que não tem (ao menos aparentemente) lugar para esses mitos.

Mas deuses não morrem. Não porque eles são deuses, mas porque são histórias e as histórias sobrevivem numa “terra dos sonhos” e continuam a influenciar os mortais através de sua imaginação.

A natureza dos sonhos é a própria natureza das histórias, das narrativas - por isso Morpheus é o Príncipe das Histórias. Todo esse arco que acabamos de ler fala disso. Histórias têm poder; elas podem não ser verdadeiras, no sentido de serem fatos, mas ainda assim são uma verdade.

Todos os quatro capítulos - Calíope, Um Sonho de Mil Gatos, Sonho de uma Noite de Verão e Fachada - falam de mudança, em especial, mudança provocada pelo progresso. Mudança que nos distancia da crença fácil na fantasia e no mito. E, no entanto, nunca deixamos realmente de acreditar e esses deuses nunca deixam realmente de existir, porque eles sobrevivem em histórias. Porque nos lembramos deles em sonhos.

Esse é um mote fundamental não apenas em Sandman, mas em praticamente todas as obras do Gaiman, particularmente em Deuses Americanos. Gaiman sempre conta uma boa história, mas no fim da contas, o que ele realmente quer é explorar a natureza das histórias: é pura metaficção, conscientemente explorando os mecanismos da produção literária.

Quando percebemos como todas essas pequenas peças se encaixam é que entendemos a absoluta genialidade de Sandman e porque essa série é tão importante, como quadrinhos, como história, como arte.

Terra dos Sonhos é o arco mais curto de Sandman e eu escrevi mais sobre ele do que nas duas primeiras partes que já lemos. Prevejo até o final desse projeto ter de dividir meus posts sobre cada arco, porque vou ficando mais prolixa quanto mais entusiasmada me torno…

Enfim, não deixem de participar do debate no Pipoca Musical e também na comunidade All About Gaiman. Encorajo particularmente vocês a refletirem sobre a natureza das histórias e sobre o que elas dizem à vocês, qual a importância que elas têm em suas vidas.

Daqui a duas semanas estamos de novo por aqui, dessa vez para debater Estação das Brumas, também conhecido como o volume em que Sandman deixa de ser muito interessante para se tornar absolutamente épico.


A Coruja


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