22 de março de 2016

Livros para Ler no Outono


O Verão (finalmente) terminou e eis que já estamos no Outono. Cá onde estou, não há uma enorme diferença na mudança da estação: continua muito quente, mas agora começou a cair chuva.

Independente do clima, contudo, o espírito da estação está valendo e como tal, hoje acordei pensando em que tipos de livros são bons de ler no Outono.

Os dias começam a se tornar mais curtos e mais frios, as flores começam a murchar, e o verde dá lugar às folhas queimadas, vermelhas e douradas. É uma época que convida à introspecção, a um espírito reflexivo.

Decidi que essa é uma boa época para ler biografias – teoricamente, se você escreve uma biografia de alguém, é porque esse alguém teve uma vida interessante, fez algo de importante, é alguém para nos inspirar e essas são boas características para escolher um livro para a presente estação.

Então vamos às minhas escolhas e recomendações...


Esse ano começamos as comemorações de bicentenários de nascimento das Irmãs Brontë, partindo da Charlotte. Como estive lendo vários dos livros delas nos últimos tempos – só esse ano já foram Shirley e A Inquilina de Wildfell Hall – decidi que era hora de entender um pouco mais sobre as autoras, especialmente porque os livros delas são considerados fortemente autobiográficos.

De início, pensei de procurar a biografia de Charlotte Brontë escrita pela Elizabeth Gaskell – afinal, eu gosto muito do estilo de escrita da Gaskell e ela conheceu Charlotte pessoalmente. Só que essa biografia sofreu duras críticas pela forma como Gaskell priorizou certos relatos e simplesmente ignorou fontes importantes, preferindo ouvir disse-me-disse em vez de testemunhas confiáveis.

Foi procurando informações pela internet que descobri The Brontës – Wild Genius on the Moors: The Story of a Literary Family, escrita por Juliet Barker, que foi curadora do museu dos Brontë em Haworth; biografia considerada pelos críticos como a mais completa para quem deseja estudar a fundo a família.


E, de fato, são mais de mil páginas que começam da partida de Patrick Brontë da Irlanda para a Inglaterra, e passam pela infância até a morte de Branwell, Emily, Anne e Charlotte. Há vários poemas e trechos da juvenília dos irmãos, bem como cartas e críticas publicadas à época.

Charlotte, em especial, cuja correspondência de décadas foi muito bem preservada, revela-se em toda a sua ingloriosa humanidade.

Passei duas semanas para terminar de ler esse aqui e foi um carrossel de emoções: fiquei de coração partido pelo Branwell, tive vontade de torcer o pescoço da Charlotte, revirei os olhos muitas vezes para Emily e fiquei fã da Anne e do Patrick, que tanto incentivou os filhos a se educarem.

É um livro bastante extenso e extremamente rico em detalhes – o tipo de título que indico para quem deseja se aprofundar na história desses personagens, tão interessantes e trágicos como suas contrapartes ficcionais.


Diferente de Charlotte Brontë, cuja extensa correspondência sobreviveu a despeito dos desejos de seu marido, durante muito tempo nossa imagem de Jane Austen foi focada apenas através da lente da biografia escrita por seu sobrinho, que nos deixou por herança a figura da ‘tímida’ e gentil tia Jane.

Contudo, as cartas de Jane – ao menos as que sobreviveram à destruição perpetrada por Cassandra – revelam uma faceta cheia de humor do tipo que não perdoa ninguém, ácido e afiado, como se enxerga em todos os romances deixados por Austen.

Becoming Jane Austen inspirou o filme com Anne Hathaway, embora eu precise dizer que o filme e o livro têm muito pouco em comum, exceto talvez pela atmosfera vivaz que ambos possuem.


Essa biografia começa bem antes de Jane aparecer na história, e busca testemunhos para além da família imediata da autora, permitindo-se extrapolar desses fatos um pouco do que se perdeu com a destruição da correspondência.

Não é a melhor biografia de Austen, visto que se permite algumas conjecturas sem muitas provas em que se basear, mas é um bom livro para quem deseja se aprofundar um pouco mais na sua história, com uma leitura leve, fluida e divertida.


Terminando por hoje, vou recomendar uma terceira biografia de uma famosa figura feminina do século XIX - embora diferente de suas predecessoras, ela não seja uma autora: estou falando da soberana que deu nome a toda uma era e uma cultura: a rainha Vitória.

O livro escrito por Lytton Strachey - parte do famoso Círculo de Bloomsbury - é saboroso e agradável de ler, por vezes permeado com uma afetuosa exasperação pela figura da Rainha. Ele passa por cima das partes mais escandalosas e desabonadoras que envolveram Vitória, mas nem por isso é menos sagaz em seus insights ou casualmente irônico quando necessário.

É um livro relativamente curto, de prosa elegante, que bem demonstra o talento literário do autor: Rainha Vitória se lê quase como romance e não é à toa que esse livro serviu como base para o belo filme A Jovem Rainha Vitória. Eis uma biografia que eu recomendaria mesmo para quem não está acostumado a ler desse gênero.


Contudo, não o indico para quem deseja um estudo sério e aprofundado da era vitoriana e de sua gloriosa rainha e imperatriz. Lytton não está preocupado em fazer críticas ou análises sociais. Não tira o prazer de ler seu pequeno volume a té pode servir como um estudo introdutório, mas não se pode chamá-lo de a biografia definitiva de uma figura que governou por tantos anos por um período tão revolucionário da História.


A Coruja


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