16 de fevereiro de 2016

Para ler: Shirley

“O amor pode desculpar qualquer coisa, exceto a maldade. A maldade mata o amor, aleija a afeição natural e, sem estima, o amor verdadeiro não pode existir.”
É curioso como esse livro, a princípio, fazia perder-me em comparações. As primeiras 50 páginas, que contam dos esforços de Robert Moore com sua fábrica, imediatamente me lembraram a incansável dedicação de Mr. Thornton, de Norte e Sul. Quando surge em cena Miss Caroline Helstone (e esse sobrenome também é familiar para quem leu o romance de Gaskell), sua imagem de quase perfeição me remeteu para Evelina. Caroline, contudo, destaca-se lá pela página 100, quando demostra admirável autoconhecimento e dá os primeiros passos para escapar do que enxerga como perigoso sentimentalismo e um amor fadado a partir seu coração. A suposta real protagonista, que dá seu nome ao título, só surge na página 138.

É engraçado: demorei a começar a ler Shirley, em parte por compromissos da ‘vida real’ (dezembro e janeiro foram massacrantes...) e em parte porque Villette, da mesma autora, deixou-me emocionalmente exausta. A intensidade de Lucy Snowe é fascinante, mas pode sua jornada pode ser bastante dolorosa, inclusive pelo final em aberto que deixa implícito apenas tristezas.

Uma vez tendo começado, contudo, foi difícil separar-me do livro para banalidades como comer ou dormir. Shirley é um romance folhetinesco vira-páginas, daqueles em que você anseia desesperadamente em saber o que vai acontecer a seguir. Foi por muito pouco que não virei uma noite às voltas com ele – ao final, terminei-o em dois dias e ao chegar ao final, descobri que não me importaria se pudesse passar mais tempo na companhia daqueles personagens.

Em Villette e Jane Eyre (em menor medida nesse último), Charlotte nos apresenta a protagonistas introspectivas, que, embora passionais sob a superfície, se fazem invisíveis na aparência para poder sobreviver. Por mais que Lucy e Jane perambulem pelo mundo, suas histórias não me parecem ter o mesmo tipo de constante movimento que nos é passado em Shirley. Talvez porque temos o industrial Mr. Moore indo de um lado para o outro tentando resolver o problema das máquinas e dos operários revoltados; pela necessidade que Caroline tem de se ocupar, de se perder em outras preocupações para não pensar em sua própria dor; ou mesmo pela vivacidade por vezes delirante da jovem Shirley. O fato é que tudo acontece rápido, o passo é ligeiro, como o progresso que Moore deseja trazer ao condado.

Ao terminar e refletir com mais vagar sobre o que lera, percebi também que era um livro cheio de raiva e raiva era muito do que estava por debaixo do ardor de Shirley. Raiva da hipocrisia, da necessidade de aparências, do tratamento dado a mulher... Essa sensação de injustiça, contra a qual Shirley por vezes tenta lutar, é um grito da própria Charlotte e permeia boa parte de suas obras.

Há uma miríade de personagens, com suas próprias agendas e interesses e não podemos classificá-los em heróis e vilões – o contexto social da guerra e da revolução industrial nunca é esquecido e está constantemente no centro das motivações dos personagens. Do ponto de vista humano, é um livro muito real, muito crível pela forma como todos eles se movimentam na história (exceto por algumas coincidências folhetinescas, mas não posso falar muito delas sem entregar spoilers).

Concordo com a defesa da editora ao colocar Caroline junto a Shirley no subtítulo. Embora muitos dos temas defendidos ao longo do livro sejam masculinos – no sentido de serem preocupações da esfera masculina à época – a história nos é apresentada principalmente pelos olhos dessas duas mulheres, e sob o prisma da amizade que as une (amizade essa, aliás, que foi um dos meus pontos favoritos do enredo).

Em resumo, um excelente livro, daqueles que não apenas nos brindam com excelentes romances, mas que também nos fazem refletir. Já deixou saudades...

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Shirley - a história da órfã Caroline Helstone e da herdeira Miss Keeldar
Autor: Charlotte Brontë
Tradução: Fernanda Martins
Editora: Pedrazul
Ano: 2014


A Coruja


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2 comentários:

  1. Estou com esse livro na fila para ler, mas ainda não consegui... :(

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    Respostas
    1. Dê-se tempo.E quando começar, tenho dúvidas se vai conseguir largar ;)

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