12 de dezembro de 2015

Por Dentro da Cabeça das Autoras: Escrevendo a Quatro Mãos


Ísis: Olá, queridos leitores. Com o último capítulo de “Heróis de Papel” no ar, as portas estão abertas para um vislumbre das mentes por trás das história. (Entre por sua conta e risco!)

Bem-vindos ao País das Loucuras.

Lulu: Sinto que essa será uma conversa que vai render... ok, então...

Começou assim: eu (Ísis: É claro que começou com você!) li uma carta de um veterano da segunda guerra mundial no Letters of Note e fiquei martelando na minha própria cabeça ‘quero escrever um romance epistolar, quero escrever um romance epistolar, quero escrever um romance epistolar com um soldado como um dos correspondentes, quero escrever um romance epistolar’...

Isso foi mais ou menos pelo meio do ano passado e aí algum tempo depois, em julho, viajei para Fortaleza para ver o Dé e a Ísis, já que ela estava passando uma temporada no Brasil.

Ísis: YAY!!!! \o/ Foi Muito bom! =^^=

Lulu: Sim, de fato, bom demais!

Enfim... Na véspera de voltar pra casa (depois de fazer muita lambança e comer meu próprio peso em brownies), estava sentada olhando para o jardim enquanto a Ísis corria na esteira e de repente, não mais que de repente, virei para ela e disse “porque não escrevemos um romance epistolar?”. E aí comecei a juntar o que já tinha me passado pela cabeça e a complementar com detalhes que ia inventando na hora.

Ísis: E nem precisava tanto. Bastou ela dizer “romance epistolar”, que eu já tinha concordado. Depois ela disse “durante a Segunda Guerra Mundial”, eu tive receio (porque sou péssima de lembrar das coisas – apesar de ser elefante – e isso inclui fatos históricos), e depois ela disse entre dois homens. Selou o acordo. Fica a critério de vocês de nós escrevemos um romance epistolar romântico, ou um “romance epistolar amigável”... XD

Lulu: Isso foi algo sobre o que debatemos bastante, porque a carta original que rendeu toda essa conversa era entre dois soldados que tinham um relacionamento romântico secreto, já que eles poderiam ir para a corte marcial se fossem descobertos... No final, deixamos que a história seguisse seu rumo e nos levasse onde ela quisesse ir.

Mas, continuando a história da história...

Eu estava arrumando a mala para ir para o aeroporto quando a Ísis começou a escrever a primeira carta com caneta verde (os detalhes que ficam na memória...) – carta essa que li quando já estava no avião. Esse primeiro esboço não me convenceu particularmente, de forma que cheguei em casa, fui desembarcando e já reescrevendo tudo enquanto tentava convencer Isinha ao telefone que eu estava mais para soldado neurótico que ela.

Ísis: Eu vou ser sincera e confessar algo para Lulu (bem, pelo menos eu acho que ela não sabe, mas é a Luciana, então...), então, por favor, não me mate...

Para mim, desde o princípio, estava óbvio, claro e “Lululante” que era a Coruja quem assumiria o soldado. Primeiro porque ela que gosta de história; segundo, ela gosta de história (principalmente momentos bélicos XD) o suficiente para ter escrito duas monografias sobre guerras (!!!!); e, terceiro, que ela é que vai lembrar os detalhes históricos mesmo. Embora eu estivesse disposta a sair fazendo pesquisas e pesquisas (meu Deus, é CONTAGIOSO!!!! Corram para as colinas!!!! Sigam o bode!!!) para poder escrever um bom soldado, tinha 95% de certeza que Lulu é quem assumiria o posto. Assim, que inventei de escrever a primeira carta só para ver o que ela dizia.

Foi hilário, preciso dizer. A cara da Lulu quando vetou meus trocadilhos foi fantástica. Mas depois desse momento de descontração (e do alívio de não ter de fazer pesquisas e pesquisas, mas apenas checar alguns dados aqui e acolá), tava na hora de pôr a mão na mas- digo, na caneta (ou lapiseira, ou teclado).

Lulu: Eu desconfiava dessa verdade que você acaba de confessar, Ísis, mas obrigada por confirmá-lo agora. XD

O caso é que reescrevi o Alex... e a Ísis logo depois escreveu a primeira carta como David e... tudo clicou no lugar (vocês já tinham se dado conta de que eu era o Alex e a Ísis era o David?).

Ísis: As dez primeiras cartas saíram rapidinho, porque eu ainda não tinha entrado na reta final da tese de mestrado (que interrompeu o fluxo das últimas 6 ou 8 cartas), de forma que Lulu escrevia num dia, e eu já respondia no outro.

Lulu: Sim, a primeira parte da história foi beeeeem rápida de escrever. Tanto que um mês depois da minha visita a Fortaleza, Ísis desembarcou no Recife. Nós já estávamos lá pela quinta carta e mega empolgadas com o que estávamos fazendo, em escrevermos juntas.

Ísis: SIIIIIIIM!!!!! Saudades de escrever em conjunto! ^^

Lulu: Ísis passou uns três dias lá em casa e foram três dias falando quase direto do que pensávamos em fazer com Alex e David.

O engraçado é que mesmo com toda essa conversa, evitamos ao máximo falar muito sobre o background de cada um. Falávamos sobre o que teria acontecido com Alice...

Ísis:Ex-spoiler”: Ela era uma pessoa horrível, a princípio!

Lulu: ...sobre como a questão da guerra se desenvolveria na história, sobre quantos capítulos seriam...

Ísis: Isso, nós não discutimos. Você deu um número, baseado em seus cálculos, eu não contestei e nós trabalhamos com ele. LOL

Lulu: ...sobre os episódios históricos que tínhamos de prestar atenção como marcos para o que escrevíamos, sobre como era a vida entre 39 e 45, sobre Winston Churchill

Ísis: Aula de História por meio de biografias com D. Coruja! ^^

Lulu: ...e imagens para usarmos como base para certas cenas.

Isso porque queríamos que as reações de Alex e David fossem naturais, consequência de terem acabado de descobrir algo novo em seu novo amigo e não algo planejado de longo prazo.

Quem lê os comentários que fazemos em Quem Conta um Conto sabe o nível de planejamento que eu costumo ter para escrever minhas histórias. Nesse aspecto, Heróis de Papel foi algo diferente pra mim – eu não podia planejar nada a longo prazo (Ísis: HÁ!!!! XD) sem saber exatamente o que David falaria a seguir.

Ísis: E eu interrompo aqui pra dizer que levei em séria cogitação me aproveitar disso. Pensei em jogar coisas randômicas, só pra pegar a Coruja desprevenida. Mas aí não teria tanto impacto quando finalmente chegasse a hora do David contar sua história, então...

Isso, e a pobre da Coruja teve de reorganizar o calendário de posts umas três vezes! Quase que pedia perdão de joelhos... Isso porque, a despeito do ritmo inicial, não conseguimos terminar as cartas antes de chegar nos “finalmentes” da minha tese, o que significa que precisei deixar de lado o projeto, para poder escrever a bendita... (mas ainda fiz umas duas cartas nesse ínterim, quando precisava me distrair)

Lulu: Pois é... mas considerando que a Ísis interrompeu os trabalhos numa época em que eu também estava enrolada, no final deu tudo certo!

Para além de tudo isso de que já falei, eu tinha de prestar atenção nas deixas que a Ísis dava para mim. Desde o princípio, Alex não tem muitos escrúpulos em deixar sua história em aberto – David já leu suas cartas para Alice, já lhe está fazendo um enorme favor, o que ele poderia ter a esconder mais?

Só que David é mais reticente e isso era algo que Alex tinha de ser capaz de perceber e, à medida que os dois iam se tornando mais próximos, saber onde ele poderia pressionar David para que o amigo se sentisse suficientemente à vontade para desabafar.

Ísis: Rapaz, a Lulu me impressionou MUITO nesse ponto. Ela percebeu praticamente todas as dicas, deixas, indiretas e mínimos detalhes que eu escrevia como David. Não precisei indicar quase nada. Palmas pra você, Dona Coruja. Prometo não apoiar nenhuma rebelião contra Vossa Majestade pelas próximas três semanas. :D

Lulu: Só três semanas? E porque três semanas? O que três tem a ver com a história?

De toda forma, voltando ao assunto em pauta... Não sei se pelo fato de estar acostumada a trocar cartas com a Ísis – e nós escrevemos cartas uma para a outra desde que nos conhecemos, estamos sempre mandado “care packages” com presentes, lembranças, fotos, chocolate e outras coisas parecidas – mas não foi difícil (ao menos, não para mim) entrar no espírito que a correspondência de Alex e David exigia.

Ísis: Pra mim demorou um pouco, porque precisei me desprender de mim mesma para tentar escrever David (temos pontos em comum e pontos em divergência, claro), e também para desassociar Lulu de Alex. Não foi exatamente difícil (partindo do princípio que tenhamos acertado), mas não foi instantâneo... Pelo menos não para mim.

Lulu: Acho que esse processo foi um pouco mais fácil pra mim porque eu passei bastante tempo remoendo a idéia antes de falar dela pra ti... quando comecei a escrever, eu já tinha mais ou menos me situado nesse aspecto...

O Alex é uma pessoa mais prática que eu, com um senso de humor mais seco, e mais direto ao ponto – uma das poucas coisas com que sofri escrevendo-o foi tentar dar freio na minha usual prolixidade. Embora seja um confesso antissocial, ele tem uma enorme capacidade de empatia e compaixão e essas são, provavelmente, as características que mais gosto nele.

Ísis: Eu adorei descobrir o Alex aos poucos. Lentamente descobrir o humor dele (e eu morri de rir nas vezes em que se manifestou), ver que, apesar de não ser muito social, ele estava captando as indiretas do David... Achei incrível, e também meio contraditório, mas ficou bom.

Lulu: Contraditório pela forma como ele consegue se abrir com o David ou pela capacidade de empatia dele?

Assim, de certa maneira, conversas dos meus pais com meu irmão, que é médico, serviram de base para criação da personalidade do Alex: D. Mãe sempre diz que empatia é uma das qualidades mais importantes para um médico que trata com público (meu irmão quer ser cirurgião e cortar gente, então não sei o quanto isso é válido para ele...).

Por outro lado, levando em consideração a história pregressa, o fato de que Alex não teve uma juventude fácil, isso me fez considerar que ele seria uma pessoa desconfiada e bastante cética.

Mas, como eu disse antes... ele e o David se ‘encontraram’ num período em que Alex encontrava-se bastante vulnerável e tinha uma enorme necessidade de encontrar uma âncora – Alice tinha esse papel originalmente, mas sem ela, Alex ficou meio que à deriva até a chegada de David.

A princípio, ele se abriu com David por que não havia outras alternativas – era mais fácil conversar com alguém que não o conhecia nem podia julgá-lo: nada do que Alex dissesse para David poderia ser usado contra ele. A forma como seu amigo correspondente se prontificou desde o início a ajudá-lo também faz parte do processo de confiança entre os dois. Alex é desconfiado, mas não é tolo.

Ísis: Quanto ao David, afora ele ser homem, ter pelo menos mais uma década que eu, viver a primeira e a segunda guerra mundial, e não ter relações boas (nem ruins) com sua família, até que temos algo em comum: gostamos de nos sentirmos úteis, e de encher alguém com presentes e sorrisos. Nenhuma caixa minha pra Lulu, por exemplo, vai com menos que três itens diferentes.

Mas ele é também um artista, e foi aqui que pus a válvula de escape dele. É a forma dele de lidar com pressão, e também de dar asas à imaginação. Eu não desenharia o que ele desenha, por exemplo, embora imagine (claro, óbvio!).

Lulu: Uma das coisas que mais gostei no David é que ele é inspirador. Mesmo nas primeiras cartas dele, antes de conhecer Alex a fundo, David preocupa-se em encorajá-lo, em lhe dar razões para continuar lutando, para não esmorecer. Ele é um sábio.

Ao mesmo tempo, ele me passa uma impressão de tristeza e solidão – algo que eu e Alex percebemos mesmo antes de saber que David tinha sido abandonado pela esposa e pela família. Creio que outro dos motivos de Alex ter se aberto com David foi se identificar com essa solidão.

Continuando esse ‘making-of’... Quando eu primeiro tive o lampejo de escrever um romance epistolar, o plano era escrever sozinha (Ísis: BUUUUUUU!!!!). Chamar a Ísis para escrever junto foi uma das melhores idéias que já tive: eu estou realmente orgulhosa do resultado final de Heróis de Papel e da forma como nossos personagens cresceram.

Começamos a escrever em julho de 2014 e, por essas coincidências da vida que são quase destino e sinal divino, declaramos a história oficialmente terminada (após uma série de revisões) em 08 de maio de 2015 – exatamente o aniversário de 70 anos do fim da Segunda Guerra na Europa.

Ísis: EU considero sinal divino... ou Hitsuzen, conforme seja sua crença. :D

Mas preciso acrescentar que Lulu não está zoando. Afora as revisões que eu ia fazendo mais ou menos a cada cinco cartas que escrevia, quando terminamos tudo, seguiram-se mais várias outras revisões.

Lulu: Foi uma boa jornada até chegarmos a esse ponto. Esperamos que tenham gostado de ler essa história tanto quanto nós gostamos de escrevê-la. Ela com certeza deixará saudades.

Ísis: De fato, mas temos mais idéias, então quem sabe não tenhamos algo novo em breve, né? :D

Lulu: Sim, com certeza!

É isso então... até o próximo projeto delirante do zoológico!

Ísis: \O__O/


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