11 de dezembro de 2015

Heróis de Papel - Epílogo


Epílogo

30 Anos Depois...

Caro Lex,

Amanhã faz exatos 30 anos desde que lhe enviei a primeira carta. O que eu esperava ser apenas um serviço para me ocupar, e para ajudar um jovem soldado, acabou por progredir numa troca de experiências que, eventualmente, transformar-se-ia na amizade que temos hoje. Você tem sido tão bom companheiro em pessoa quanto foi em escrito, e ainda mais.

Muita coisa mudou desde então, e algumas estão exatamente como eram. Paramos de nos desculpar incessantemente, embora isso tenha demorado alguns anos após sua volta ao país. Tomamos limonada uma vez por semana. Dividimos experiências, algo que não achei que faria com alguém tão mais novo... Mas você sempre se constituiu uma exceção pra muita coisa.

Mesmo nos encontrando quase que todos os dias desde sua volta, não conseguimos abandonar o hábito de, volta e meia, enviar um ao outro uma carta, um postal ou um presente. Em particular, foi-me de especial apreciação a gravação de minhas melodias preferidas em diferentes instrumentos tocados por você. Mas isso você já sabe.

Pude conhecê-lo antes mesmo de nos apresentarmos, de forma que me senti seu igual, seu amigo, seu confidente, seu irmão. Tive o orgulho de poder ajudar a retomar sua vida, e de poder chamá-lo de família.

Você me organizou uma enorme comemoração de aniversário tão logo teve chance após voltar, e tem-no feito desde então. Chamou-me como companhia para sua primeira ópera. Fui o primeiro a saber que não foi aprovado por pouquíssimo em sua primeira tentativa de entrar na escola de medicina. No ano seguinte, comemoramos seu 25º aniversário e sua entrada para o tão almejado curso. Anos depois, foi a vez de celebrar sua formatura com louvor.

Pude acompanhar seu progresso enquanto conquistava sonhos e revivia pesadelos, seus sucessos e tropeços, tanto profissionalmente, quanto pessoalmente. Também pude contar com você quando fiquei gravemente doente, e quando das temidas reuniões “de família”. Pudemos contar um com o outro quando da morte de Marianne.

Quando nos era possível, visitamos lugares incríveis, inclusive minha tão sonhada Veneza. Em outra ocasião, fomos mais ao norte para nos deliciar no mar.

Ainda hoje o observo encarar os desafios que lhe são jogados, fazendo o que posso para lhe servir de âncora, tendo a absoluta certeza de que fará o mesmo por mim, nos momentos que preciso.

Eu tenho apenas a agradecer pela sorte que tive, pela sua amizade inabalável desde então, pela sua presença em cada momento marcante.

Por isso, envio esse presente como agradecimento. Junto de seus doces preferidos, vai também um desenho no qual tenho trabalhado há algum tempo. Tentei colocar cada fase que tive o privilégio de acompanhar, uma espécie de biografia sucintamente ilustrada.

Eu o salvei da solidão e do desespero; você me salvou do meu isolamento e da minha angústia.

Mas tudo isso começou com simples cartas. Talvez por isso atribuímos tanto valor às mesmas, e não resistimos à tradição. Elas foram o veículo que nos trouxeram nossos respectivos heróis.

Nossos heróis de papel.

Abraços, e até amanhã,

Kal.


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