24 de novembro de 2015

Para ler: A marquesa d'O... e outras estórias

Em M..., uma importante cidade da alta Itália, a Marquesa d'O..., uma dama de excelente reputação e mãe de crianças muito bem educadas, comunicou pelos jornais que, sem saber como, havia engravidado, que o pai da criança, que estaria para nascer, deveria aparecer e que ela, por motivos familiares, estaria decidida a desposá-lo.
Descobri a existência do dramaturgo alemão Heinrich Von Kleist ao ler A Manobra do Rei dos Elfos, que me levou a crises de riso quase incapacitantes. Emprestei o livro à Régis, com quem compartilho um carinho especial por humor nonsense e autores românticos alemães e ao devolver o meu volume, ela mandou junto A marquesa d’O... e outras histórias, reunindo alguns contos do Kleist – incluindo a mais famosa de suas novelas, Michael Kohlhaas.

Não demorei muito a começar a leitura... mas demorei a conseguir terminar. Eu não sabia bem o que esperar de Kleist, exceto um intenso exagero romântico, baseando-me no que conhecera no livro em que ele aparecia como personagem. Intenso, de fato, ele é, e exagerado, por vezes, mas os contos apresentados nessa coletânea são brutais em seu retrato da justiça humana.

Passando por armadilhas sedutoras em meio à revolta de escravos em São Domingos contra os franceses, um terremoto no Chile que parece ter salvo milagrosamente dois amantes condenados à morte que são então brutalmente executados, até uma marquesa aparentemente salva de um terrível destino por um conde russo, Kleist parece sentir um perverso prazer em nos mostrar a faceta mais maligna do ser humano.

Nenhum dos contos supera, contudo, o caso de Michael Kohlhaas, um negociante de cavalos que se transforma em inimigo do Estado na esperança de fazer justiça após sucessivas tentativas de adotar medidas legais contra o nobre que o lesou. Quando comecei a ler, achei que Kohlhaas terminaria sendo apenas um típico plebeu que seria esmagado pela arrogância casual de seu nobre antagonista, e assim é que, à medida que suas ações escalavam, eu ia ficando cada vez mais pasma, sem ter idéia de como aquilo poderia terminar.

Não é uma coincidência que Kohlhaas fosse um favorito de Kafka – os absurdos kafkanianos definitivamente encontram eco na obra de Kleist. É de se perguntar constantemente se Kohlhaas é de fato herói ou vilão: sua busca por justiça em termos absolutos o leva a ser bastante impiedoso e muitos outros inocentes se tornam dano colateral em sua luta – algo que Lutero, que aparece como personagem importante na história, questiona.

De certa forma, Kohlhaas me faz lembrar de Shylock, de O Mercador de Veneza – ainda que Shylock seja movido mais por um desejo de vingança pessoal, os dois sofrem a mesma tragédia: seu status como alguém ‘de fora’ (Shylock como judeu, Kohlhaas como plebeu) permite que o Estado acredite que possa ignorá-los e deixá-los a gritar no vácuo enquanto clamam por direito.

O curioso é que quando comentava o livro com a Régis (a dona do volume), ela observou que tinha ficado louca para ler o Kleist após vê-lo citado em A Luta pelo Direito de Rudolf von Ihering – que, quando fui procurar, faz essa mesma comparação.

É uma pena que o livro esteja esgotado aqui no Brasil. É possível encontrar edições apenas com Michael Kohlhaas, vez que em 2013 foi lançado um filme inspirado na novela de Kleist, com Mads Mikkelsen no papel do protagonista.


Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: A marquesa d'O... e outras estórias
Autor: Heinrich von Kleist
Tradução: Cláudia Cavalcanti
Editora: Imago
Ano: 1992


A Coruja


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Um comentário:

  1. Adicionando A Manobra do Rei dos Elfos na listinha de compras mesmo não conhecendo nada de literatura alemã! \o/
    Bom, a gente precisa começar de algum lugar, certo? hahahaha

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