14 de novembro de 2015

Atual Conjuntura: 'Apenas os mortos viram o fim da guerra'


Esses últimos dias tivemos uma enxurrada de notícias trágicas – bem como aquela série de comentários cretinos nas redes sociais de quem não tem o que fazer e gosta de ficar julgando os outros por seus padrões de pobreza de espírito. O Dé, que é biólogo e entende melhor do assunto, vai falar sobre Mariana depois. E eu vou falar um pouco sobre o que aconteceu em Paris.

Para começar, porque falar de Paris e não de Beirute? De Bagdá? Bem, a verdade é que falando de Paris estamos também falando de Beirute, Bagdá, do avião russo no Egito e de tantos outros atentados diários que têm acontecido pelo Oriente Médio. Sendo brutalmente sincera, Paris chama atenção porque é quase ‘o quintal de casa’ – é parte do que chamamos do “Ocidente civilizado”, tem uma cultura muito próxima da nossa, é um ‘país de primeiro mundo’, onde você não acredita que vá acontecer dessas coisas (embora essa não seja a primeira vez esse ano).

Paris chama atenção porque ouvir falar de atentados no Oriente Médio é coisa diária, tão comum que já nos dessensibilizamos. As mortes na Síria e os refugiados não são mais seres humanos com suas histórias de vida particulares: são estatísticas. Tanto é verdade que o ISIS está sempre mudando e escalando suas hediondas performances (e não há outra palavra para chamar uma tão clara propaganda do terror): começaram com decapitações, graduaram-se com defenestrações, jaulas e queimados vivos, seguiram com a destruição de artefatos e sítios arqueológicos de valor incalculável. Afinal, é necessário ‘incrementar’ a programação para manter sua ‘audiência’.

Não deveria ser assim. Pessoas não deveriam se tornar estatísticas. Mas como lidar com a magnitude do horror perpetrado por essas pústulas da humanidade? Como não enlouquecer de ódio, de medo, por pura impotência diante de suas atrocidades?

Acostumar-se com as más notícias diárias que nos chegam do Oriente Médio não significa que perdemos a compaixão. E nos estarrecermos diante do que ocorreu em Paris não é sinônimo de não nos importarmos com Beirute ou Bagdá.

O resultado final do atentado na França é a construção de um símbolo tão poderoso e trágico quanto as torres do World Trade Center e a prova de que o ISIS conseguiu por definitivo tornar-se um ator global.

Tratemos dos fatos...

As informações ainda estão um pouco desencontradas – foram vários ataques ao mesmo tempo, há centenas de feridos, os terroristas ainda estão sendo caçados... Não há números definitivos, e a situação ainda é bastante tensa. A França está em estado de emergência, com as fronteiras fechadas e qualquer ai parece um prenúncio de algo mais prestes a explodir – houve um descarrilamento de trem mais cedo, próximo à fronteira e imediatamente se falou em um novo atentado, mas parece que foi um acidente.

Contudo, a despeito da sensação de ‘estado de sítio’, não se pode falar que estamos à beira de começar uma 3ª Guerra Mundial. Primeiro porque para se falar em guerra, é necessário que se trate de um conflito entre estados e, embora o ISIS se auto intitule um Estado, eles são um ajuntamento de células terroristas não particularmente hierárquicas – se fossem capazes de se estabelecer pacificamente no território que já conquistaram, é provável que se implodissem por disputas internas, mas como têm um inimigo em comum, são capazes de agir de forma razoavelmente coesa.

Segundo porque as duas primeiras guerras mundiais só foram possíveis porque havia diversos estados lutando de cada lado. Nem o Irã, reputado pelo Bush no início da década passada como parte do ‘eixo do mal’ é aliado deles. A exceção fica por conta da Turquia, que é uma aliada de ocasião muito por baixo dos panos, já que eles parecem estar mais interessados em bombardear curdos (que foram dos primeiros a pegar armas contra o ISIS). O fato, contudo, é que nenhum estado nacional, em sã consciência, se colocaria do lado deles.

A dificuldade de derrotar o ISIS é decorrente de sua estrutura fragmentária. Eles não estão adstritos a um território, eles não têm um comando comum e qualquer eventual maluco pode decidir se tornar um lobo solitário, praticar um atentado e dizer que o fez sob a bandeira deles – e eles não vão dizer que nunca tiveram qualquer contato com aquela pessoa, porque é de seu interesse fazer uma propaganda que lhes deixe com fama de serem capazes de atacar em qualquer lugar a qualquer tempo.

A melhor estratégia, por hora, seria sufocá-los financeiramente – por isso os últimos bombardeios americanos em campos de petróleo dominados pelo grupo. Mas será necessário ainda muito esforço para cortar o financiamento que permite a compra de armas.

O problema maior é a capacidade de atração ideológica que eles exercem. É algo que não consigo compreender, não sendo segunda ou terceira geração de família de imigrantes em estados que têm se tornado cada vez mais hostis a estrangeiros e com cada vez menos oportunidades de vida. Mas isso só não explica – até porque as maiores vítimas desses terroristas não são os ocidentais, mas seus próprios povos.

Buscar causas e culpados é um exercício infrutífero. O ISIS, como a al’Qaeda, nasceu em meio a um vazio no poder que começou muito antes da Guerra ao Terror, pós-Onze de Setembro. Se quiser ir às raízes, talvez cheguemos mais longe que as cruzadas.

Culpar a religião é uma falácia ainda maior. Em sua essência, o islamismo não é uma religião que prega a guerra e a intolerância. A mensagem reproduzida pelos terroristas é uma imagem deturpada que serve aos seus próprios brutais interesses. Sua luta não tem por objetivo qualquer nobre causa.

O que o ISIS (e suas variantes) deseja é a sublimação de espaços de coexistência. O ataque a Paris – cidade notoriamente cosmopolita e berço da nossa sociedade contemporânea, com seus ideais de liberdade, igualdade e fraternidade – tornou-se um alvo exatamente por isso.

É aqui que culmina o ataque de ontem, as consequências que poderão surgir desses atos de terror. Eles servem de combustível para as alas radicalmente conservadoras, para os movimentos políticos reacionários, para os grupos xenófobos. A continuar como está, é uma questão de tempo para que políticos da ultradireita cheguem ao poder.


Considerando as tensões sociais e culturais que já existem por toda a Europa, o fato de que já existe uma expressiva parcela populacional de muçulmanos nesses países, e a crise de refugiados que não tem uma solução visível a curto ou médio prazo, não é difícil perceber o potencial para convulsões internas que rapidamente se desdobrariam no cenário globalizado.

Com tudo isso, porém, ainda existe espaço para crer que há esperança. Enquanto os diversos atentados ainda ocorriam, parisienses abriram as portas de suas casas para os estranhos que tinham ficado na rua, impossibilitados de voltar aos seus destinos por causa do bloqueio de linhas do metrô e fechamentos de ruas. Taxistas desligaram seus taxímetros e levaram passageiros que não sabiam como chegar em segurança a algum abrigo.

Estamos longe do final desse conflito. Assim é que torço para que possamos emular a coragem, compaixão e solidariedade dessas pessoas, em vez de cair na armadilha da intolerância e do medo.


A Coruja

p.s.: recomendo a leitura do artigo O Pensamento Vil e os Acontecimentos na França do Xadrez Verbal, que é sempre uma ótima fonte de notícias e análise da política internacional.


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2 comentários:

  1. Ótimo texto, dona Lulu!
    No dia dos atentados alguém postou um scan de um texto do ISIS onde eles "explicam" esse objetivo de sublimação dos espaços de coexistência - que eles chamam de "grayzones" - na tentativa de estimular a polarização, a reação conservadora, a tomada de lados...enfim, como você disse no post, nas consequências que surgem desses atos.
    E fiquei pensando...diabos, como fazemos pra criar mais grayzones? Como estimular a coexistência (física, virtual, cultural, de todas formas), e como evitar que esses discursos ultraconservadores ganhem mais força ainda? Como diz a Granny Achings, bring people into the sheepfold, someone has to speak for that which has no voice...
    Enfim...vamos em frente!

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    1. Locais de livre circulação de idéias - como escolas e universidades - são espaços de coexistência por excelência. É uma das razões das tentativas de repressão contra a educação, especialmente para as mulheres - vide o caso da Malala e as meninas sequestradas pelo Boko Haram na Nigéria. Ao mesmo tempo, contudo, esses podem ser espaços de perpetuação das diferenças, fechando seus portões e suas oportunidades para os jovens que acabarão por serem seduzidos por grupos como o EI...

      É de fato complicado, especialmente porque os erros e preconceitos estão muito entranhados na mentalidade dessa sociedade. De um lado e do outro.

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