8 de outubro de 2015

Gazeta de Longbourn: Emma

- Palavra de honra, Emma, que ouvindo você abusar assim do raciocínio que tem, quase me leva a pensar igual. É melhor não ter bom senso do que empregá-lo como você o faz.

- Sem dúvida - exclamou ela, jocosamente. - Sei como este é o sentimento dos tolos. Sei que uma jovem como Harriet é exatamente o que todos os homens aspiram; algo que ao mesmo tempo enfeitiça os sentidos e satisfaz o julgamento. Ah, Harriet pode escolher alguém a dedo. Se o senhor estivesse a fim de casar ela seria a sua mulher ideal. E seria o caso de censurá-la só porque, aos 17 anos, mal começando a vida, só agora conhecendo as pessoas, tenha recusado a primeira proposta que recebe? Não... deixemos que tenha tempo para cuidar de si mesma.

- Sempre julguei a amizade de vocês muito insensata - disse o Sr. Knightely -, embora tivesse guardado a minha opinião para mim; mas agora entendo que ela será inteiramente desastrosa para Harriet. Você irá infundir-lhe tais ideias sobre sua beleza e sobre seus méritos, que, em breve, ninguém a seu alcance será suficientemente bom para ela. Quando a vaidade age sobre a cabeça fraca produz toda sorte de danos.
Jovem, bela, rica e inteligente, mas extremamente entediada da vida repetitiva que leva, numa cidadezinha de interior da qual nunca saiu por causa do pai hipocondríaco, Miss Emma Woodhouse decide que sua vocação na vida é ser uma casamenteira. Assim é que decide colocar sob sua asa uma jovem sem grandes perspectivas e moldar-lhe os interesses ao mesmo tempo em que lhe arranja marido.

Acostumada a ser a rainha da pequena comunidade de Hartfield, Emma recebe a corte de tolos (como Miss Bates) e ambiciosos (Mr. Elton), enquanto brinca de mestre das marionetes com Harriet Smith e finge que escuta as lições de moral do vizinho e amigo da família, George Knightley.

E assim teria continuado a ser, não fosse o retorno de dois personagens que, tendo deixado Hartfield quando crianças, serviam de constante conversa para aqueles que tinham ficado para trás: a prendada Jane Fairfax e o charmoso Frank Churchill, o que transformará não apenas a pacata cidade, como a própria Emma.

Publicado às vésperas do Natal de 1815, Emma foi escrito no auge da carreira de Austen – e nada demonstra isso melhor que o fato de o príncipe regente ter informado à autora, através de seu bibliotecário-chefe, que permitiria que ela lhe dedicasse seu próximo livro.

Esse episódio nos deixa concluir duas coisas: primeiro, que George não era uma pessoa particularmente sutil e segundo, que embora os livros fossem publicado com autoria de “por uma dama”, o segredo da identidade da escritora não era lá tão segredo assim.

Com todo o humor e propriedade que lhe eram característicos, Austen também não foi particularmente sutil em sua resposta. Emma de fato tem uma dedicação ao príncipe regente (afinal, não se pode dizer que a permissão foi exatamente uma sugestão...), e até um personagem (que, por acaso, é o herói do romance) com o nome de George Knightley...

Para entender porque essa escolha é uma espécie de tapa com luvas de pelica não apenas no príncipe, mas na própria sociedade do período, é preciso entender um pouco de contexto histórico.

A Inglaterra do período regencial era um pouco menos rígida que a sociedade que viria uma geração depois, na era vitoriana em termos culturais. Literatura, pintura, música, arquitetura e moda são exemplos disso. A classe dos aristocratas começa a dar seu lugar de protagonismo aos burgueses nascidos com a Revolução Industrial.

Em virtude da loucura do rei George III, seu filho se torna regente. Mimado, irresponsável, dissoluto, extravagante, o príncipe George preocupava-se mais com o que entrava em seu guarda-roupa que com o que estava acontecendo na Grã-Bretanha – e vamos lembrar que a batalha de Waterloo, que encerra as Guerras Napoleônicas, ocorre justamente em 1815 e que o mínimo que se esperaria do homem numa ocasião como essa é que ele não estivesse torrando dinheiro em supérfluos quando estavam eles em meio a uma guerra.

George era um dândi de primeira hora, sempre lançando moda – sua preocupação com nós de gravata era famosa. Para além disso, olhando imagens e caricaturas da época, a impressão que se tem é que George era um grande glutão. Considerando tudo isso, é estranho que ele fosse conhecido como ‘o primeiro cavalheiro da Inglaterra’.

E aí temos George Knightley, o herói de Emma. Do nome, já muito falamos, mas o sobrenome também guarda interesse: derivado da palavra knight, que significa cavaleiro, o senhor de Donwell Abbey é a verdadeira representação do que deveria ser um cavalheiro para Jane Austen.

Diferente do príncipe, Mr. Knightley não se importa com aparências, mas com princípios. Bom senso, boas maneiras, sinceridade e um cuidado e respeito real por todos aqueles que o cercam são as grandes preocupações dele. Ele é para a heroína, a um só tempo, um constante desafio e um bastião de estabilidade. De todos os outros personagens que surgem ao longo da história, Knightley é o único com quem Emma pode alcançar um verdadeiro companheirismo e cumplicidade – essa intimidade que existe entre os dois, mesmo antes de qualquer dos dois compreender seus sentimentos, é o que mais gosto no casal.

Para fazer contraponto a Knightley, temos Frank Churchill, que ‘viaja a Londres para poder cortar o cabelo’. Mr. Churchill é um dândi na mesma linha do príncipe regente; suas atitudes são impulsivas e egoístas e mesmo quando pensa fazer gentilezas, a verdade é que apenas demonstra uma vez mais que é incapaz de pensar nas consequências.

E assim é que, da mesma forma que busca influenciar a vida de sua protegida, Emma se vê influenciada por Mr. Knightley e Mr. Churchill – agindo de forma inconsequente e despreocupada com os sentimentos daqueles que a cercam e então sendo levada a refletir sobre seus erros e assim tentar consertá-los.

Se Knightley e Churchill são uma crítica à sociedade de excessos representada especialmente pela figura do príncipe regente, Emma e seu tédio são um reflexo das limitações de gênero. Ela é inteligente e cheia de energia, mas está limitada por aquilo que é considerado próprio de seu sexo. E para as prendas que lhe são consideradas adequadas, Emma não sente qualquer grande inclinação.

Emma resgata o humor e a ironia austenianas que ficaram em segundo plano no livro anterior, Mansfield Park, mas mantém o padrão de seus romances, em que os protagonistas precisam passar por um longo processo de auto-conhecimento antes de poder entenderem-se entre si. Risos, lágrimas e desencontros poderão fazer parte do processo, mas podemos sempre contar com um final feliz.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Emma
Autor: Jane Austen
Tradução: Rodrigo Breunig
Editora: L&PM
Ano: 2015

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A Coruja


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