21 de agosto de 2015

Heróis de Papel - Capítulo 15


Capítulo 15

Meados de Dezembro (Ano 2)

David,

Antes de mais nada, Feliz Natal para você! Sua carta me alcançou já quase nos calcanhares do período de festas – nossa mudança fez com que a entrega das correspondências atrasasse – de forma que os presentes chegaram no tempo certo. O gorro e as meias foram certamente muito apreciados – os padrões multicoloridos das meias em especial. Elas certamente emprestarão um charme especial às minhas festas.

Quanto aos livros, mais uma vez, você tem os agradecimentos de todo o pelotão. Fico contente que não lhe seja pesado enviá-los, mas reafirmo não ser estritamente necessário. São tempos difíceis para todos e não gostaria que estivesse de alguma forma se privando em nosso prol.

Consegui novos postais para sua coleção. Estamos agora estacionados numa região repleta de castelos , e consegui cinco postais diferentes mostrando alguns deles. Não tive oportunidade de visitá-los, nem de coletar qualquer tipo de lenda, mas pretendo fazê-lo em minha próxima licença. Também mando, no lugar de conchas, pedras coloridas de uma mina não muito longe do acampamento. Achei algumas bem diferentes, entre o colorido de diferentes minérios e a erosão causada por aquelas que ficaram expostas à água do riacho junto à mina.

A pedra maior, que segue enrolada em separado, é, na verdade, um fóssil. Há um verdadeiro mercado dessas coisas na vila com que estamos vizinhos, uma vez que eles são bem comuns aqui na região. Fiquei impressionado com os detalhes que ficaram impressos na pedra.

Aproveitando, e já que pediu, mando uma foto que demonstra as consequências dos seus presentes: nossa pequena companhia de teatro amadora, após a declamação de dois monólogos e meio (o terceiro foi interrompido pela metade em virtude do colapso nervoso do nosso ator de ocasião, que não suportou a responsabilidade de interpretar o Mouro¹). Fui intimado a servir de acompanhamento musical no evento, de forma que você talvez possa me reconhecer com a gaita em mãos.

Aliás, posso dizer de antemão que certamente terei prazer em tocá-la quando afinal tivermos oportunidade de nos encontrar pessoalmente. Talvez no próximo Natal, se a guerra já tiver terminado.

E já que estamos no assunto, deixe-me tentar responder suas questões. De fato, o único instrumento que sei tocar com alguma proficiência é a gaita. Não sei como ou quando aprendi – era um dos meus brinquedos favoritos de infância, eu lembro bem de ter uma gaita de plástico amarelo que estava sempre em meu bolso. Sei que ninguém me ensinou, não de forma oficial. Mas eu gostava de observar um grupo de músicos que morava em nossa rua e era bom de ouvido. Se tive algum treinamento, foi de vê-los tocando.

Já tive contato com uma viola também, mas embora tenha conseguido reproduzir alguns acordes, nunca tive tempo suficiente ou um instrumento próprio para ir além de brincadeiras de garoto.

De outro giro, embora tenha recomendado para não criar falsas esperanças, não posso deixar de me confessar aliviado em saber que temos qualquer pista que seja. A preocupação com Alice nunca está muito longe do meu pensamento, considerando que são quase três anos sem ter notícias. Tentei fazer minhas próprias inquirições, mas estando longe, e dependendo apenas de órgãos e canais oficiais, não tive sorte alguma. Você chegou muito mais longe do que eu poderia enquanto estiver enterrado aqui.

Não me surpreende o fato de que todos os vizinhos que conheceram Alice a tenham em alta conta. Eu nunca conheci ninguém que a simpatia e delicadeza dela não conseguissem conquistar. Afinal, ela prendeu até mesmo a mim, a quem a senhora Marianne chamou de ‘antissocial e nada receptivo’. Aliás, não sabia que tinha causado uma impressão tão forte – agradeça a ela por mim pelo comentário e diga-lhe que, uma vez que a guerra termine, terei prazer em arranjar as frutas para que ela nos sirva sua limonada.

Por fim, embora tenha achado graça em seu comentário sobre o clube que pretende montar com seu novo vizinho (e Stephenson dos gnomos também ou é só impressão minha? Aliás, algum gnomo já apareceu?), não posso deixar de sentir certa amargura no mesmo. Creio que já tenhamos escrito sobre o assunto antes, embora eu não lembre exatamente do motivo de sua dispensa – alguma coisa com sua mão? – mas não existe desonra alguma em não estar nas frentes de batalha.

Há muito que se fazer em casa. Proteger e reconstruir são esforços com que precisamos nos preocupar para além desse universo desolador de bombas e mortes. Quando somos meninos, ansiamos pelas glórias da batalha, mas a realidade da guerra só me faz ansiar pela volta dos dias de paz. Sim, é necessário que estejamos aqui, mas bons homens também são necessários aí, e acredito que você seja um desses bons homens. O que você fez e tem feito por mim – e até por meus homens do pelotão, com seus presentes compartilhados – é algo que não seria possível se você estivesse aqui conosco.

Precisamos ter alguém que nos lembre pelo que estamos lutando. Você é um guardião de memórias e esperanças, David, tão parte dessa guerra quanto outros soldados. Por favor, não se esqueça disso.

Alex.


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¹ O Mouro de que Alex fala é Otelo, da peça de Shakespeare.


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