31 de julho de 2015

Heróis de Papel - Capítulo 12


Capítulo 12

Fim de Maio (Ano 2)

Alex,


Primeiro de tudo, permita-me expressar o alívio que tive ao saber que você não estava, de fato, sofrendo dúvidas sobre os adversários. Aquilo realmente me preocupou, até mesmo pelo fato de que há censores lendo as cartas, e temia o que lhe pudesse ocorrer. Mas, mais que isso, temia que tais dúvidas o estivessem rasgando por dentro. Vi isso acontecer com alguns soldados, e não é uma imagem bonita.

Vão inclusas mais algumas cruzadas, e tentarei mandá-las sempre que possível. Embora eu compartilhe o gosto por elas (mas em menor escala, creio eu), sempre preferi fazê-las mentalmente, o que vem a calhar nesse caso. Marianne, a senhora que me recomendou a confeitaria da última vez (e que insiste em ser chamada pelo primeiro nome), manda um oi. Não sei se a conhece, mas ela achou interessante que estivéssemos trocando cartas sem nos conhecermos pessoalmente, e pediu para repassar o recado. Achei-a uma pessoa bem intrigante, bastante envolvente e receptiva. Seu marido, por outro lado, não compartilha as mesmas características, mas é também bastante prestativo. Disse que procuraria mais cruzadas quando pudesse.

Gente interessante mora atualmente nesse condomínio. Não sei quantos deles já moravam antes da evacuação, e quantos são novos (não que haja tantos, mas o número de inquilinos aumentou desde que eu me mudei). Tampouco sei quantos você reconheceria, e quantos nunca viu na vida. Mas acho que se divertiria conhecendo-os, assim como eu estou. O senhor do andar de baixo é um particular deleite. Ele acredita firmemente que há gnomos embaixo de sua própria cama, embora nunca os consiga ver (ou capturar)... Nunca sei o que dizer quando Stephenson menciona isso nas conversas que temos, ocasionalmente, quando coincidentemente saímos na mesma hora, o que acontece com uma frequência surpreendente.

Será que é o mesmo senhor do fonógrafo? Não tenho ouvido qualquer som nesse sentido, mas ele mora no final do corredor...

Não era preciso agradecimentos pelos livros, mas pode dizer ao pelotão que não há por quê. Aproveitei para mandar mais uns seis, vez que tenho certeza que há mais que uma dúzia de soldados por aí. Mandei, dessa vez, um russo, mais um romance que era bastante popular com meu pelotão na época em que estive como soldado, dois volumes de peças do Bardo, outro do bom Doutor e o Detetive, e, por fim, os primeiros volumes de uma enciclopédia (porque acho divertido descobrir coisas novas)¹. Se conseguir, mando mais volumes futuramente. Se Deus quiser, não conseguirei mandar os 30 volumes totais, e você terá que vir buscá-los.

Acompanham também algumas barras de sabão e duas toalhas (porque sabemos que faz falta um banho decente), doces em barra, canetas (essas eu devia ter mandado junto com o diário na carta passada) e mais dois rascunhos. O primeiro é de um sonho que tive, e talvez fosse o efeito de pândegas passadas, mas nada fazia sentido nele. Não sei se por isso – pelo fato que não entendia nada do que se passava – mas senti que deveria passar para o papel (fiz duas cópias), e aproveitei para treinar um pouco mais aquele estilo que, como você mesmo comentou, tem um aspecto onírico.

Ao terminar sua carta, porém, acabei por incluir mais um rascunho. Essa cena que descreveu do chá e bombas, realmente, soou surreal. Não resisti a fazer minha própria versão. Perdoe se for de mau gosto.

Aproveitando a deixa dos pedidos de desculpas, sinto muito pelo comentário do Natal Branco. Em todos os meus anos de vida, nunca tive o prazer de passar por um, e confesso que um pouco de inveja dominou, ao ponto de não pensar em traduzir o que poderia significar nas trincheiras. Suponho, porém, que, nessa hora, quem tem a pior impressão mesmo seja o médico...e também os amputados, aos quais vão minhas sinceras condolências.

Seu convite para passar um Natal me pegou de surpresa. Precisei reler sua carta umas três vezes para ter certeza que era isso mesmo o que estava escrito. Você é uma pessoa e tanto, caro Alex, para convidar um desconhecido para a maior festa familiar. Lisonjear-me-ia o convite, mas aguardemos a opinião de Alice sobre o assunto, afinal de contas, creio que já estarão casados a essas alturas.

Já que tocamos no assunto, continuo tentando as publicações nos jornais, e tentei também expandir para outros jornais, além do que costumo comprar. Com alguma sorte, ela também lê um desses, verá o anúncio de procura, e fará algum contato.

Fico, ainda, muito grato com a oferta sobre conversar se/quando precisar. Não creio que o farei, mas é confortante saber que há alguém para escutar. Só por isso, tenho certeza agora que meu irmão e você seriam grandes amigos, se tivessem tido a chance de se conhecerem. É uma pena. De qualquer forma, fico-lhe realmente muito grato.

É uma lástima que você não tenha visto nem o castelo, nem o pirata. Mas adorarei ouvi-lo contar as respectivas histórias. Mesmo que não se ache com talento para tanto, devo dizer que esse é um talento cultivável. Se ouvir mais (de diferentes contadores), poderá, eventualmente, assimilar como fazê-lo. Até lá, contudo, ficarei na imensa vontade de conhecer esse senhor e ouvir-lhe as histórias... Em minha infância, havia uma senhora em minha vila que tinha justamente essa função: guardar as histórias. Era sempre um deleite visitá-la, não só pelo que ela tinha a contar, como também pelo chá e os doces que sempre tinha disponível. O dia que ela deixou esse mundo foi o terceiro mais triste de minha vida.

Veja, se por algum acaso não der certo sua carreira no exército, ou como médico, você sempre pode seguir como catador de conchas. É uma profissão bastante menosprezada, tenho certeza. Essas cinco que enviou – três com mesmo tamanho e formato, mas com cores diferentes, uma mais redonda e uma meio perolada – formam um conjunto muito bonito. Deu-me vontade de convidar alguém (ou “alguéns”) para um chá, só para ter a oportunidade de exibi-las. Infelizmente, contudo, não acho que você seguirá essa carreira. Um, porque, sua atuação no Comando – ainda que tenha sido por ausência de outro oficial – afora algo dando realmente muito errado, contará bastante no seu currículo militar. Dois, porque se você ainda está atuando na tenda hospitalar do pelotão, significa que deve estar no caminho certo, então não tenho muitas preocupações com isso. De uma forma ou de outra, você não sairá daí um catador profissional.

Entrando em outro assunto, encontrei outros loucos, sim. A essas alturas, não sei se é exclusividade nossa, ou se é efeito da guerra, mas pelo menos uma vez a cada duas semanas, tenho um “encontro” completamente inesperado. Essa semana mesmo – e essa não é a mais recente – passei por uma senhora que tentou me vender uma peça íntima usada... Uma peça íntima feminina usada. O que raios ela achava que eu faria com aquilo? Se não bastasse isso, ela disse que venderia o equivalente masculino e – e foi nesse ponto que eu corri para o lado oposto – o esqueleto da vaca de estimação.

Definitivamente, só há loucos nessa cidade – o que me preocupa, porque o que isso diz de mim? Ou isso, ou eu tenho um ímã para esse tipo de gente. Estou tentando decidir qual das duas situações me é mais trágica... Acho que farei uma viagem para o interior em breve, para fugir dessa loucura.

Em sua defesa, porém, os monumentos históricos que ainda estão de pé são fantásticos. Visitei masmorras de um antigo castelo, e quase podia ver os fantasmas de vítimas e prisioneiros... Talvez eu esteja no lugar certo, afinal de contas. Daqui a pouco estarei tendo conversas com esses fantasmas... Melhor parar por aqui, mesmo.

Para não finalizar essa carta num tom estranho, permita-me sugerir que, da próxima vez que estiver tomando chá enquanto bombas caem, é cordial cantar o hino nacional ou uma ode à pátria.

David.


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¹ O russo de que David fala é Dostoievsky, com Crime e Castigo, o romance bastante popular é A Abadia de Northanger de Jane Austen - que era uma leitura favorita entre os soldados tanto na primeira quanto na segunda guerra e o próprio Churchill comenta que a está lendo à época de seu ministério; de Shakespeare foram Muito Barulho por Nada e Otelo, O Mouro de Veneza, O Cão dos Baskervilles de sir Arthur Conan Doyle, e a Enciclopédia Britânica.


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