17 de julho de 2015

Heróis de Papel - Capítulo 10


Capítulo 10

Meados de Fevereiro (Ano 2)

Alex,

Antes de mais nada, preciso que esse ponto seja feito: você teve direito a um Natal branco? Nossa! Não tivemos a mesma sorte por aqui. Não sei o que acha de neve, mas eu sempre a vi como um manto de purificação. Quando caem esses cristais brancos, suficientes para cobrir tudo (que foi o que entendi ter acontecido por aí), é como se o mundo fosse purificado... ou, pelo menos, a terra.

É uma pena que não tiveram uma árvore para o Natal, mas pelo menos puderam comemorá-lo de alguma foram, e, ainda, com uma refeição um pouco melhor. É sempre bom apreciar as quebras de rotina e as coisas boas que nos são permitidas (nesses tempos principalmente).

Seus Natais eram sempre passados com a Alice e a família dela? Ou a deixava com a família e passava o seu só? Pelas suas cartas anteriores, não tinha muitos amigos ou família, certo? Pois bem, não há necessidade de sentir inveja de mim, meu caro. Meu irmão, meu parente mais próximo e querido, já não está entre nós. A única “parente” que ainda tenho, minha ex-esposa, não me dirige a palavra há alguns anos.

Infelizmente, tivemos um prolongado desentendimento, e, em dado momento, ela cansou disso. Não a culpo por ter ido embora. Realmente, eu não era uma boa pessoa quando voltei da guerra, e ela me agüentou por anos antes de alcançar seu limite.

Por favor, não pense mal dela. Anna já foi para mim o que Alice é para você: uma amiga (quase de infância), companheira, confidente, a pessoa mais próxima além de meu irmão. Na verdade, foi a idéia de tê-la perdido que realmente me impulsionou a procurar Alice.

E, por falar nisso, percebi o quanto fui tolo. Devia, desde o começo, ter feito isso antes: colocar anúncios no jornal, procurando Alice e a mãe. Fi-lo, e talvez agora tenhamos notícias. É esperar para ver.

Estou feliz em saber que as cartas são bem vindas. Espero que essa, em especial, traga-lhe alegrias extras. Não costumo guardar jornais por prolongados períodos, mas juntei as edições de domingo que tinha, e saí em busca de outros com os vizinhos. Devo agradecê-lo por isso; até agora não havia tido a chance de conhecê-los (além da busca inicial por Alice), e procurar suas cruzadas deu-me uma excelente oportunidade. Mando alguns rascunhos dos locais pelos quais passei durante essa caça.

Devo mencionar, também, o quão é interessante como você me surpreende a cada carta. Dessa vez foi com sua preocupação com os soldados inimigos, demonstrando integridade (pelo menos a meu ver). Por isso mesmo, dou-lhe um conselho, e você pode fazer o que quiser com ele: ignorar, usar, considerar, jogar fora...

Se não estiver preparado para desertar – e sofrer as consequências disso – melhor não pensar muito nesse assunto.

É fácil imaginar (embora não seja tão comum preocupar-se, como você faz), mas se continuar com esses pensamentos, eles instigarão sentimentos negativos para com seus afazeres e com seu pelotão. Mesmo que não esteja na linha de frente, suponho que carregaria o mesmo fardo que seus companheiros – quer por ação, ou pela falta desta.

Porém, meu amigo, acredite-me, se você se permitir continuar nessa trilha ideológica, o peso que sei que sente somente aumentará. Na verdade, esse é um dos motivos do exército ter um sistema hierárquico tão grande: para que não se constitua de homens de pouca força, homens que minem a instituição por dentro.

Faça uso disso. Somente questione seus superiores se sentir que eles lhe dão essa liberdade, ou terá que encarar as consequências não só do próprio exército, como também de seu futuro.

Pelo seu bem, peço-lhe que se livre de suas preocupações para com o inimigo. Volte um ser humano mudado pela guerra (como inevitavelmente o será), mas volte.

Escrito isso, mudarei um pouco o assunto. Já que escreveu da outra vez que são poucos os livros da biblioteca, estou mandando mais meia dúzia. Tentei ser eclético: pus um preferido meu, o qual, embora vá um pouco de encontro ao que especifiquei ser minha preferência, ainda tem minha adoração, até porque não tenho a experiência de te conhecido quem não aprecie a obra de Dumas. Mandei também dois romances policiais (que espero lhe sejam novidades), algo fantasioso (que nunca li, mas o livreiro me garantiu ser muito bom), um livro de poesias e o triste destino de Quasímodo¹... Espero que agrade (mas, se não, ao menos aumentará a biblioteca).

E por falar nisso, estamos nos aproximando do dia de São Valentim. Sei que o usual é mandar cartões, mas imaginei que seria um pouco sem sentido, tendo em vista nossas cartas. Assim, aproveitando o clima frio que ainda paira, mando alguns doces que me foram recomendados pela vizinha da porta ao lado. São de uma confeitaria na outra ponta da cidade. Não sei se a conhece, mas envio um esboço do lugar. Os de chocolate são uma maravilha.

Vai junto também, já que disse apreciar a arte da dedução, um pequeno “quebra-cabeças” diferente: descubra como encaixar as peças de forma que fique uma cruz meio quadrada. Boa sorte. Tenho um também e ainda estou penando com ele.

Obrigado pelo tritão de madeira. Sem dúvida alguma poderei reconhecer um quando vir, vez que os detalhes estão bem entalhados. Aproveitando o presente, tive uma verdadeira inspiração e mando o resultado. Estava testando um novo estilo, com menos sombras e mais luzes, e achei que um ambiente marinho teria um bom efeito. Diz-me o que achou, para que eu possa saber se consegui realmente o efeito desejado.

Sobre locais assombrados. Nunca fui a um canto desses que realmente atendesse às expectativas, mas sempre os achei fascinantes, e tenho particular apreço por esse tipo de lugar. Esse postal recebeu destaque, especialmente porque é uma espécie de continuação do que você mandou antes (o farol). Pus os dois lado a lado, deixando um pequeno espaço para dar a ilusão de que são um só cenário. Infelizmente, porém, não ficou muito crível.

Alex, estou muito curioso quanto ao castelo. Será que é lenda, ou é verdade sobre o Senhor Feudal? Se vi-lo, por favor, conte-me como foi. Nunca tive uma experiência do outro mundo como essa porque, aparentemente, sempre fui prático demais (e supersticioso de menos) para poder vê-los.

Já uma das vizinhas alega a situação contrária, mas ela conta tantas histórias fantásticas que fica meio difícil de acreditar. Foi, inclusive, com ela que passei meu Natal, vez que ela também não tinha companhia, já que sua família todinha resolveu mudar-se após a evacuação. São realmente tempos solitários...

Pra finalizar, achei que seria interessante contar mais uma anedota recente. Semana passada, resolvi caminhar por aquela alameda de árvores que mencionei antes, e confesso que ela ficou um tanto triste sem o aspecto natalino. Acho que, de agora em diante, só passo lá em dezembro. Entretanto, algo estranho aconteceu: quando estava mais ou menos pela metade dela, um senhor de idade me parou, e me perguntou se conhecia uma garota chamada Nora. Como não conheço, assim o respondi. O senhor encarou-me por uns inconfortáveis dez segundos, virou-se, e continuou na direção contrária a minha. Achei estranho, mas ignorei e retomei meu passeio. Alguns minutos depois ele voltou a me interceptar e a me fazer a mesma pergunta, e assim repetiu-se a situação, até eu sair daquelas redondezas.

Diga-me, por favor, porque sinto que preciso perguntar: só sobraram loucos nessa cidade?

Abraços,
David


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¹ David enviou para o amigo Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas; O Caso dos Dez Negrinhos de Agatha Christie, Um estudo em Vermelho de sir Arthur Conan Doyle, O Hobbit de Tolkien, Os Idílios do Rei de Tennyson e O Corcunda de Notre-Dame de Victor Hugo.



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