10 de julho de 2015

Heróis de Papel - Capítulo 09


Capítulo 09

Fim de Dezembro (Ano 1)

Caro David,

Por apenas alguns dias sua carta não chegou exatamente no Natal. Foi uma agradável surpresa – eu não esperava que nada fosse entregue antes do ano novo, considerando a neve que tivemos nos últimos dias.

Espero que tenha tido um bom natal, e que tenha também um bom ano novo. Presumo que os tenha passado em família, com seus pais, seu irmão, sua esposa. Invejo-o um pouco por isso, mas, ao mesmo tempo, estou feliz por você.

Não imaginava que houvesse alguma dúvida sobre meu desejo de continuar nossa correspondência. Peço desculpas se passei essa impressão – nunca foi minha intenção. Desde sua primeira missiva, mesmo em meio à desconfiança e hesitação, suas palavras foram um alento para mim. Continuam a ser. Não há muitos dias bons aqui – dias calmos, sim, mas não necessariamente bons. Mas dias em que recebo suas cartas são sempre uma exceção a essa regra.

Eu só tenho a agradecer pelo tempo que você tem dedicado a um estranho – seja procurando Alice, seja desenhando, seja escrevendo.

Em meio a tanta destruição, às vezes precisamos ser lembrados de que não estamos aqui por alguma desculpa mesquinha, mas que existe um motivo real para nossa presença. Existem momentos, contudo, em que nem mesmo isso parece justificativa suficiente.

Eu ainda prefiro morrer lutando por aquilo que acredito a tornar-me escravo das ideologias que nos assombram. Mas às vezes parece não haver sentido algum para o que temos de fazer, para as perdas que temos de aceitar, até mesmo para o ódio contra os soldados do outro lado dessas trincheiras.

Estarão eles apenas cumprindo ordens? Ou de fato acreditam naquilo que pregam seus líderes? Acreditam que sua luta é justa e que sua vitória tornará o mundo melhor?

Você elogia minha coragem, parabeniza-me por minha promoção. Mas não se trata de coragem e sim de rotina. Acostumamo-nos com as sombras, com o frio, com a quase absoluta falta de cor, quebrada apenas por erupções de sangue e explosões de pólvora. Seguimos a rotina para tentar manter a própria sanidade, mas, em manter a rotina, às vezes parece que perdemos a capacidade de nos importar.

Perdoe-me o drama e a melancolia. O que quero dizer é que no meio de toda essa realidade, suas cartas são necessárias para me manter humano. E que existe um mundo para além dessas trincheiras.

Mudando completamente de assunto, seus presentes foram muito apreciados. O diário veio em um bom momento, visto que o meu estava já terminando e o cachecol, em especial, foi uma alegria com sua explosão de cores. Nunca pensei que sentiria tanta falta de cor no mundo.

Comecei o livro, e estou gostando da história. Temos uma biblioteca – se é que assim se pode chamar uma prateleira e meia dúzia de títulos – no hospital de campanha, e eu já tinha lido e relido todos os volumes disponíveis.

Se é para escolher uma preferência literária, eu diria que gosto de romances policiais. Não são histórias que se possa dizer tenham finais felizes – não quando o crime inicial representa uma completa ruptura na vida dos outros personagens e, na maior parte das vezes, não possa ser revertida. Mas gosto da lógica, de seguir as pistas para chegar a uma resposta racional e da possibilidade de se fazer justiça ao final.

Não à toa, sou também um grande fã de palavras cruzadas. Acredite se quiser, mas as palavras cruzadas do jornal de domingo é uma das coisas de que mais sinto falta aqui.

Seus desenhos foram um encanto à parte – ri muito com a história do cão e enchi os olhos com as decorações de rua. Lembro-me bem de ter visto com Alice a fileira de árvores enfeitadas que você ilustrou, e foi um pouco como voltar no tempo.

Aqui, tentamos montar uma árvore de natal no hospital, mas existe uma séria deficiência em árvores nas nossas redondezas – considerando o resultado de granadas e minas terrestres – e não houve possibilidade de procurarmos mais longe que o perímetro do acampamento. Tivemos que nos contentar com uma galhada ressequida, que enfeitamos com guirlandas de papel e bolas recortadas do plástico metalizado que serve de pacote para nossas rações. Mas houve uma ceia mais decente que nossa gororoba habitual, e dividimos entre nós doces e nozes que tivéssemos recebido de casa.

Não descobri qualquer regulamento que vete o envio de travesseiros, mas peço para que não se preocupe com isso. Além do trabalho para enviar, é pouco provável que fique para mim por muito tempo – os pacientes do hospital de campanha certamente necessitam mais do que eu e acabarei doando para algum deles.

Envio mais dois postais para sua coleção – o primeiro é um antigo farol abandonado que dizem ser assombrado, próximo à praia que estava no que enviei na última carta. Um senhor que conheci na vila aqui perto me prometeu que me levaria lá e contaria a história do lugar em minha próxima licença. O outro é um castelo que pertenceu a algum senhor feudal da região e que dizem ter se perdido nas brumas. Aparentemente, em certas condições de tempo, ele reaparece para caminhantes incautos. Talvez apareça para mim.

O pequeno tritão de madeira que mando como lembrança de natal foi entalhado pelo senhor que prometeu me levar ao farol. Ele é um pescador quando o mar está mais calmo do que tem estado, e jura de pés juntos que se inspirou na figura real de um tritão que nadou ao lado do seu barco para fazer essa pequena escultura.

Talvez, da próxima vez que for ao mar, você também acabe por encontrar um tritão. Poderá então reconhecê-lo usando seu presente.

O dever me chama de volta, então, despeço-me por aqui.

Alex.



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2 comentários:

  1. Alex é dos meus! Curte romances policiais!

    "Mas gosto da lógica, de seguir as pistas para chegar a uma resposta racional" Bem isso mesmo, Alexa. Toca aqui!

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    Respostas
    1. Huhauhauhuahua... Pois é... Alex é bem racional mesmo...

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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