29 de maio de 2015

Heróis de Papel - Capítulo 03


Capítulo 03

Início de Abril (Ano 1)

Caro David,

Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer por ter respondido minhas cartas. A princípio, quando sua mensagem chegou aqui, fiquei sem saber muito bem como reagir. A idéia de um completo estranho lendo aquilo que escrevi para Alice era algo que me incomodava... mas depois percebi que era uma tolice me preocupar com isso, considerando que todas as cartas dos soldados passam por censores antes de seguirem para seus destinatários.

Após a hesitação inicial, contudo, estou aliviado que as tenha recebido e decidido responder; ainda que não tenha notícias diretas de Alice, ao menos há uma explicação para o silêncio e, mais, a esperança de encontrá-la. Isso é... um grande alívio.

Você talvez tenha percebido, lendo as cartas anteriores, que não sou uma pessoa particularmente gregária. Fui filho único, perdi meus pais cedo e concentrado nos objetivos que me propus, nunca tive muito tempo para me sociabilizar. Eu estaria sozinho no mundo se não fosse por Alice, e não teria a quem mais recorrer se continuasse a não ter notícias dela.

Agradeço seu esforço em procurá-la, e, mais ainda, seu oferecimento em continuar a busca. Gostaria de poder dar alguma direção, considerando a falta de informações com que teve de trabalhar, mas, como eu, Alice não tem muitos parentes. Era apenas ela e a mãe idosa no apartamento.

Ainda que haja alguns amigos que talvez saibam o paradeiro delas – partindo do princípio de que eles também não deixaram a cidade – não tenho o endereço deles. A alternativa seriam os vizinhos, mas considerando que você mesmo já procurou e posso imaginar que eles tenham sido um de seus alvos, creio que eles também tenham ido embora ou não saibam de nada.

Seja como for... eu lhe agradeço. Agradeço por ter perdido seu tempo para escrever uma carta para um soldado que você nunca viu e com quem não tem nenhuma responsabilidade; agradeço por ter me dado notícias que, se não são respostas concretas, ao menos me dão esperança em meio ao desespero em que o silêncio de até então me jogara; e agradeço, sobretudo, pelas palavras gentis e encorajamento.

Não é qualquer um que teria feito o que você fez. Por tudo isso, eu lhe sou profundamente grato. A realidade do que vemos aqui todos os dias, das escolhas que somos obrigados a fazer, por vezes nos fazem esquecer o motivo pelo qual estamos lutando. O que estamos tentando proteger. Suas palavras são uma recordação disso.

Cordialmente,
Alex.


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2 comentários:

  1. Achei que ele ficaria mais desesperado, já que Alice é seu amor. :/

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    Respostas
    1. Essa é uma das dificuldades de escrever um romance epistolar, para ser sincera. Num primeiro momento, logo após ler a carta, ele ficou bem desarvorado... e talvez isso ficasse mais perceptível se ele tivesse respondido a carta do David de imediato... mas naquela hora, a última coisa que ele ia fazer era responder uma carta de um cara de quem ele nunca tinha antes ouvido falar...

      Quando ele finalmente responde a carta do David, Alex já teve tempo para se acalmar e tentar racionalizar a situação, passar por cima dos escrúpulos de ter um estranho lendo suas cartas pessoais e admirar a compaixão com que David o tratou. (O fato de Alex ter se preocupado em responder a carta depois de conseguir se acalmar também fala um pouco sobre a personalidade dele ;)

      Tentar passar tudo isso é um dos grandes desafios de escrever uma história que funciona apenas através de cartas, sem 'cenas externas' para mostrar 'reações em tempo real' às situações em que eles se encontram.

      Cá entre nós? Foi uma das coisas mais difíceis com que trabalhamos. Mas acho que valeu à pena - vamos ver se vocês concordam conosco ao chegarmos no final :D

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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