23 de maio de 2015

Hábitos de Leitura de uma Virginiana Neurótica

Corre pelo reino do Coruja a história de que D. Lulu é uma virginiana neurótica (termo este usado quase como pleonasmo), com extraordinários poderes de organização e gerenciamento de tempo. Não creio muito nessas coisas de astrologia, mas me juram de pés juntos que meu usual comportamento obsessivo compulsivo é decorrente da conjunção astral sob a qual nasci.

O caso é que vivem me perguntando ‘mas como é que você dá conta?’ e meus amigos (da onça) têm várias teorias sobre o assunto – a preferida parece ser a de que sou algum tipo de robô vampiro alienígena.

Ironicamente, se você comentar com D. Mãe que “sua filha é uma pessoa muito organizada”, ela provavelmente vai ter uma apoplexia de tanta gargalhada que vai dar. E depois vai apontar para o campo de batalha que é minha escrivaninha, ou abrir as portas do meu guarda-roupa e deixar que tirem conclusões por vocês mesmos.

Em minha defesa, eu nunca falei que era alguém particularmente organizada. Mas sou, como tão bem expressaram meus amigos (da onça), uma virginiana neurótica de hábitos compulsivamente metódicos.

Posso até ser fisicamente desorganizada, mas existe uma lógica nos meus sistemas de caos organizado. Posso não dobrar blusas, mas não as misturo com os pijamas, nem shorts migram para a gaveta de vestidos. Minha dificuldade nesse específico caso é mais ter paciência em sair pendurando as calças compridas nos cabides – é mais fácil simplesmente enfiá-las na prateleira vazia e deixá-las lá até a próxima vez que for usar.

E, bem, quando decido arrumar meu guarda-roupa, eu de fato demonstro o quanto sou neurótica, porque penduro as roupas de acordo com as cores, numa escala degradê...

Seja como for, atendendo a pedidos, a partir de hoje vou começar a escrever uma coluna sobre meus hábitos neuróticos de organização e, quiçá, ajudar vocês leitores a lidar com seus próprios problemas – sejam de neurose, sejam de organização. E, se tudo o mais falhar, sempre serve para dar algumas gargalhadas, não é mesmo?

A coluna será esporádica (o que significa que provavelmente vou encaixá-la em algum lugar do cronograma uma vez por mês) e irá ao ar enquanto houver sobre o que falar (aceito sugestões de pauta!). E, para inaugurar a coluna, hoje falaremos de hábitos de leitura!

1) Listas! Listas por todos os lados!

Não é surpresa nenhuma que comecemos com uma lista. Afinal, estamos falando de mim e eu sou uma confessa e orgulhosa viciada em listas.

Nesse específico caso, são listas de livros que estão na estante e ainda não foram lidos. Existe até uma palavra em japonês para designar esse estado das coisas: tsundoku, “ato de deixar um livro sem ler depois de comprá-lo, tipicamente deixando-o empilhado junto com outros livros não lidos”.

É bem assim mesmo...

Uns quatro anos atrás, o espaço na estante principal de casa tinha acabado, e meus livros começaram a migrar para outros espaços – o que gerou muitas reclamações de D. Mãe, culminando com a frase ‘você tá só comprando livro sem nem dar conta de ler tudo!’.

Achei que ela estava exagerando e pretendi demonstrar tal realidade por a+b. Aí fui contar quantos livros não lidos tinha nas prateleiras – livros que eu tinha andado comprando recentemente porque “está em promoção” ou “eu absolutamente preciso POSSUIR isso” – e fiquei estarrecida ao me dar conta que tinha acumulado perto de cento e quarenta volumes, enfiados em todos os vãos e desvãos que eu era capaz de encontrar.

Foi a hora de me sentar e pensar na vida e me perguntar qual era meu objetivo com aquilo. Ler sempre foi um grande, enorme prazer para mim, mas parece que em certo ponto do caminho, perdi de vista esse prazer da leitura, e passei a me importar mais com o acúmulo de livros para ler em algum dia a perder de vista (que, quem sabe não chegaria nunca, vez que sempre há algo novo para ir atrás).

Era hora de começar a mudar algumas coisas...

A primeira coisa que fiz foi me sentar com uma caderneta e compilar todos os livros não lidos que estavam na fila de espera, numa ordem mais ou menos de antiguidade.

O famoso caderninho lilás (eu também sou neurótica com cores - o caderno é lilás, o marca-texto é lilás também!)

Embora eu não pretendesse me restringir a ler naquela ordem – afinal, tem dias que você acorda querendo um romance água com açúcar, outros, um assassinato bem macabro –, ter uma idéia do quão antigos eram alguns do títulos da lista me ajudava a ter prioridades após chegar a uma conclusão sobre que gênero queria ler.

A segunda coisa que fiz foi começar a diminuir os gastos com livros. Parei de surtar com toda e qualquer promoção que me aparecesse pela frente, comprando livros no impulso pelo único motivo de “estão muito baratos”. Em seguida, condicionei-me à idéia de que a compra de livros novos só podia ser feita após ter lido pelo menos dez volumes dos que já estavam na estante.

A exceção à regra ficava por conta de autores favoritos. Se saísse qualquer coisa nova de gente como Gaiman, Pratchett ou Eco, então eu estava liberada para comprar e passar o livro à frente de todos os outros.

O terceiro ponto do meu 'programa de leitura de livros encalhados na estante' foi priorizar trocas no lugar de compras – assim, para entrar um livro novo na minha pobre estante, envergando sob o peso de centenas de volumes, era preciso sair outro que já tivesse sido lido. Isso também ajudava a me livrar daqueles livros que eu tinha comprado por impulso porque ‘estavam muito baratos’, mas não faziam particularmente meu estilo, substituindo-os por títulos que me interessavam mais. Esse ponto, em especial, foi possível graças ao sistema de trocas plus do SKOOB, que é uma das minhas coisas favoritas por lá.

Aliás, as duas redes sociais de livros de que participo – o SKOOB e o Goodreads – foram primordiais para me ajudar nessa organização, porque eu tinha um registro visual do que estava na minha lista, podia fazer comentários à medida que lia, e ainda acompanhava a percentagem da meta já batida.

Toda essa organização foi pensada para longo prazo e demorou quatro anos para chegarmos ao estado em que estamos hoje: os (poucos) livros não lidos na estante são todos volumes que chegaram lá em casa do ano passado pra cá e, em sua esmagadora maioria, foram resultado de trocas.

De repente, não mais que de repente, minha estante voltou a ter espaço...

2) E quando a vida precisa de mais surpresas?

Tenho um LEV, o e-reader da Saraiva, recheado com centenas de títulos para futuras leituras. Até esse ano, vinha priorizando a leitura de livros físicos, de forma que os e-books vêm acumulando e acumulando para algum dia, quando deus der bom tempo, eu finalmente me sentar para lê-los.

Considerando que os e-books não ocupam o mesmo espaço que seus irmãos de papel, não estou particularmente preocupada com esse acúmulo, até porque, a maior parte dos meus e-books são livros em domínio público que baixei de graça na maravilha que é o Gutenberg Project.

Em todo caso... são mais de quinhentos livros até o momento e comecei a dar vazão a eles num método diferente da lista: usei o conceito do To Be Read Jar - que é uma idéia que aparentemente surgiu em sites e blogs americanos especializados em literatura.

Morri de amores pela estrelinha quando vi e não consegui resistir a comprá-la. Só muito tempo depois que fui achar uma função pra ela...

O TBR Jar é algo bem simples: você coloca os títulos dos livros que tem para ler num potinho e sorteia um sempre que estiver procurando aquela que vai ser a sua próxima leitura.

Há muitas maneiras de fazer isso – você pode usar papéis coloridos como um código para gênero literário, ou simplesmente misturar tudo no mesmo tipo de papel; você pode colocar os livros que você tem na estante ou os que você deseja comprar – mas no final das contas tudo se resume a: você sorteia um livro do jarro e esse será o próximo livro que você vai ler.

No caso do meu jarrinho, eu o enchi de papéis coloridos não como código, mas para ficar bonito na estante. Meu objetivo para o TBR Jar é que ele me surpreenda – eu apelo para ele, afinal, quando não faço idéia alguma do que quero ler a seguir.

A única coisa diferente do tem no meu jarro é que há papéis com a palavra ‘coringa’ escrita nelas. Se um coringa é sorteado, então tenho permissão para ir atrás de comprar qualquer livro que me dê na telha comprar para começar a ler de imediato, passando a frente de tudo o que eu tenha.

Afinal, surpresas e agir sem planos, às vezes, também é legal.

Sim, eu também ajo impulsivamente, não importa o que digam os amigos (da onça) que vocês possam eventualmente escutar falar sobre o assunto.

3) Na cabeceira é só estender o braço

No início de cada mês eu normalmente paro na frente da estante e seleciono entre cinco e dez volumes (a depender do tamanho) e carrego-os para o meu quarto, colocando-os no vão do meu criado mudo. Um deles segue direto pra bolsa - qualquer fila, sala de consultório médico ou problema no sistema é uma desculpa para sacá-lo e começar a ler.

Por perto da cabeceira ficam também um monte de post-its e um lápis. Não é sempre que saio marcando um livro: sublinho passagens de volumes de referência que possam me servir como pesquisa para escrever uma história, por exemplo; ou encho de post-its os títulos separados para debate no clube do livro, marcando passagens que quero trazer para a discussão. Acontece, mas não é sempre, então não chega a ser exatamente um hábito.

O plano aqui é deixar à mão os títulos que vou ler ao longo de todo o mês. Primeiro, porque eu normalmente leio mais de um livro ao mesmo tempo, então eu nunca tiro um livro de cada vez das prateleiras. Segundo porque eles ficam bem ali, ao alcance da mão em qualquer momento de ócio ou de insônia. Terceiro porque olhando a pilha ali embaixo, é mais fácil dizer para mim mesma “larga da internet e vá ler porque ainda tem tudo aquilo ali para você terminar esse mês”.


Antes que me perguntem, não fico surtando se não consigo ler todos os livros que separei para aquele mês, nem isso significa que eu não possa substituir o que está na cabeceira por outro título da estante. A verdade é que todos esses passos de que falei acima são decorrentes do último ponto de que vou falar.

4) Cumprir metas é algo tãaaaaaaaaao emocionante!

No final das contas, tudo se resume a metas.

Na minha neurose metódica, não há nada que me traga mais satisfação que riscar itens cumpridos das minhas listas de metas. Não, sério, isso me deixa ridiculamente feliz.

Quando me dei conta do monstro acumulador de livros estilo Scrooge em que eu estava me tornando, estabeleci para mim mesma a meta, a longo prazo, de chegar um dia em que eu pudesse comprar livros e começar a lê-los de imediato, sem me sentir culpada por todos os outros que estavam na lista de espera.

Levei os últimos quatro anos para fazê-lo, mas afinal cheguei num ponto em que me sinto bastante confortável com minha estante, sabendo que estou adquirindo livros que vou, de fato, ler, e não, simplesmente, empilhar. No momento, tenho menos de 30 livros não lidos na estante, e todos eles chegaram entre fins do ano passado e esse. Não há nenhum livro que esteja esperando há cinco, seis anos para ser finalmente aberto.


Enfim... fiz uma meta a longo prazo e várias metas a médio e curto prazo – metas anuais (e, mais uma vez, as redes sociais foram uma ótima forma de controlar esse aspecto), mensais (os livros junto da cabeira são a prova visual dessa aqui) e semanais. E, de pouquinho em pouquinho, consegui chegar onde queria.

Para outras pessoas, isso pode não parecer nada de extraordinário, e uma quantidade desproporcional de planejamento para o objetivo que se tinha em mente... mas a verdade é que eu me sentia mal com isso. Livros são para serem lidos e compartilhados. Eu sou e sempre fui uma leitora, não uma colecionadora; muito menos uma Scrooge.

Tendo conseguido alcançar a minha meta de longo prazo em que estive trabalhando durante quase meia década – quase tanto tempo quanto a existência do próprio Coruja – já estou fazendo uma nova lista/carta de intenções literárias: Quero fazer de 2016 um ano de releituras de velhos favoritos e de leituras fora da minha zona natural de conforto; de clássicos que por algum motivo foram preteridos e de literatura contemporânea, que costuma ser um grande vazio no meu usual cardápio literário.

De resto, não lembro, no momento, de nenhuma outra peculiaridade dos meus hábitos de leitura. Então acho que por hoje é só (olha para a quase monografia que escreveu sobre o assunto).

...

Algum dia vou criar algum tipo de planejamento para lidar com meu hábito bastante neurótico de querer me explicar detalhadamente sobre tudo...


A Coruja

p.s.: esse post é dedicado à turma do clube do livro, em especial a Régis, que foi a primeira a utilizar a expressão "coisas de virginiano neurótico".


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