6 de fevereiro de 2014

Conversas Sobre o Tempo: A Biblioteca do Gabriel

Lulu: Por esses dias, uma colega de escritório e amiga muito querida deu à luz. Como nos vemos todo dia no trabalho, eu acompanhei a gravidez do início ao fim e isso terminou por me deixar bastante envolvida com o pequeno Gabriel. Na minha empolgação por ser ‘tia’, eu fui uma das primeiras pessoas a dar presentes à mãe e ao pequeno, bem antes dele nascer: para ela, um diário em que ela pudesse escrever a história de sua espera (e um dia dar para Gabriel ler) e para ele, um livrinho de plástico com páginas que mudam de cor na água.

Ísis: Not surprised... at all...

Lulu: Estava comentando isso com um amigo meu que é também próximo da nova mamãe e ele deu umas boas gargalhadas com a minha fixação com livros (Ísis: Acho que todos nós estamos fazendo o mesmo, Majestade...) – mesmo porque, do final do ano passado pra cá, tive dois ou três aniversários de crianças e para todas elas eu dei livros. Aí a coisa virou um debate e um discurso e eu me empolguei tanto que acabei vindo escrever aqui.

Eu tive acesso aos livros desde cedo – e esse é um dos muitos motivos de eu gostar tanto de ler. Dei meus primeiros passos com a Biblioteca do Escoteiro Mirim e abracei o mundo com a coleção de O Sítio do Pica Pau Amarelo e me apaixonei por contos de fadas, histórias de fantasia e amizade – tanto que ainda hoje encontro volumes que me encantam e os ponho numa lista intitulada “livros que gostaria de ter lido quando criança”.


Ísis: Devia ter feito uma dessas também...>.>

Estava às voltas com Boxcar Children nessa época. Só pra constar, quem achar a série, recomendo. É tipo Scooby-Doo, mas sem o cachorro falante... não lembro se tinha um cachorro não-falante...


Lulu: Bem, ainda há tempo, Ísis...

Ok, você pensa. Mas o que isso tem a ver com dar livros de presente para crianças que sequer conseguem utilizar os polegares ainda?


Ísis: Eu acho que tem tudo a ver...

Lulu: Bem, eu respondo, você tem de começar de algum lugar, não?

Na minha experiência, ler histórias junto com outra pessoa, em voz alta, é algo que cria e fortalece laços. Dizem que o bebê escuta dentro da barriga e se acostuma com a voz da mãe – então porque não começar desde cedo lendo para ele? Contos de fadas, poemas para crianças, histórias que sejam um presente tanto para os filhos quanto para os pais.

De primeira, penso nos Contos da Condessa de Ségur, que são histórias de fadas muito bem escritas. Eu tinha esse livro quando pequena e lembro de lê-lo e relê-lo, e ler de novo – até que ele se perdeu numa mudança. Mas a memória das histórias permaneceu comigo e ainda hoje me arranca sorrisos.

*lembrete: descobrir se existe em algum lugar uma reedição do meu antigo volume desse livro...*

Fábulas também são uma boa medida. Curtas, muitas vezes com uma sonoridade quase musical – um dos meus primeiros livros quando criança foi o Fábulas do Mundo Inteiro e eu gostava particularmente das histórias orientais dele. Lembro-me de uma em especial que me encantou por causa de uma palavra: “o brâmane e o pote de farinha” (pobre de minha mãe, a quem eu preferia consultar sobre o significado das palavras em vez do dicionário...).


Ísis: Me soa familiar... oO

Lulu: Sim, hoje em dia, em vez de eu puxar a barra da saia da minha mãe, é você que puxa a barra da minha metafórica saia e me faz de dicionário...

Ísis: Dona Mãe deve rir frente à ironia. “O mundo dá voltas mesmo”, ela deve pensar. XP

Lulu:O Dé me deu de presente de natal um do Neil Gaiman que eu quero dar a todas as minhas sobrinhas e filhas de primas e amigas – o belo e delicado Menina Iluminada (que, aliás, recentemente despachei de presente para a adorável Júlia...). E outro do mesmo autor que também deve ser compartilhado, lido em voz alta quase como uma canção é Instruções.

Para dar continuidade ao presente exercício, e em homenagem ao nascimento do Gabriel, vou tomá-lo como paradigma – afinal, se eu sou ‘a tia que dá livros’, tenho que ir preparada, não?

*se sentindo uma das fadas madrinhas da Bela Adormecida se preparando para dar um dos dons ao bebê: “você será um leitor incansável”*


Ísis: Dê a ele a habilidade de leitura dinâmica também, ou ele vai sofrer pencas. ^^’’’

Lulu: Livros que fazem barulho, ou com texturas diferentes ou para serem usados no banho são um bom começo para que a criança aprenda a manuseá-los; ao mesmo tempo em que se continua o processo de partilhar histórias começado durante a gravidez. Vai demorar um pouco até que a criança de fato entenda as histórias que lhe estão sendo contadas, então acho que essa é uma boa época para ler poesia – não tanto pela interpretação, mas pela musicalidade.

Um de que gosto muito e que teve a maior parte dos poemas de fato musicado, é A Arca de Noé, do Vinícius de Moraes. Eu não me lembro de como foi que descobri esse livro – acho que numa antologia vinda com uma assinatura de jornal (procurei na minha estante, mas acho que doei esse livro para a biblioteca lá de Mirandiba...), uns quinze anos atrás – mas o fato é que ainda hoje sei declamar de cabeça alguns de seus poemas...


Lá vem o pato
Pato aqui, pato acolá...
Lá vem o pato para ver o quê que há...


Manuel Bandeira é outro que também é uma delícia de ler, com seus jogos de palavras que soam como onomatopéias – há uma coletânea dele só para crianças chamado Berimbau e outros poemas.

Café com pão,
Café com pão
Café com pão
Virge Maria que foi isso maquinista?
Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai, seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força,
Muita força,
Muita força,
Ôooooo...


Ísis: Esse também é familiar... Alguém me recitou isso uma vez... Meu pai, talvez?

Lulu: Ou então você ouviu numa aula de literatura no colégio, porque Manuel Bandeira geralmente cai no vestibular e ele é um dos expoentes do modernismo brasileiro. Enfim, continuemos...

Qualquer um dos livros de poesia da Shel Silverstein também vale. Um dos meus poemas favoritos de todos os tempos é dele (a tradução é minha, que não sei se esse poema já foi publicado em português... mas há livros dele traduzidos a quem interessar possa...):

Se você é um sonhador, entre.
Se você é um sonhador, alguém que deseja, um mentiroso,
Se você é um esperançoso, um orador, um comprador de feijão mágico...
Se você é um fingidor, venha se sentar ao meu fogo,
Pois temos alguns contos e fios dourador por fiar.
Entre!
Entre!


À medida que Gabriel for crescendo, vamos apresentá-lo aos clássicos, não é mesmo?

Ísis: Pergunta primeiro se a mãe dele vai permitir você se meter na vida do filho dela, não? Fosse eu tava esfumaçando que outra pessoa já tá planejando o futuro do meu filho. Ficaria possessa...

Lulu: Já perguntei. E tecnicamente, não estou planejando todo o futuro do filho dela... apenas fazendo um exercício imaginativo em que vou acumulando títulos de livros que possivelmente darei para ele de presentes nos próximos aniversários e natais pelo resto da vida...

Pare de resmungar.


Ísis: Eu não. Senão com quem você conversaria? XD

Lulu:Onde eu estava mesmo antes da Ísis me interromper? Ah, sim, clássicos!

Histórias sobre amizade, principalmente, sobre pequenas aventuras e companheirismo. O Vento nos Salgueiros é o primeiro que me lembro nessa linha – li já adulta e o tempo todo em que lia pensava sobre como ele teria me afetado se eu o tivesse descoberto criança...


Ísis: Preciso desse livro urgente. Manda ele no próximo carregamento, por favor?

Lulu: Providenciarei.

As Aventuras do Ursinho Pooh, de A. A. Milne também vai para a lista. Pooh foi um favorito na minha infância, e há uma doçura extraordinária em suas histórias. Acho que não há antologias das histórias em português como existem em inglês, mas creio que algumas delas tenham sido traduzidas aqui no Brasil.


E já que estamos na fase dos animais personagens, não posso me esquecer de Beatrix Potter e seus Contos de Peter Rabbit - pela poesia, pela mensagem e pelas ilustrações.

Sua estante também terá Roald Dahl (Matilda é uma boa pedida para que ele encontre outros personagens que gostam de ler) e Maurice Sendak (como eu gostaria de ter lido Onde Vivem os Monstros quando criança...) e George MacDonald (e convenientemente descobri que A Princesa e o Goblin foi publicado no Brasil!).

Voltamos a Gaiman. A essa altura nosso pequeno Gabriel já terá descoberto pandas com O Dia de Chu; dando um passo à frente, ele lerá Odd e os Gigantes de Gelo. E depois, quando se sentir particularmente corajoso, será a vez de Os Lobos Dentro das Paredes. E também será o momento de apresentá-lo a Phillip Pullman com A Filha do Fabricante de Fogos de Artifício.

Dragões! Dragões também são importantes (dragões são sempre importantes). É hora de ler a série da Cressida Cowell, Como Treinar seu Dragão e também para mergulhar no divertido O Hobbit, de J. R. R. Tolkien.

Mais clássicos! E mais aventuras! Lobato, é claro, não pode faltar. Mas também haverá piratas com Stevenson e seu A Ilha do Tesouro, e náufragos em Robinson Crusoé de Defoe e chás comemorando desaniversários em Alice no País das Maravilhas. Os meninos perdidos de Peter Pan estarão lá também, assim como o Leão, o Homem de Lata e o Espantalho em O Mágico de Oz. E já que falamos em leões, não vamos esquecer de As Crônicas de Nárnia - até porque a obra de Lewis é uma boa forma de começar a falar de religião com o pequeno...

O Pequeno Príncipe provavelmente já terá sido lido no berço, mas a essas alturas ele poderá estar fazendo releituras do clássico de Exupéry – porque há sempre algo de novo para emocionar nessa história.

Frances Hodgson Burnett também é uma possibilidade. Eu só a li já adulta, mas os filmes adaptados de A Princesinha e O Jardim Secreto são marcos da minha infância (Ísis: *chora...). Outro que assisti o filme e só descobri que existia livro já grande e que provavelmente será um favorito para qualquer criança com uma grande imaginação é A História sem Fim, de Michael Ende.

E já que estamos na linha dos “filmes que assisti quando criança que só descobri que eram livros quando adulta e que quero que todos os meus sobrinhos leiam”, não posso me esquecer de O Noivo da Princesa, de William Goldman (que para efeitos de verossimilhança, deverá ser partilhado e lido em voz alta numa daquelas ocasiões em que o pequeno está convalescendo de um resfriado).

Esgrima. Lutas. Tortura. Veneno. Amor verdadeiro. Ódio. Vingança. Gigantes. Caçadores. Homens maus. Homens bons. As mulheres mais bonitas. Cobras. Aranhas. Bichos de toda espécie e descrições. Dor. Morte. Homens corajosos. Homens covardes. Os mais fortes. Perseguições. Fugas. Mentiras. Verdades. Paixão. Milagres.

Gabriel provavelmente passará dias depois disso fingindo que está num duelo de espadas e repetindo “Meu nome é Inigo Montoya. Você matou meu pai. Prepare-se para morrer”.

Dumas também é uma boa leitura, embora talvez eu deva esperar até uns quatorze ou quinze anos para presenteá-lo com Os Três Mosqueteiros. E mais Gaiman! Coraline é fantástico, com uma das protagonistas mais divertidas e corajosas que conheço, assim como O Livro do Cemitério (talvez antes eu deva apresentá-lo ao Livro da Selva original para que ele perceba as correlações...). As aventuras originais de Sherlock Holmes também poderão vir por essa época. E Verne, qualquer um do Verne, mas principalmente 20.000 Léguas Submarinas!

Ísis: Já não lembro mais de 20.000 Léguas (tinha uns 9 anos quando li, eu acho), mas o do Cemitério eu guardo (psicologicamente) com muito carinho no coração. Mas cuidado com a idade do menino quando deres esse.

Lulu: Também estará lá T. H. White, com sua série O Único e Eterno Rei – porque o Rei Arthur e Merlin têm de aparecer em algum lugar dessa lista.

Uma vez que tenhamos começado com as séries... tem Desventuras em Série, de Lemony Snicket e Harry Potter da J. K. Rowling (o primeiro volume no aniversário de 11 anos! Ísis: Linda ideia... mas, pensando bem, aí ele vai se identificar demais com o Harry e vai se achar um mago também... ^^’’). E claro, óbvio e ululante, toda a série de Discworld do Terry Pratchett, começando pelos volumes com a Tiffany Aching e O Fabuloso Maurício e seus Roedores Letrados.

E também O Castelo Animado (e que maravilha será após ler o livro assistir também o filme!) e Coração de Tinta (mas só o primeiro volume, a não ser que ele queira ler os outros...). E para momentos de nostalgia (porque a essas alturas ele já estará grande o suficiente para se sentir nostálgico de algumas coisas), o extraordinariamente encantador Contos de Lugares Distantes, de Shaun Tan – e esse é um livro que tive o prazer de dar para minha filha adotiva, a Dani.

A essas alturas, a mãe do Gabriel já estará danada da vida comigo porque não há mais prateleiras suficientes para todos os livros que já enfiei na biblioteca do menino. Enfim, aqui tem livros para as próximas duas décadas dele... a essas alturas, ele já terá gostos formados e seus próprios favoritos e poderá escolher sem levar em consideração a tagarela da tia Lu.

Ísis: Reforço meus comentários acima. Embora suas intenções sejam lindas, pergunta pra mulher primeiro se ela não se incomoda. Tá que tu disseste que são bastante próximas e tal, mas se fosse e eu soubesse que tu já tens a vida literária do meu filho por uma ou duas décadas planejadas, eu acho que surtaria (possivelmente de inveja que não sou eu)...

Lulu: E olhe que eu nem falei nada sobre a possibilidade de escrever minhas próprias histórias para ler para o mocinho... mas deixemos essa parte para a próxima, né?

Ísis: A *sua* filha vai te matar se souber disso... LOL


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2 comentários:

  1. Lu e Isis que texto mais lindo, divertido, encantador, lindo e eu já disse isso... Entendo perfeitamente esse sentimento, pra ti ter uma ideia de como comungo dele imagina qual foi a primeira coisa que comprei quando soube que estava à espera de Padawan? Sapatinhos? Nãnãninãnão, livros, uma coleção linda de As Aventuras do Ursinho Pooh, de A. A. Milne :D Ele tem até hoje
    Em dezembro nasceu Joaquim, filho de meus primos, e tenho o maior orgulho de ter dado o primeiro livro da biblioteca dele.
    Acho que Gabriel é um guri de muita sorte de te ter como tia "curadora da futura biblioteca em constante crescimento"
    estrelinhas coloridas...

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    1. Eu fico é muito feliz em poder de alguma forma influenciar o Gabriel para se tornar um leitor, de poder dividir essa paixão não apenas com ele mas com todos os leitores do Coruja.

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