15 de outubro de 2013

Quem Conta um Conto (Outubro): O Conto do Dé || Lunarum


Tudo começou a 50 anos. Na época, os efeitos já começavam a aparecer. A temperatura subia, lentamente, mas perceptivelmente. Cientistas na época disseram que era efeito da concentração de gases originários da queima de combustíveis fósseis... mas mal sabíamos que a origem era outra. ELES eram a origem.

10 anos depois dos primeiros efeitos, eles deram sinais de que existiam. Mesmo que o tenham feito apenas através de transmissões pela internet, o fato de não mostrarem suas formas causou uma confusão generalizada, paranoia e medo espalharam-se pelas ruas, e muitos governos caíram durante este período. Apenas os países mais desenvolvidos conseguiram controlar a revolta popular à tempo, enquanto os demais passaram a ser dominados por grupos religiosos ou caíram na completa anarquia. Foram anos difíceis, estes. A eventual revelação de que os governos de alguns países mantinham contato com eles, e que houve grande quantidade de troca de informações durante anos, não foi surpresa para muitos. Eles vieram, e vieram para ficar.

Logo nos primeiros anos vieram as vantagens, da presença Deles. As trocas de tecnologias trouxeram avanços fantásticos para a Terra. O conhecimento deles na área de engenharia genética supera tudo o que nossos cientistas conheciam, a ponto de parecer magia. A criação de novas espécies, praticamente do nada, logo tornou-se possível. Uma das primeiras criações foram os Felis volans: gatos alados, extremamente inteligentes e dotados de fala, que logo tornaram-se extremamente populares como animais de estimação para aqueles que podiam comprar um. Para aqueles que conseguiam entender o que diziam, possuam valor incalculável, pois embora falassem apenas o próprio idioma, a memória eidética destes os tornavam excelentes fontes de informação.

Os F. volans foram apenas os primeiros. Várias outras espécies foram criadas, e muitas outras foram revividas. Dinossauros, mamutes, tigres dentes-de-sabre... Foram apenas a ponta do iceberg. Quando estávamos confiantes de que as intenções deles eram boas, eles se revelaram. Uma de suas naves pousou em Washington, após vários meses de negociações. Várias emissoras de TV cobriram o evento: “O encontro do milênio”, disseram alguns, “O primeiro encontro imediato confirmado”, disseram outros. O fato é que, ao meio dia do dia 7 de julho daquele ano, os extraterrestres chegaram à Terra.
A nave possuía a forma de um sol estilizado, e brilhava como um. Eles desceram a partir de um raio de luz emitido da nave. Os olhos destreinados dos presentes não sabiam o que ver, uma vez que tudo parecia um borrão em meio à tanta luz, mas eles estavam lá. Seres humanoides, compostos completamente de luz e chamas, como sóis em miniatura, eles ofuscavam aqueles que tentaram olhar diretamente. Identificaram-se pelo nome Solibus, e vieram com um discurso que parecia ter saído de um filme de ficção científica: Paz, colaboração entre as raças, harmonia universal... faltou apenas o “Levem-nos ao seu líder”, para falar a verdade.

Após o choque inicial, as negociações começaram. A história que nos contaram e que os sóis de seu sistema nativo, o sistema binário na constelação de Cygnus que conhecemos na Terra por Albireo, estava morrendo e tornou-se incapaz de sustentar vida por muito mais tempo. Assim sendo, toda a população decidiu procurar um outro planeta com condições favoráveis para a sobrevivência de sua raça, e após várias décadas de viagem, descobriram a Terra. Eles pediam refúgio. E estavam dispostos a pagar a estadia dividindo sua tecnologia e conhecimentos conosco.

Por alguns anos, tudo parecia bem. Mas isso não durou.

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A medida que mais e mais naves se aproximavam da Terra, os efeitos eram sentidos. As naves dos Solibus eram movidas por energia solar, mas não da forma como era feito na Terra: elas absorviam a energia necessária, armazenavam o excedente e reemitiam, abastecendo as naves vizinhas, em um ciclo capaz de mantê-las por períodos extremamente longos, mesmo longe de alguma estrela. Mas, como resultado, as próprias naves poderiam ser consideradas sóis em miniatura. Como resultado das milhares de naves que se aproximavam, os dias começavam a se estender. Mesmo no inverno, em países temperados, não era incomum ter sol até as 19h ou mais tarde. Eventualmente, não existia mais noite.

A temperatura do planeta aumentou de maneira incrível, mais de 10 graus em dois anos. As calotas polares derretiam a um ritmo vertiginoso, causando um aumento de mais de 60 metros no nível do mar, submergindo a maior parte das cidades costeiras. Países inteiros desapareceram sob as águas.

O clima também sofreu, com o aumento da temperatura. Tempestades, furacões e fenômenos similares tornaram-se tão frequentes quanto chuvas de verão, castigando ainda mais a população sobrevivente. As correntes marítimas mudaram, tornando viagens navais um desafio novamente.

Com o aumento da temperatura, os oceanos não mais possuam oxigênio o bastante para sustentar a vida, desencadeando o processo de extinção global. Dos animais marinhos que não morreram sufocados de início, logo o fizeram, após a morte do fitoplâncton e das algas devido às altas temperaturas, reduzindo ainda mais o oxigênio disponível. Logo os oceanos tornaram-se desertos desprovidos de qualquer tipo de vida.

Em terra, a situação não era muito melhor. O excesso de luminosidade inibia que as plantas sobreviventes realizassem fotossíntese, pois inibia o maquinário celular que realizava as reações químicas. Milhares de animais morreram sufocados lentamente, e os humanos iriam pelo mesmo caminho, eventualmente. A reação contra estes efeitos foram lentas, pois muitos dos sobrevivente simplesmente enlouqueceu, devido à falta de sono causada pela luminosidade constante.

Os governos restantes iniciaram um ataque aos invasores, como agora eram chamados. Mas tudo foi inútil, pois nada que conseguia atingir as naves parecia ter efeito. Isto tornou os Solibus mais confiantes, fazendo com que pousassem suas naves na superfície. Os extraterrestres mostraram-se imunes a praticamente todas as armas humanas, pois emitiam tanto calor que quase tudo simplesmente era vaporizado antes de atingi-los. E mesmo quando eram atingidos, os corpos em estado de plasma, nem sólidos, nem líquidos e nem gasosos, simplesmente eram atravessados pela arma. Isto fez com que os invasores se tornassem arrogantes, confiantes. E este foi o primeiro erro dos Solibus.

Foi quando os Lunarum, uma sociedade secreta dedicada à combater os extraterrestres, simbolizada por três luas crescentes, conseguiram algum sucesso, no que agora era chamada de guerra. Após muito custo e muitas baixas, um dos extraterrestres foi capturado com vida! Durante um ano, “o exemplar”, como passou a ser chamado, foi estudado de todas as maneiras conhecidas pela ciência moderna. Não foi uma experiência agradável para os humanos, e muito menos para “o exemplar”. Descobrimos que os invasores são, basicamente, estrelas em escala minúscula, dotadas de inteligência e forma humanoide. Mas o principal é, são estrelas: são basicamente gás hidrogênio em um processo de fusão nuclear.

Com isto, pudemos contra-atacar! A partir disso, conseguimos finalmente projetar uma defesa, utilizando as armas que eles mesmos nos deram: engenharia genética. Utilizando os genes de centenas de espécies, acrescentada ao DNA de cavalo, Equus ferus caballus, conseguimos criar a criatura que se tornaria o símbolo da resistência da humanidade. Equus monoceros. Unicórnios.

O processo exato foi mantido em sigilo total, assim como o mecanismo exato de como os unicórnios seriam capazes de vencer os extraterrestres, mas os primeiros testes foram um sucesso absoluto. “O exemplar” se desfez em gás hélio ao menor contato com o chifre do animal que, de alguma forma, era completamente imune aos efeitos de estar em contato com uma estrela.

Em pouco tempo, os unicórnios eliminaram quase metade dos extraterrestres na superfície, um feito impressionante, considerando que tão poucos foram criados e fossem tão... ferozes. Praticamente impossíveis de controlar, os primeiros unicórnios iniciaram um massacre de qualquer criatura viva que cruzasse o seu caminho, terrestre ou não, obrigando os Lunarum a sacrificar os animais. Porém, a lição foi aprendida: uma nova codificação foi inserida no DNA dos próximos unicórnios. Frente ao símbolo das três luas, eles tornavam-se mansos e dóceis, enquanto mantinham-se ferozes e sanguinários quando não mais viam o símbolo.

Mas os invasores não ficaram quietos. Em pouco tempo eles conseguiram localizar o laboratório que iniciou as pesquisas e foi capaz de criar os unicórnios e lançaram um ataque fulminante. Um raio de luz solar concentrada desceu sobre as instalações, vaporizando tudo em um raio de vários quilômetros, exceto pelos animais, completamente imunes ao ataque. Isto ensinou a lição aos invasores, que passaram a usar armas terrestres para caçar as únicas criaturas que representavam algum risco a eles.

Foi neste cenário que iniciou-se uma nova corrida. Uma corrida entre terrestres e invasores, ambos buscando os últimos unicórnios viventes. Os terrestres, para cloná-los; os invasores, para mata-los. E os invasores estavam na frente.

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Faz quase 10 anos que me aliei aos Lunarum, junto com Stella, minha F. volans. No início foi duro, pois não haviam muitos recursos na cidade aonde vivíamos na época. Todos os recursos e esforços estavam concentrados em manter a população viva: as estufas não funcionavam bem, possuindo uma fraca filtração de radiação solar, enquanto os dessalinizadores estavam a anos sem manutenção. Felizmente, eu possuía contatos com um grupo de engenheiros, que concordaram em olhar e manter os equipamentos dos Lunarum. E foi assim que consegui chamar a atenção dos líderes regionais.

Durante algum tempo, trabalhei como assistente pessoal de Yuri, o líder de uma célula Lunarum do que restou da Rússia oriental. Embora fosse uma tarefa importante à causa, ainda não era o que eu queria fazer. Coordenar a movimentação de produtos, organizar a agenda de Yuri e tudo o mais não era o que eu esperava. Eu queria ver os unicórnios. Sempre que eu dizia isso, Yuri me assegurava que eles estavam extintos, resultado da caçada incansável dos invasores. Este era o discurso oficial, mas eu sabia que ainda existiam alguns, que escondiam-se nas ruínas das cidades abandonadas, e insistia que gostaria de encontra-los. Cinco anos atrás, finalmente consegui meu desejo.

Passei pelo treinamento de sobrevivência exigido para aqueles que saem para explorar o mundo e recebi meu medalhão de três luas: o símbolo dos Lunarum e a ferramenta que me permitiria a aproximação pacífica com um unicórnio.

- Pronta, Stella?

- Fvz, zrfger. B purvib qb nyib sbv zrzbevmnqb pbz fhprffb.

- Ótimo. Nossa missão começa agora.

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Mais um unicórnio morto

Provavelmente o quinto que encontramos em nossas viagens.

- Nyib ahzreb frgr ryvzvanqb, zrfger.

- Sete? Só lembro de cinco. Aonde encontramos os outros dois?

- Ehnaqn r Oenfvy, zrfger. Ryvzvazbf bf nyibf enevqnzrare r sbenz, coegnagb, rfdhrpvqbf. Znf rh ertvfgerv r genfzvgv bf qnqbf cnbn n pragey.

- Obrigada, Stella. Esqueci completamente destes. De qualquer forma, devemos seguir com a nossa missão. Estão contanto conosco.

Então dei as costas para o cadáver do unicórnio e prossegui viagem, com minha fiel felina alada.

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Nos cinco anos desde que saí da Rússia, encontrei nove unicórnios. Todos mortos. Os Solibus são implacáveis, especialmente contra as únicas criaturas frente à sua dominação da Terra.

Fazem quase 10 meses que não encontro sequer o rastro de algum deles, quanto mais o animal, vivo ou morto. Cada dia que passa eu me convencia cada vez mais de que eles estavam completamente extintos. Porém, os fatos me faziam crer que ainda existia ao menos um unicórnio vivo.

Fato 1: 100 animais foram criados no laboratório, e mais ninguém poderia reproduzi-los. Acontece que estes animais, tendo sido criados em laboratório e sem o objetivo de manter uma população, foram criados sem órgãos reprodutivos, de forma que apenas com interferência humana um novo unicórnio poderia nascer.

Fato 2: Caso não tenha sofrido uma morte violenta, é pouco provável que tenha sofrido morte natural. Entre os diversos genes inclusos no DNA dos animais estavam os genes de Turritopsis nutricula, fazendo deles “imortais”. Assim como as águas-vivas, quando chegar à velhice, o unicórnio deveria voltar a ser um potro. Porém, também não havia passado tempo o bastante para isso.

Fato 3: Haviam registros de 90 unicórnios mortos, antes de eu sair pelo mundo. Encontrei outros 9. Resta um. A última esperança da Terra. E minha missão é encontrá-lo.

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- Stella, você tem certeza?

- Nsvezngvib, zrfger. B enfgeb qb nyib yrin cnin nf ehvanf qn pvqnqr dhf bf greerfgerf punznz qr Zhavdhr.

- Já faz muito tempo que procuramos por este unicórnio. Como você tem tanta certeza, desta vez?

- B purveb.  Ibyggrv n fragve b purveb ab zbzragb dhr ergbeanzbf cnen n Rhebcn.

- Muito bem. Guie o caminho.

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Por toda a cidade, o símbolo dos Lunarum estava pintado. Nas paredes, no asfalto, nos troncos das árvores mortas e até nos crânios dos esqueletos espalhados nas ruas. Em alguns pontos, a frase “Abaixo com o sol” estava escrita em inglês, mesmo em uma cidade alemã.

Seguindo as orientações de Stella, chegamos a uma região que outrora foi um bairro residencial. Agora, restavam apenas lembranças. Bicicletas enferrujadas jogadas nas calçadas. Carros presos em um engarrafamento eterno. Cores esmaecidas devido à luz. Não pude deixar de pensar que é assim que o mundo inteiro seria, sem este unicórnio. Minha motivação só aumentou: preciso encontrar este unicórnio, ele é a última esperança da Terra!

Stella nos guiou até um condomínio. Antes de tudo, deve ter sido um lugar bonito. Arborizado, com edifícios baixos e uma praça central, completa com uma fonte com esculturas de anjos. Grama amarelada ainda resistia bravamente. Brinquedos estavam espalhados por toda a parte: bolas, animais de pelúcia, livros e muitas outras coisas. Em meio a tudo isto, estava o unicórnio, pastando a grama amarelada calmamente.
Quando nos aproximamos, pude ver que um medalhão, igual ao meu e o de Stella, estava preso ao chifre do animal. Isso explica por que ele não nos atacou assim que sentiu nosso cheiro.

Finalmente! O último unicórnio! Bem na minha frente! Mal pude acreditar! Eu poderia finalmente completar minha missão! E assim o fiz.

Atirei cinco vezes contra o maldito animal. Um disparo para cada ano que passei nesta busca incessante!

Três tiros no coração e dois na cabeça.

- O último unicórnio está morto.

- Zrafntrz genafzvgvqn.

- Muito bem, Stella. Minha missão chegou ao fim. Assim como a sua.

Quando me livrei da deplorável casca de carne em forma humana, o calor vaporizou Stella instantaneamente. A área ao redor foi reduzida a menos de carvão. Apenas o cadáver da criatura desgraçada permaneceu. A única coisa neste planeta capaz de resistir a nós, agora jaz morta.

Tolos terrestres! A tentativa foi boa, mas fútil. Nós, os Solibus, sempre vencemos!

Sempre.

O Bode


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