15 de abril de 2013

Quem Conta um Conto (Abril): O Conto do Dé || Explicações


“Muito bem, vocês dois.” Disse Dona Laura. “Poderiam, por favor, me explicar o que estavam fazendo embaixo da cama? E, se possível, não esqueçam de explicar as mochilas jogadas; os livros espalhados; as manchas de comida por toda cozinha, inclusive no teto; os móveis virados... Enfim, o por que minha casa estar parecendo uma zona de guerra.”

O casal de adolescentes se entreolhou nervosamente. Estela sabia muito bem o que acontecia quando a mãe falava daquela maneira: era a calmaria antes da tempestade. Mário nunca tinha visto a sogra naquele estado durante o ano e meio de namoro; mas também, a sogra nunca tinha chegado mais cedo para encontrar a casa semidemolida.

“Mamãe...” Estela começou a falar, tentando manter a voz livre de medo e nervosismo. “Pode ter certeza que iremos arrumar tudo!”

“Estelinha, minha querida...” A voz de Dona Laura estava tão adoçada que poderia causar diabetes. “Nem por um segundo eu duvidei disso. Eu só quero saber o que houve aqui, antes que vocês comecem a faxina.”

A esta altura, Mário já procurava um buraco para se esconder. Aos seus olhos, a sogra tinha dez metros de altura, estava envolta em sobras e com olhos flamejantes.

“Calma, Mário...” Pensou enquanto respirava fundo.“É apenas a Dona Laura, que você conhece há anos. Você não é um hobbit assustado e ela não um Balrog prestes a te devorar...”

Mas bastava a mulher lhe dirigir o olhar, que ele voltava a tremer de medo, precisando reafirmar para si mesmo que não estava diante de um monstro saído das profundezas e que não precisava temer coisa alguma. Provavelmente não.

“Então. Vão me explicar, ou devo tirar minhas próprias conclusões?”

As mãos do casal se encontraram, em um gesto ao mesmo tempo de afeição e encorajamento.

“Mãe, tudo começou depois da aula...”

*~*~*~*~*

“Mas que aula mais chata!” A garota disse logo que encontrou dois assentos vazios no metrô.

“É por isso, Belle, que você vai prestar vestibular para psicologia.” Ele sentou-se no assento livre e beijou de leve o rosto da namorada. Ela, por sua vez, reclinou-se para apoiar a cabeça no ombro dele.

“Ainda não sei como você consegue gostar de matemática...” E antes que ele pudesse oferecer alguma explicação, ela continuou. “E não me venha com essa história de “linguagem universal” de novo! Eu continuarei sem entender.”

Mário abriu um sorriso. Já tinham trocado estas mesmas palavras milhares de vezes, inclusive na noite em que trocaram seu primeiro beijo.

“E você vai me dizer que surpresa é essa que você me prometeu?”

“Ah, sim!” Ela endireitou-se na cadeira. “Lembra daquele restaurante que a gente foi no mês passado? Que você adorou o suflê?”

“Lembro do suflê. O nome do restaurante me escapa, agora.”

“Tudo bem, o que importa é o suflê. Peguei uma receita que deve ficar igualzinha! Já comprei tudo para fazer, também.”

“Parece interessante... Já fiquei com fome.”

E seguiram o resto do caminho em silêncio, ela com a cabeça no ombro dele, de mãos dadas.

*~*~*~*~*

Estela torceu o nariz logo que entrou em casa: todas as almofadas do sofá estavam no chão. Ela tinha certeza que estavam todas no lugar quando saiu para a aula.

Mário estranhou também, já que nunca tinha visto as almofadas no chão sem que alguém as estivesse usando.

“Tem alguém em casa, Belle?”

“Não que eu saiba. Mamãe só volta a noite.” Disse ela, enquanto apanhava as almofadas. “Vamos logo para a cozinha, estou faminta.”

Deixaram as mochilas em cima da mesa e seguiram para a cozinha.

“Você vai cortando os legumes que eu começo a massa, tudo bem?”

“Sim, senhora. Você que manda... até porque eu não sei a receita.”

Em poucos minutos tudo estava cheirando maravilhosamente bem, com a assadeira dentro do forno.

“Miau.”

O casal parou de uma vez tudo que estavam fazendo, encarando um ao outro. Simultaneamente, ambos voltaram o olhar para a entrada da cozinha, exatamente na mesma velocidade. Parado na soleira estava um gato, de pêlos cinzentos e olhos azuis, com uma expressão que, em uma pessoa, representaria extremo desprezo.

“Quando foi que vocês adotaram um gato, Belle?”

“Esse gato não é nosso. Mamãe teria me dito, se trouxesse um gato para casa.”

“Então, como foi que ele entrou aqui?”

“Nem ideia, mas é melhor colocar ele pra fora logo.”

E no instante que Estela terminou a frase, o animal disparou sala adentro, escondendo-se entre os móveis.

“Você viu pra onde ele foi?”

“Embaixo do armário. Vou tentar pegar.”

“Cuidado, Mário. Não sabemos se ele é vacinado.”

Mário xingou mentalmente, mas lembrou-se de tomar cuidado. O gato percebeu a hesitação do rapaz e aproveitou o momento para disparar pela sala.O movimento súbito assustou Mário, que bateu a cabeça na parte de baixo do armário. Com força. O barulho do vaso que Dona Laura mantinha em cima do móvel se estraçalhando no chão fez Estela xingar alto.

“Ele foi para as escadas!” ela gritou, já em perseguição.

“Vou em um minuto... Assim que o mundo parar de rodar feito uma centrífuga.”

No andar de cima, o gato havia escolhido o quarto de Estela como esconderijo. Mais precisamente, o armário da garota, entre as roupas previamente organizadas carinhosamente. No momento, elas pareciam ter sido organizadas carinhosamente pelo Diabo da Tasmânia em perseguição ao Pernalonga.

“Você acabou de mudar minha opinião sobre gatos e está me fazendo reconsiderar seriamente violência contra animais, seu pulguento!” E, percebendo o que havia acabado de dizer, continuou. “Se você passou pulgas, carrapatos ou seja lá o que for para as minhas roupas, você é um gato morto!”

E novamente parecendo entender o que foi dito, o animal disparou por Estela que, apesar dos esforços, foi incapaz de segurar o gato. Este, ao alcançar a porta, parou e olhou para trás, como se desafiasse a moça a tentar capturá-lo, a ponta da cauda balançando de um lado para o outro. Então disparou escada abaixo.

A garota correu atrás do gato, soltando fumaça pelos ouvidos de tanta raiva, indo a toda velocidade e completamente focada na perseguição, o que resultou em uma dolorosa colisão com Mário, que subia as escadas. Ambos rolaram escada abaixo, parando com um baque alto, da cabeça do rapaz batendo no chão, e a namorada caindo sobre sua barriga, expulsando todo o ar dos pulmões dele. Assim que percebeu, Estela levantou-se e ajudou-o a sentar.

“Amor, você está bem?” Perguntou, com a voz cheia de aflição, a raiva desaparecendo completamente enquanto examinava o namorado.

“Mas eu não quero ir pra outro castelo, Toad...”

“Sua princesa está aqui, encanador idiota.” Estela disse, com um sorriso e aliviada.

“Que correria foi essa, Belle?” E, depois de passar a mão na nuca dolorida (havia um inchaço se formando ali), ele completou. “Não me viu aqui?”

“O gato passou por aqui, você não viu? O maldito bagunçou todas as minhas roupas!”

Ignorando solenemente o comentário sobre as roupas, ele respondeu.

“Não, ele não passou por aqui. Tem certeza que ele veio nessa direção?”

“Miau.” Veio em resposta. O casal procurando por alguns instantes, até que o rapaz o encontrou.

“Como diabos ele subiu no maldito lustre?! Ele não tem nada pra ajudar a alcançar!!!”

*~*~*~*~*

A insólita perseguição continuou por mais de uma hora, com gato claramente levando a melhor. Enquanto o animal não parecia sequer ofegante, os adolescentes mal conseguiam se manter em pé. A casa parecia ter sido alvo de um furacão: móveis virados, objetos aleatórios espalhados por toda parte (alguns em mais de um lugar ao mesmo tempo), tapeçarias fora do lugar... uma zona. E o gato apenas olhava para os dois, a ponta da cauda balançando de um lado para o outro.

“Ele está zombando de nós. Eu sei que está.” A voz de Mário poderia abrir buracos em concreto, de tão ácida.

“Vamos pegar ele, Mário. Nem que a gente precise derrubar a casa.” Olhou ao redor e completou. “De novo...”

Ele até abriu a boca para responder, mas outra coisa chamou sua atenção.

“Você está sentindo cheiro de queimado?”

“O suflê!”

O susto fez o cansaço desparecer imediatamente, e em questão de segundos eles já estavam na cozinha. Estela retirou a assadeira do forno, envolta em uma nuvem negra. A travessa continha agora uma escura massa marrom, que inflava rapidamente.

“Belle! Se afasta!” Mário disse, percebendo o que iria acontecer. Puxou a namorada para trás de uma porta de armário, grande o bastante para cobrir os dois. Um som de borbulhar misturado ao de um balão estourando atingiu os ouvidos dos dois, muito alto. Junto a ele, um silvo alto foi ouvido, o gato assustando-se com o barulho. Estela ainda conseguiu ver o vulto cinzento e peludo correndo escada acima.

“Ele foi para os quartos!”

“E a cozinha?”

“Limpamos depois! Vamos subir!”

Lá em cima, pararam por alguns instantes, imaginando em qual quarto ele estaria agora, mas o quarto de Estela era o único com a porta aberta. Foram para lá.

O gato estava lá, na janela entreaberta. As costas arqueadas e os pêlos eriçados indicavam que não era o melhor momento de se aproximarem, apenas reforçado pelo novo silvo que o animal emitiu em direção aos dois... e então, sem mais nem menos, o animal saltou pela janela, ganhando a rua a toda velocidade.

Os dois não podiam acreditar. Bastou que o animal se assustasse, para que saísse da casa! Eles entreolharam-se novamente e começaram a rir. Tanto trabalho, a destruição na casa, para se resolver tão simplesmente?

“Finalmente ele foi embora!”

“Realmente, nem acredito! Mas temos que começar a arrumar a casa, antes que mamãe chegue.”

“É, temos mesmo. Só... vamos descansar uns minutinhos, por favor...”

Ela esperava que estivesse cansada, mas só depois que o namorado falou que ela percebeu o quão cansada estava.

“É... alguns minutinhos...”

E a próxima coisa que lembravam era que todas as luzes, inclusive o sol, estavam apagadas e que Dona Laura estava gritando a plenos pulmões.

“O que aconteceu aqui?! Estela?!”

Haviam pegado no sono!

“Minha mãe! Ela vai nos matar!”

“E agora? O que fazemos?”

E, no desespero, a única coisa que passou na cabeça dela foi:

“Rápido, pra baixo da cama!”

*~*~*~*~*

“E foi aí que a senhora nos encontrou, Dona Laura.” Concluiu Mário.

A expressão da mulher estava indecifrável.

“Então, vocês estão me dizendo que um gato entrou em casa, provavelmente pela janela de Estela, e que vocês fizeram essa bagunça toda tentando tirar ele de casa?”

“É. É isso mesmo, mãe.”

“É... isso explica praticamente tudo que parece ter acontecido...”

Os dois quase entraram em pânico. Como assim “praticamente”? Ignorando a aflição dos jovens, Dona Laura calmamente foi para o lado da cama, aonde eles não podiam ver o que tinha no chão, e apanhou um objeto. Uma peça de roupa, cor-de-rosa.

“Agora, poderiam me explicar o que o sutiã de Estela está fazendo no chão?”

O Bode


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Um comentário:

  1. Morri de rir com o demonio da tasmania... e adorei o conto. XD

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