22 de dezembro de 2012

Do Gênesis ao Apocalipse: O Fim


Se você está lendo isso é porque o mundo não acabou ontem, de forma que valeu à pena ter deixado essa postagem programada. Se o mundo acabou, então, bem... não há muito que se possa fazer, não é verdade?

Enfim... chegamos ao término do projeto Do Gênesis ao Apocalipse. Ao longo de todo o ano, estive lendo livros que foram escritos ou se passavam em marcos da história da civilização humana – do absoluto princípio, com a gênese de Milton em O Paraíso Perdido até a erradicação do homem em Eu sou a Lenda.

Conhecemos o primeiro herói, Gilgamesh, na epopéia que é considerada um dos primeiros livros escritos (ou, ao menos, o mais antigo que chegou até nós razoavelmente intacto), uns cinco mil anos atrás. Estivemos ao lado de um dos maiores imperadores do Antigo Egito, Ramsés II numa versão romantizada, mas que ainda assim nos dá uma boa impressão do lugar, da época, das intrigas e desertos.

Viajamos com Ulisses, em sua Odisséia, por um mundo em que monstros, ninfas, feiticeiras e deuses estavam próximos demais, presentes no cotidiano dos homens. Demos um passo adiante para assistir Júlio César na versão do Bardo – confundindo-se Roma e Inglaterra, a púrpura do César com a coroa de Elizabeth.

Pulamos então para a Idade Média, investigando aparentes milagres ao lado do Irmão Cadfael. Avançamos um tanto para assistir o nascimento do romance moderno com a obra-prima de Saavedra, o tão querido, tão pranteado Dom Quixote.

Às vésperas da Idade da Razão nos divertimos com Voltaire a viver no melhor dos mundos, e logo depois caímos na deprimida Mãe-Rússia de Dostoievsky, pré-revolução, onde um castigo sempre corresponde a um crime. Em pouco menos de três meses tivemos três clássicos, um romântico, um irônico filosófico e um realista ainda ligeiramente esperançoso de perdão. Então caímos no cinismo de O Grande Gatsby, magnífico em suas ações, ainda que sejam elas vazias, como bolhas de champanhe que muito rápido te embriagam.

Foram onze livros, em sua maior parte grandes clássicos, marcos em si mesmos da história humana e da literatura. Estilos diferentes, escolas literárias diferentes. Alguns foram releituras – e como foi bom voltar a eles, lembrar a primeira vez (o primeiro amor bidimensional não se esquece)... Outros eu conheci agora, por causa dessa coluna e, francamente, não houve um único livro desse projeto que eu não tenha amado.

O que aprendi – ou aprendemos – nessa jornada histórico-literária?

Não sei quanto a vocês, mas minha conclusão é que não importa quanto tempo passe, não importa as mudanças que o tempo nos traz, em sua essência, os temas são os mesmos. No fundo, são sempre os mesmos anseios e as mesmas histórias. São contos sobre lealdade e traição, sobre amor e ódio, sobre loucura, felicidade, família, pobreza, esperança. Estamos sempre tentando retornar ao lar por entre mares bravios, procurando por um ideal – seja uma missão de vida, seja uma mulher. Somos vítimas do orgulho e da vaidade e estamos todos os dias sujeitos à queda como os outrora grandes Anjos.

São as mesmas histórias, sim. São as nossas histórias. Nossas vidas e nossas lutas. Em mais de cinco mil anos de narrativas, ainda somos os mesmos. Talvez um pouco mais cínicos, um pouco menos propensos a acreditar no extraordinário... mas, ainda assim, os mesmos. Eu, você, Gilgamesh e Raskolnikov dividimos as mesmas existência.

Uma existência inteira dentro de pouco mais de dez livros.

Gostaria de saber que livros vocês teriam escolhido para pontilhar esse trajeto. Que marcos em nossa história vocês consideram importantes o suficiente para encontrar seu correspondente literário. Em outras palavras... minha viagem termina (por hoje), aqui. Mas nada os impede de tomar seu próprio caminho (e quem sabe, quem sabe, não chegaremos ao mesmo lugar?).

Fica o convite.


A Coruja


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