sexta-feira, 27 de abril de 2012

Na sua estante: epílogos





#119: Na sua estante
---------------------------------------

Cada livro em seu devido lugar, o carrinho empurrado devagar a sua frente, cópias antigas e novas, clássicos e best-sellers misturados com volumes técnicos e revistas especializadas.

Dostoiévsky está no próximo corredor e lá se vão Os Irmãos Karamazov.
- Pelo amor de Deus, parem vocês dois! – Penélope interrompeu de novo – Do jeito que brigam, nem parece que são irmãos!

Beatriz e André se entreolharam.

- Na verdade... – ele começou – Eu acho que seria de se desconfiar se fomos trocados na maternidade se não brigássemos assim. É como uma... obrigação contratual.
Homero, às vezes, é um desafio. Poema épico, cultura clássica, História Antiga – as pessoas estão sempre devolvendo-o para as estantes erradas.
‘Miau.’

Ela abriu um único olho, espiando Heitor – no momento, muito bem acomodado em cima de um grosso volume da Política de Aristóteles.

Havia qualquer coisa de repreendedora no olhar do gato. Penélope revirou os olhos.

- O que foi agora?

‘Miau.’

Heitor balançou a cabeça, como se estivesse mostrando as toneladas de livros espalhadas de qualquer jeito pelo chão, antes de encará-la fixamente, com mais um longo miado.

Ele obviamente estava reclamando da bagunça que ela fizera. Ou talvez, do fato de que ela dissera que aproveitaria o feriado para limpar e organizar sua estante de livros e há três dias que ela estava naquela tarefa e ainda não conseguira completar sequer metade das prateleiras.
Resolvido o problema do poeta cego, vejamos o que vem a seguir... ah, literatura inglesa! Romances históricos eram um particular favorito da bibliotecária. E quantas vezes já relera aqueles ali? O Morro dos Ventos Uivantes, Grandes Esperanças e...

Penélope abriu um sorriso, pensando consigo mesma que já era tempo de reler aquele último. Com uma boa xícara de chocolate quente. Sim, sim, ela levaria Razão e Sensibilidade para passar o fim de semana.
– Sabe, Elinor e Marianne me faz lembrar de nós duas. – ela confessou, com um meio sorriso.

- É... e ninguém precisa questionar quem é quem na dupla, né? – Sofia deu um sorriso de lado.

Bia cruzou os braços.

- Eu me ressinto que você não tenha alcançado meu ponto, Sofia, especialmente depois de eu me esforçar tanto para entender suas viagens musicais. – Beatriz balançou a cabeça, embora seu tom traísse que estava se divertindo com a discussão – Eu não acho que Tia Jane tenha pensado completamente numa dicotomia quando batizou essa história de Razão e Sensibilidade. Aliás, leve em consideração que o título original fala de senso e sensibilidade e que o conceito de sensível não é necessariamente ser um ultra-romântico, mas sim, alguém com facilidade de observar as impressões ao seu redor.

- Tia Jane? – Sofia começou a rir – Sério, Bia? Você adotou a mulher agora?

- Ora, e por que não? A gente tem passado tanto tempo com os narizes enfiados nesses livros que já podemos nos considerar íntimas.
Após colocar o pequeno volume debaixo do braço, ela observou o que mais tinha no carrinho. Hum... Cyrano de Bergerac... Era um dos favoritos de Arquimedes.

Estreitando um pouco os olhos, Penélope percebeu que havia uma folha dobrada dentro. Curiosa, ela tirou a folha, encontrando um esboço de perfil, uma figura elegante ao piano.
Ela sabia seu nome.

Fora assim que tudo começara: um encontrão de frente, um pedido de desculpas, um sorriso tímido. Até então, Luís nunca dera particular atenção a criaturas do sexo oposto que viviam mais ou menos no mesmo plano material que ele.

Na verdade, até aquele dia, seu modelo de beleza feminina e personagem de suas fantasias tinha sido Kate Beckinsale... ou, mais exatamente, a personagem Selene, de Kate Beckinsale na franquia
Underwold.

É claro que o fato de Beatriz freqüentar os mesmos lugares que ele – leia-se, a biblioteca – não significava que ela fosse mais acessível que uma personagem de um filme de vampiros. Ao menos, não quando ele era incapaz de juntar suficiente coragem para tentar falar com ela.

Por isso, quando ela parou diante dele, perguntando se podiam dividir a mesa e chamando-o por seu nome – como ela sabia seu nome? – ele precisou de alguns segundos para poder responder.
Cálculo avançado... romances com vampiros. Revistas de engenharia de pesca. Ela nunca conseguira entender como conseguiam encher uma inteira revista com artigos só sobre engenharia de pesca. Nunca tentara lê-las, também. Apenas preenchia as fichas e fazia os cadastros.

No meio de tudo aquilo, um romance de cavalaria. Penélope abriu um meio sorriso à lembrança que o livro imediatamente lhe provocou.
- O problema são essas perspectivas totalmente batidas de aproximação de um tema. Por que os professores não pedem para a gente fazer coisas novas? Tipo, podiam passar um trabalho para escrevermos sobre... sei lá, a aproximação de Arthur com músicas sertanejas.

Beatriz sentiu o queixo cair enquanto Luís, conhecendo o amigo, ria silenciosamente em seu canto.

- Sertanejo medieval? – ela perguntou num fiapo de voz.

- Claro! Sertanejo medieval é o que há! – Enrique respondeu com bom humor, sorrindo de orelha a orelha como o gato cheshire – Podíamos depois até aproveitar o trabalho para mandar uma proposta de novela para a Globo. Uma coisa assim, estilo Benedito Ruy Barbosa.

- Antônio Fagundes podia ser Uther. – Luís observou.

- E a gente ressuscitava o Raul Cortez para ser Merlin. Ou então, melhor ainda! Sérgio Reis para Merlin, com o Almir Sater como seu pupilo. Afinal, Merlin era um bardo...

- E Excalibur seria um berrante? – Beatriz perguntou, começando a se divertir.

- Exatamente! – Enrique exclamou – Você está pegando o espírito da coisa!
Rindo baixinho, ela guardou o romance em sua devida estante, passando agora para os volumes de poesia – os favoritos de Arquimedes. O sorriso imediatamente se tornou mais terno e ela apoiou uma mão na barriga – a essa altura, enorme, quase tão grande quanto o resto dela.
Se fosse se comparar a um personagem literário, Arquimedes diria que ele estava mais para Dom Quixote de La Mancha, o cavaleiro da triste figura do que, digamos, D’Artagnan dos três mosqueteiros ou Hamlet, o Príncipe da Dinamarca.

Ele não era nem um herói trágico nem um galante cavaleiro, mas vivia de acordo com certos códigos que, se poderia dizer, eram regras de cavalaria.

Arquimedes estava sempre pronto a salvar uma donzela em apuros.

E era por isso que ele acabara de se meter naquela absoluta enrascada.
Volumes de mitologia grega – ela se lembrava do primo de Sofia tirando aqueles livros para escrever uma carta para Beatriz, embora não tivesse a menor idéia do porquê, exatamente, o rapaz estaria escrevendo cartas para Bia com trechos da Teogonia.

Penélope deu um pequeno suspiro. Ela sentia saudades de Beatriz.

Embaixo daqueles volumes, havia apenas mais um pequeno título de bolso um tanto maltratado. Agora que estava sozinha, ela podia rir da cena, mas no momento em que Júlia simplesmente tacara A Megera Domada na cabeça de André aquela tarde (o que ele teria aprontado dessa vez?), seu senso de bibliotecária quase a fez dar à luz ali mesmo.

E lá ia mais um Shakespeare para a prateleira. Todos em seus devidos lugares, todos em suas estantes.

O carrinho estava vazio.

Com passos cuidadosos – naqueles dias, volta e meia ela se sentia como se estivesse prestes a encalhar como uma baleia na praia – ela voltou para sua mesa. Fotos espalhavam-se por entre os carimbos de devolução e as fichas da biblioteca: um recital de piano de Sofia, Beatriz segurando a torre Eiffel, uma moldura da primeira matéria publicada de Júlia, uma ilustração de Luís. Na gaveta de ‘contrabandos’, como ela costumava chamar, estavam os chocolates que André trouxera, misturado com um romance de banca de capa escandalosa, dados de RPG confiscados, uma bonequinha extremamente parecida com sua jovem protegida.

Penélope nunca chegara a refletir muito sobre a formação daquela família adotiva, apenas aceitando um após o outro, de braços abertos e ouvidos dispostos, divertindo-se com as histórias que eles lhe traziam, as pequenas manias, os amores, as mágoas, as dores.

Quando Beatriz embarcara para seu ano de estudos na França, ela chegara a temer que aquele equilíbrio fosse se quebrar. Afinal, ela até podia não pensar muito nos motivos, mas sabia que, no final das contas, o elo de ligação de todas aquelas pessoas – tão diferentes em seus gostos e preferências – sempre fora a figura espirituosa e sapeca da jovem historiadora.

No final, acabara por acontecer exatamente o contrário. Na ausência de Beatriz, o resto do grupo se tornou surpreendentemente mais unido. Claro que aquilo já estava em curso quando Bia ainda estava no país, mas Sofia e Luís, André e Júlia ainda estavam em estágios nebulosos de relacionamentos.

Agora eles encontravam todo tipo de desculpas para estarem na biblioteca e, às vezes eles a deixavam maluca – exceto por Dani (que passara a ser carregada por Sofia para onde esta ia, quase como se fosse um chaveirinho) e Luís, que se entrincheiravam numa mesa e passavam o tempo todo desenhando.

Por algum motivo incompreensível, André gostava de provocar Davi, o que por sua vez trazia o espírito mais sarcástico de Sofia e protetor de Júlia à tona. As duas se uniam para implicar com André, que não demorava muito começava a juntar munição de bolinhas de papel e quando ela se dava conta, eles tinham transformado uma inteira sessão da biblioteca nas linhas Maginot.

Mais bizarro que isso, só a vez em que Arquimedes viera visitá-la na biblioteca, levara uma bolinha na cabeça e prontamente se juntara à contínua batalha – que por tudo que ela conseguira entender dos discursos desconexos de ambas as partes, não tinha nenhum particular motivo além de acertar o maior número de bolinhas possíveis em seu oponente.

Modelos de maturidade, sem dúvida.

- Você está pronta?

Penélope levantou a cabeça para encontrar Arquimedes parado à porta, observando-a com um sorriso carinhoso. Ela assentiu, terminando de recolher suas coisas e as chaves da biblioteca para então se aproximar dele.

Ela sentiria falta disso. Ou talvez não... sua família adotiva não a deixaria sentir falta disso, certamente e ela já tinha mais babás voluntárias que dias da semana. Além disso, em alguns dias, ela estaria bastante ocupada, acostumando-se ao seu novo trabalho – ao menos até que a licença acabasse.

Todos os livros em seus lugares, cada qual em sua estante. Ela só esperava que a biblioteca continuasse de pé quando estivesse de volta.

- Vamos indo. – ela sorriu, passando o braço pelo do marido.

Arquimedes apenas sorriu.


_______________________

#120: Felidae (epílogo)
---------------------------------------

Ele levantou o nariz no ar, átimos de segundos antes dos primeiros choramingos serem ouvidos. Por alguns instantes ele esperou, sua cauda descrevendo um ‘s’ no ar. Os murmúrios, contudo, continuavam baixos demais para serem ouvidos por seus humanos – àquela altura já completamente exaustos e muito mais capazes de babar que fazer mamadeiras.

Com uma graça e dignidade que poderiam parecer contraditórias considerando seu tamanho, ele pulou de seu nicho no alto de uma torre de livros e se encaminhou para o quarto da criatura.

E lá estava ela, sentada por trás das grades de sua pequena prisão, soluçando baixinho, dolorido, o dedão enfiado no focinho quente e cor de rosa que ele acha muito diferente do de seus humanos – o que talvez explique porque a criatura está sempre com alguma coisa na boca; talvez seja necessário para crescer seus dentes.

Ela já o percebeu a essa altura. Heitor observa a criatura encará-la com estranha fascinação, os soluções esquecidos por esse momento.

Ela cheira a leite... e mais alguma coisa, um cheiro doce, quente, que lhe faz pensar em tardes deitado sobre a barriga de um de seus humanos e afagos e vozes melódicas.

Ela cheira a lar.

Com movimentos lentos e um tanto pesados, ele alcança a mesinha próxima ao berço e de lá, um pulo. Ela dá um gritinho e esconde o rosto redondo entre as mãos. Ele está agora de frente para a criatura.

Os dois se encaram – Heitor, acostumando-se com a proximidade do novo cheiro, do calor que ela irradia, dos olhos enormes que o observam por trás de mãos rechonchudas. Ela, curiosa mas arredia, ainda um tanto assustada.

Miau’ – ele ronrona baixinho, à guisa de cumprimento.

Tentativamente, ela abaixa as mãos e estende um braço em sua direção. Heitor percebe então que está diante de um contato em terceiro grau com o novo humano. Seu novo humano, uma vez que sendo filhote dos mais velhos, ele está também sob sua responsabilidade.

Mantendo-se inerte, ele permite que ela toque o alto de sua cabeça – cuidadosa, carinhosa, dedos roliços afundando-se em seu pêlo com surpreendente delicadeza. Estabelecido o primeiro contato, ele ronrona mais uma vez.

Ela ri – uma risada cristalina, suave e Heitor se vê suavizando em torno dela, deitando-se e deixando ser acariciado enquanto a pequena praticamente se enrola em torno de seu corpo.

Pela manhã, haverá surpresa e algum receio. Mas não há de demorar até que Penélope e Arquimedes descubram que Heitor está razoavelmente disposto a fazer e suportar tudo o que a pequena Cassandra decida incluí-lo.

Incluindo bonecas, chás da tarde e – esse será sempre seu favorito (dele e de Cassandra) – hora de contar histórias antes de dormir.


FIM


(mas será mesmo?...)



A Coruja

10 comentários:

  1. Aaawww... Acho que ouvi algo se quebrando aqui dentro...

    Realmente eu vou morrer de saudades dessa história, do jeito sacana do André, da ingenuidade da Bia, da paciência da Sofia, e até de mim!!! Mas fazer o que, tudo chega ao fim.

    Só quero te parabenizar , Lu, por esses 2 anos de ótimas sextas, sempre com algum pedacinho novo dessa maravilhosa história e desses personagens inesquecíveis!!

    Estou ansiosa pela próxima!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bem, deve demorar um pouco pela próxima... ou não *aquela que tem idéias absurdas quando deveria estar dormindo*

      Excluir
  2. Nem consigo acreditar q acabou...
    Ficou ótimo!!!
    ingrid

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bom que gostou, Ingrid! Continuo de coração partindo por estar me despedindo desses personagens... mas estava chegada a hora... Eles vão deixar saudades!

      Excluir
  3. Ain, acabou... que dó, que dó... =(

    ...será que é pedir muito um exemplar desses em mãos, impresso? =)

    ResponderExcluir
  4. Um final simples e lindíssimo, está de parabéns! Muito obrigada por proporcionar a experiência de acompanhar essa história até o fim sob uma condução tão boa... Tenho que admitir que foi como relembrar um ciclo pessoal, de certa forma - quando estava no ensino médio ainda, eu virei melhor amiga da bibliotecária por algum tempo, e depois da filha dela (que foi estudar no meu colégio) e de um grupo de amigos que acabou se tornando uma família, muito como os personagens de Na Sua Estante n_n O tempo passou e as coisas estão longe de serem as mesmas, na verdade, até hoje ainda fica uma tristeza pela maneira como algumas amizades terminaram, mas depois de ler isso aqui acho que estou mais perto de aceitar as lembranças boas ao invés de me concentrar nas partes tristes... Enfim, agradeço e cumprimento você por esse projeto a um nível pessoal, além de como leitora e escritora, pela forma como toda a história acabou me tocando. Vou sentir muitas saudades de mais historinhas desse pessoal... Espero mesmo que você não vá aposentá-los! ;) Até a próxima!

    p.s.: e desculpe pelo atraso... é tudo culpa da universidade, eu juro =.='

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não se preocupe com "atrasos", Rafa. Fico feliz que tenha gostado e emocionada por descobrir o quanto a história tocou os leitores. Tive as mesmas experiências que você e a turma de 'Na sua estante' e pelo menos do meu lado, tento não deixar as amizades cultivadas naquela época morrerem. Essa história não foi apenas um exercício de escrita, mas uma verdadeira homenagem a muitos queridos amigos que fizeram toda a diferença para mim nos tempos de colégio.

      Excluir