24 de fevereiro de 2012

Na sua estante: para ver a banda passar





#108: Para Ver a Banda Passar
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Beatriz parou ao lado de Júlia no corredor, segurando a tigela de pipoca vazia.

- É difícil acreditar, não? – a caçula perguntou, enquanto observava o irmão, na cozinha, mexendo alguma coisa numa caçarola – Se não fosse pelo André, eu morreria de fome.

A ruiva deu um meio sorriso de lado.

- Não acho que seja tão ruim. E, em último caso, sempre tem miojo.

Bia fez uma careta, lembrando-se de uma certa cena, não tanto tempo assim atrás...

- É, sempre tem miojo...

Do outro lado da sala, às costas delas, Dani e Sofia conversavam baixinho sobre alguma coisa – talvez comentando o filme que tinham acabado de ver. Não pela primeira vez, Beatriz pensou que talvez devesse ter chamado Davi... e talvez Luís... ou perguntado a André se ele não queria chamar algum amigo... afinal, passar a semana de carnaval com a casa cheia de estrogênio não era exatamente o passatempo favorito do irmão.

No entanto, ele não saíra nem uma única vez para brincar o carnaval aquele ano...

- Na verdade, acho mais difícil de acreditar que ele esteja aqui, em casa, na semana de carnaval, em vez de à toa na vida vendo a banda passar. – Júlia continuou.

Ela se sentiu arregalar os olhos, perguntando-se, como, exatamente, a ruiva conseguira ler seus pensamentos. Mas depois balançou a cabeça, espantando tais idéias para outro momento.

Respirando fundo, Beatriz observou as costas do irmão e depois se voltou uma vez mais para Júlia.

- Eu não entendi muito bem o que aconteceu entre vocês, mas em defesa do meu irmão, já se passou bastante tempo e ele cresceu. Ou, pelo menos, eu espero que sim. – ela deu um meio sorriso – Quanto à sua questão... na verdade, não é tão surpreendente assim que ele esteja em casa hoje.

- Não? – Júlia franziu a testa – Na época do colégio, ele sempre fez parte da turma da bagunça e não perdia uma farra por nada.

- É, bem, exatamente um ano atrás, André teve o coração partido. – Bia baixou mais a voz – E, pouco depois, a desgraçada ainda sapateou em cima dos pedaços. Não é uma história bonita e não é minha parte contá-la... – ela respirou fundo – Mas, se nada mais, prova que ele tem um coração.

- Eu nunca disse que seu irmão não tinha coração. – Júlia observou, cruzando os braços.

- Bem, você certamente o acha um babaca. E eu concordo contigo em grande parte do tempo. Mas as pessoas mudam.

- Você está tentando vender o peixe do seu irmão para mim ou é só impressão minha? – ela piscou os olhos – Isso tem alguma coisa a ver com aquela loira no supermercado outro dia?

- Talvez sim, talvez não... – Bia riu sem muito humor – Só... não seja tão dura com ele, ok?

- Eu vou pensar no seu caso...



A Coruja


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