17 de fevereiro de 2012

Na sua estante: isso não estava na lista de compras





#107: Isso Não Estava Na Lista de Compras...
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- Bia, por que é que tem oito sacos de pipoca, três latas de leite condensado, quatro caixas de chocolate e “guloseimas a gosto” escritos na lista de compras dessa semana? – André perguntou enquanto parava o carrinho, lendo silenciosamente o papel em sua mão – Não, pensando bem, esquece que eu perguntei. O que eu realmente quero saber é porque eu ainda deixo você fazer essas listas de compras.

Beatriz apenas sorriu brilhantemente.

- Porque você me ama. E porque tem preguiça de xeretar a despensa para ver o que está faltando, claro. – ela completou – E as guloseimas são item de primeira necessidade da lista.

- Primeira necessidade? – André retrucou, incrédulo.

- É carnaval, André. Isso significa que chegou aquela época do ano em que eu entro em retiro espiritual junto com a Sofia e passo o resto da semana sem emergir da sala da TV. E agora nós temos a Dani para se juntar a nós.

- Sim, essa é aquela época do ano em que você faz o clube da luluzinha e eu sirvo de seu cozinheiro particular, é isso que você quer dizer?

- Eu não estou pedindo que você cozinhe nada, mas se você se oferece, quem sou eu para reclamar? – Bia riu – O acúmulo de gordices da lista é justamente para não precisar cozinhar nada.

Ele piscou os olhos.

- Você está planejando passar uma semana se alimentando só de leite condensado e pipoca?

- Pense nisso como uma experiência científica.

- Pro inferno com experiência científica. Quem vai ter que levar vocês para emergência depois sou eu. – ele resmungou – E claro que quando a mãe ouvir, para quem é que vai sobrar?

- Tudo bem. – Bia deu de ombros – Então você pode cozinhar para a gente.

O rapaz suspirou, balançando a cabeça. Seu momento de autocomiseração, contudo, foi interrompido por uma risada alta e divertida. André fechou os olhos, sentindo um calafrio na espinha. Ele conhecia aquela risada.

- Eu estou impressionada, Beatriz. Você conseguiu fazer seu irmão se voluntariar a fazer alguma coisa de útil!

- Júlia! – Bia abriu ainda mais o sorriso, avançando num pulo para então parar e, com um pouco mais de cuidado, abraçar a moça.

Por que, Senhor, por quê? Por que ele? Por que ela tinha de estar no supermercado? Por que não estava em casa, descansando o pé ou alguma coisa do tipo?

Reabrindo os olhos, ele observou a figura de Júlia. Ela não estava mais com muletas e tirara o gesso, mas ainda usava uma botinha no pé que tinha trincado e, muito provavelmente, passaria ainda mais um tempo com ela e a fisioterapia. Tivera sorte de não cruzar mais com ela desde o acidente na festa da irmã – mas não tanta sorte em escapar do interrogatório de Beatriz, que o rondara e arrodeara até fazê-lo confessar toda a história.

Depois disso, ela tinha conseguido (sabe Deus como) o telefone de Júlia e marcado de ir ao cinema com ela. E as duas tinham ficado amiguinhas e, com certeza, passavam boa parte do tempo falando mal dele pelas costas.

- Nós temos coisas melhores a fazer do que ficar falando mal de você pelas costas, André. – Júlia observou.

Ele arregalou os olhos.

- Como você...

- Eu deduzi. – ela deu um meio sorriso – Não é muito difícil, considerando que você passa a maior parte do tempo pensando em você mesmo. Além disso, porque falaríamos mal de você pelas costas quando o podemos fazer na sua frente?

Bia balançou a cabeça em negativa, embora ainda sorrisse.

- Agora, vocês dois, se comportem. Nada de começar a III Guerra Mundial aqui. – ela se voltou para Júlia mais uma vez – O que está fazendo por essas bandas?

- Eu vim com meu pai, ele veio comprar bebida. Os amigos dele estão indo em peso lá pra casa. Vai ter churrasco, depois eles vão sair num bloco de rua do qual fazem parte desde que eram meninotes. Era vir com ele ou ter de aturar meus tios cantando marchinhas de carnaval enquanto preparam a carne. – ela deu de ombros – Ao contrário do resto da família, não sou uma grande fã de carnaval.

Beatriz começou a dar pulinhos no mesmo lugar. André suspirou resignado já sabendo o que viria a seguir, desviando o olhar para não ter de encarar de frente sua perdição. E foi quando ele a viu.

Mariana.

Foi como se o som tivesse sido sugado para o vácuo, as pessoas ao seu redor se tornando borrões. Por um instante, ele se sentiu tonto, quase sem ar. O carrinho de compras em que estava apoiado oscilou ligeiramente para o lado.

Uma mão fria segurou seu pulso bem a tempo de impedi-lo de escorregar, fazendo com que o resto do mundo entrasse em foco de novo. André se viu encarando a expressão neutra de Júlia, embora os olhos escuros da moça traíssem uma certa surpresa.

A voz de Beatriz ainda estava disparada ao seu redor quando, de repente, ela se calou, quase que imediatamente se acercando dele, como se estivesse tentando escondê-lo. Ah... ela vira também.

- Vamos embora. – Beatriz girou nos calcanhares para encarar o irmão – Mais tarde a gente...

- Não.

- André, ... – ela começou de novo.

- Não, Beatriz.

Júlia encarava um irmão e outro, ainda segurando o braço de André, percebendo não apenas o debate silencioso dos dois como também o olhar surpreso de uma moça bastante pálida não muito longe deles – e embora não pudesse entender com clareza o que estava acontecendo, de alguma forma ela sabia que o que quer que aquela cena significasse, a moça pálida também fazia parte da trama.

O dilema acabou sendo resolvido pela desconhecida, que após alguns instantes de hesitação, girou nos calcanhares e se encaminhou para a saída da loja. André relaxou visivelmente quando ela desapareceu de vista e só então Júlia percebeu que ainda estava segurando-o.

Deixando o braço cair de volta junto ao corpo, ela deu um passo para trás. Beatriz respirava pesado, como quem tivesse corrido uma maratona, enquanto André parecia... bem, para dizer a verdade, André parecia aliviado.

- Você tá legal? – Júlia perguntou finalmente.

Ele balançou a cabeça.

- Não foi nada. – desviando o olhar, o rapaz voltou a encarar a lista de compras feita pela irmã, que virara uma bolinha de papel amassada nos pouco mais de cinco minutos em que a cena se desenrolara – Então... você tem alguma preferência sobre como prefere sua macarronada?

A ruiva estreitou os olhos. Mas era visível que os dois irmãos ainda estavam um tanto agitados com o que quer que acabara de acontecer e ela decidiu, ao menos dessa vez, guardar os ataques verbais de sempre.

- Ao molho branco. – ela retrucou – Bastante molho.



A Coruja


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Um comentário:

  1. Sinto que um clímax está se aproximando... Mas isso já aconteceu antes enquanto lia Na Sua Estante :p Só passei para dar sinal de vida, e de que continuo acompanhando o blog (ainda que silenciosamente), e essa série genial que você escreve ;) Espero que tenha tido um bom carnaval, eu passei o meu aí em Recife (e foi ótimo *-*) e tenho a sensação de que nos desencontramos de novo... xD Vou lá terminar de me atualizar com o blog (estou perdendo semanas de postagens por conta de viagens, horas de sono desreguladas e excesso de trabalho de férias -.-') Até a próxima \o

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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