8 de abril de 2011

Na sua estante: so this is love





#058: So This is Love
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Não houve fogos de artifício, nem orquestra ou violinos, tampouco luzes brilhantes piscando como estrelas. Não... em vez disso, havia um carrinho de supermercado, uma lista de compras e uma discussão sobre qual era a melhor marca de lasanha de microondas.

O problema é que você passa a vida inteira lendo e assistindo romances em que o casal de protagonistas tem de passar por mil e uma situações, declarações tresloucadas e grandes gestos... e aí passa o resto dessa vida esperando que esses grandes gestos aconteçam na realidade.

É o clímax de toda história: o momento da realização... a superação de todos os obstáculos... para então partirem para o 'felizes para sempre'.

A verdade é que... a verdade é que na vida real, as coisas são mais simples. Tão mais simples, na verdade, que você mal percebe acontecer. Na verdade, você nem espera - um dia apenas acorda e percebe que aquele sentimento esteve ali, o tempo inteiro...

A verdade é que você passa a vida esperando por uma paixão fulminante... que muitas vezes não passa de uma atração vazia, passageira... e deixa passar a pessoa que podia ser o companheiro da sua vida - alguém que te compreende, que sai do seu caminho quando você está na TPM (e deixa caixas de chocolate na cozinha antes de desaparecer), que ri das suas piadas sem graça (exatamente por elas serem tão sem graça que só rindo mesmo...) que se dá bem com seu gato.

Esse é o problema da ficção - ela te alimenta com tantas ilusões que você enxerga apenas o protagonista 'bad boy' e deixa passar no fundo da cena o cara decente que pode te fazer realmente feliz.

- E então? Qual você acha que sua mãe vai acreditar que é caseira? - Arquimedes perguntou.

- Como se ela fosse acreditar realmente que fui eu quem fiz o jantar. - Penélope respondeu, balançando a cabeça - Mamãe sabe a filha que tem. Eu só cozinho quando tenho vontade e, definitivamente, não vou arranjar vontade só porque meus pais decidiram passar o fim de semana na cidade. Mesmo porque, no momento em que minha mãe entrar em casa, ela tomará as rédeas da cozinha. Por que eu deveria me preocupar?

Talvez fosse um pouco anticlimático descobrir amor - amor mesmo, tranqüilo, sereno, carinhoso em sua quietude - no meio de um supermercado. Era suposto haver fogos de artifício, fontes de água murmurando e violinos ao fundo. Não uma voz impessoal anunciando as últimas ofertas ou cheiro de camarão.

Penélope sorriu.

- Coloque qualquer uma das duas no carrinho. Vamos para a seção de bebidas. Vinho é simplesmente necessário quando minha mãe vem visitar.

- Você quem sabe. - Arquimedes respondeu, selecionando uma das lasanhas antes de começar a puxar o carrinho, ao mesmo tempo em que deslizava uma mão em torno da dela.

Mas, realmente, quem se importa com o que era suposto acontecer, contanto que acontecesse?

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A Coruja


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Um comentário:

  1. Que tudo esse capítulo... tão verdadeiro, tão visceral... eu acho esses dois um tudo!
    estrelinhas coloridas...

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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