24 de maio de 2010

Revista Digital a FANTÁSTICA : falando da ficção nacional


Estava eu às voltas com organizar o novissimo projeto em que me meti - porque, é claro, eu nunca acho que o que estou fazendo é o suficiente e sempre me meto em mais alguma enrascada - quando vi um um recado misterioso que tinham deixado no meu mural do skoob, cheio de links, falando sobre uma revista de literatura fantástica.

Eu acho que todo mundo aqui já deve saber que sou uma absoluta fã de ficção fantástica - aliás, esse é, justamente, meu tema favorito - então, curiosa como sou, é claro, óbvio e ululante que fui descobrir do que se tratava.

E tive uma grata surpresa.


Um grupo de escritores brasileiros de fantasia decidiu colocar as mãos na massa e criar uma revista de literatura voltada para a ficção fantástica nacional, que - apesar do que possam dizer as más línguas - existe, sim e é bastante prolífica. Essa revista é a FANTÁSTICA, podendo ser baixada gratuitamente ou lida direto no site.

Passei meu horário de almoço hoje bebendo chá mate e devorando a revista, que vem com uma excelente matéria acerca da falta de brasileiros nas vitrines e nas listas de mais vendidos da ficção, entrevistas e resenhas de uma pá de livros que me chamou a atenção.

Só para jogar lenha na fogueira e dar meus dois cents de contribuição à discussão... Eu acho que existe um quarto motivo - além dos já listados na matéria de capa da revista - para a literatura fantástica brasileira ainda não ter decolado.

Na minha experiência de "pseudo-historiadora-metida-a-escritora-amante-de-mitologia" as grandes histórias de ficção fantástica estão firmadas num sistema de identidade cultural - algo que, no Brasil, é uma coisa meio assim caldeirão do Dagda.

Explico... os autores mais lembrados em termos de ficção fantástica - Tolkien, C. S. Lewis, Pullman, Gaiman (para ficar em apenas alguns dos meus exemplos favoritos) - criaram suas histórias com base numa mitologia que faz parte de suas identidades culturais. A mitologia serviu como uma base primordial para a criação de suas histórias.

O Brasil não tem propriamente uma mitologia. Vejam bem, eu não estou desdenhando da cultura indígena nativa - que, nestes termos, formaria nossa mitologia. A questão é que não existe um estudo dessa cultura - e tampouco de sua mistura com as crenças africanas trazidas pelos escravos e à religião católica dos portugueses. Ou, se existe, ela está restrita aos centros acadêmicos.

Eu, sinceramente, me sinto envergonhada toda vez que penso com meus botões que tenho livros e livros de mitologia em casa, mas nenhum deles tratando da mitologia brasileira.

O que me faz pensar que talvez seja hora de ir atrás de Câmara Cascudo, um projeto que tenho há tempos, mas que, por um motivo ou por outro, sempre é preterido por outros livros mais novos e "brilhantes" - aliás, um dos argumentos colocados na matéria que estou citando.

Resumo da ópera... considerando primeiro que a ficção fantástica (e digo fantástica, não científica, só para deixar claro) bebe na mitologia, no folclore, na identidade cultural de um povo; e considerando também que não temos uma mitologia estabelecida - ou melhor, que não tenhamos conhecimento dessa mitologia (porque do pouco que eu entendo de folclore brasileiro, nós somos um manancial enorme e sub-aproveitado), nossa literatura fantástica acaba indo emprestar da identidade cultural européia as ferramentas para sua criação.

Provavelmente desenvolverei o argumento em algum ponto do futuro, quando eu for cuidar de escrever meu surperprojeto sobre a história e desenvolvimento da ficção fantástica - antes e depois de Tolkien. E, sim, eu vou dedicar uma inteira parte desse projeto à ficção fantástica brasileira.

Eu realmente preciso parar de me enfiar nesses projetos assim meio pretensiosos que volta e meia me proponho e que significam mais sarna para me coçar... Mas a verdade é que não sei dizer não, não sei ignorar quando me lançam um desafio e, de modo geral, sou maníaca e teimosa.

Combinação perigosa...

Ok, antes que eu desembeste a tagarelar e considerando que tem uma lista pregada junto do laptop de "coisas a fazer até o final da semana" que não pára de crescer, deixa eu voltar ao trabalho. Quanto a vocês... Vão ler a FANTÁSTICA. E depois, vamos trocar figurinhas!


A Coruja


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4 comentários:

  1. Começando com um pequeno "semi-off-topic": Acho que já mencionei isso, mas eu mesmo tenho várias histórias no "freezer", que pretendo escrever e a maior delas, que provavelmente terminará se tornando um livro volumoso, é baseada justamente em uma mitologia: a nórdica.

    Os principais fatores de eu escolher justamente a mitologia nórdica para basear minha história está no fato de ser uma mitologia extremamente elaborada, com várias histórias fantásticas, e ser desconhecida entre boa parte do público brasileiro.

    Ainda não li a revista que vc linkou (mas pretendo fazê-lo logo) mas pessoalmente creio que o fato de que a literatura de fantasia brasileira se baseia principalmente na européia, simplesmente por que estas são as histórias que mais facilmente temos acesso. Eu mesmo tive meu primeiro contato com o fantástico/sobrenatural/mitologia/fantasia/qualquer-diabo-que-o-valha com Caverna do Dragão, baseado em D&D, que foi baseado (ou copiado, tanto faz) em Tolkien. Creio que a maior parte de nós começou de alguma maneira parecida.

    As histórias do folclore brasileiro que conheço, eu adoro (e algumas inclusive até me arrepiam até hoje). Infelizmente não sei se as usarei em minhas histórias futuras por 2 problemas:
    1- Falta de fonte de estudos confiável. Não consigo encontrar facilmente histórias do nosso folclore, lamentavelmente. =/
    2- Questão de ambientação. Eu, pessoalmente, tenho uma coisa com o cenário de uma história, que o cenário pode acabar fazendo que a história perca a credibilidade, no sentido que o leitor não acredite que aquilo se passe naquele lugar. No Brasil, duas das cidades que me passam a sensação de tornam uma história crível são Rio e São Paulo, cidades que não conheço (ainda). Fortaleza já não me passa essa mesma sensação, infelizmente, tanto é que uso Berlim como cenário para as minhas histórias, que é ao mesmo tempo uma cidade que conheço e que me dá a sensação de credibilidade para uma história.

    E vou parar por aqui antes que meu comentário fique maior que o post. xD

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  2. Obrigado pelo apoio e ficamos contentes que tenha gostado da revista. Realmente existe muitos dedicados à literatura no Brasil. O bacana é que temos recebido muitos emails de leitores que ficaram supressos com a quantidade de obras no Brasil, ou seja, missão cumprida da revista...

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  3. Já pensei em criar uma história baseada no folclore nacional junto com minha irmã, mas antes mesmo de começarmos acabamos discutindo como seria e acabamos desistindo.
    Pelo que vimos nossa história acabaria tendendo pro lado dos lobisomens (que não são exatamente brasileiros não é?)
    Não sei se foi pura besteira ou não, mas não conseguimos achar nenhum lugar pras outras lendas...
    Enfim, não sei o que os outros pensam, mas adoraria ler alguma história desse tipo escrita por alguma pessoa bem talentosa como a dona deste maravilhoso blog *tentando atiçar o ego e a vontade de escrever na Lulu*
    Quero minha internet de volta logo, ainda tenho que ler o novo capítulo dO's Quatro Ases.

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  4. Dei uma folheada rápida pela revista (vou ler o resto hoje), o único dos livros que eu li dos autores pioneiros foi "O Livro dos Contos Enfeitiçados" da Martha Argel, adorei, mas ele sumiu quando inventei de emprestá-lo para uma vizinha minha ¬¬'.
    Quanto à revista, mostrei ela hoje para a minha professora história e para algumas garotas do meu grupo de estudos. Elas gostaram dela e agora querem que eu descubra como fazer uma revista digital para podermos postar matérias sobre nossas saídas técnicas e as palestras que vemos sempre, então acho que entendi o q vc disse com "arranjar sarna para se coçar".
    See ya o/

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