30 de abril de 2010

Movimento estudantil

Estava eu fuçando em artigos antigos perdidos em disquetes empoeirados quando dei de cara com esse texto, que escrevi junto com Felipe César, grande colega dos tempos de faculdade, para a revista experimental da nossa turma de jornalismo, a Sem Lapso no Lápis.

Republico-o aqui, uma vez que, passados cinco longos anos, a idéia dele continua atual (exceto, claro, pelas datas do Congresso da UEP e da UNE...) a julgar pelo que ouço de amigos que ainda estão na faculdade. Entre a História e a atualidade, muita coisa mudou no Movimento Estudantil...



Estudantes carregam caixão com o corpo de Edson Luís Lima Souto, morto em confronto com a polícia militar em 28 de março de 1968, no Rio de Janeiro.
foto: Arquivo Nacional / Correio da Manhã http://www.mme.org.br/

Era noite do dia 27 de junho de 1968. Na rua do Príncipe, soldados da Polícia Militar cercavam a Universidade Católica de Pernambuco, onde centenas de estudantes esperavam, após desfilarem pelas ruas do Recife, protestando contra a política educacional do governo Costa e Silva. Ambos os lados estavam dispostos a lutar, e só não houve confronto naquela noite porque Dom Hélder Câmara, à época arcebispo de Olinda e Recife, negociou com o governo o fim do cerco à universidade e a libertação de nove alunos presos durante a passeata.

Ao longo do ano, mais manifestações vieram somar-se àquela. Em outubro, na cidade de Ibiúna - SP, haveria o XXX Congresso da UNE, que elegeria um novo presidente para a instituição. Não houve. O congresso - clandestino, visto que o órgão tornara-se ilegal em 66 e só sairia da clandestinidade sete anos depois - foi descoberto pela ditadura. 920 estudantes foram presos, entre eles Luís Travassos (presidente da UNE), Vladimir Palmeira (líder da "Passeata dos Cem Mil" que ocorrera no Rio de Janeiro em junho em protesto contra o governo), o atual ministro da casa civil, José Dirceu (um dos candidatos à presidência da UNE), e os jornalistas Ricardo Noblat e Franklin Martins - esse último envolvido no seqüestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick em 1969.

Por fim, em dezembro, Costa e Silva assinou o Ato Institucional nº 5. A Ditadura escancarava sua vontade de permanecer, esquecendo a promessa que fizera: devolver o poder aos civis. Era o começo de uma era de perseguições, assim como o fim de muitas das liberdades constitucionais – como a de expressão.

O Congresso de Ibiúna e o cerco à Católica de Pernambuco são alguns dos muitos episódios que marcaram a história do movimento estudantil brasileiro. Mas, mesmo antes da UNE ser criada, em 1937, os estudantes já se encontravam entre os abolicionistas, os inconfidentes e em diversas outras manifestações de cunho político e social.

É, porém, com o advento da ditadura, que surgem os maiores exemplos da capacidade de indignação da juventude. Deixando o conforto e a passividade teórica das salas de aula, os estudantes se manifestaram contra as tiranias do Estado Novo e do regime de 64, além de ajudar a depor o presidente Collor em 1992, em uma das mais famosas exibições de civilidade de nosso país - os caras pintadas.

Nesse processo, muitos estudantes foram presos, torturados e mortos. Até hoje, há uma enorme lista de desaparecidos. Esse é o lado negativo. O saldo positivo dessa luta é que as grandes lideranças da época agora estão ou já passaram pelas instituições governamentais de uma democracia que ajudaram a construir.

Infelizmente, o fato de pessoas conhecidas por suas ideologias e grandes sonhos estarem no poder não significa que muita coisa mudou. O Brasil é uma democracia - não há dúvidas quanto a isso. Mas a corrupção, a burocracia e a impunidade continuam. E os grandes sonhadores de ontem correm o risco de cometerem os mesmos erros daqueles que ajudaram a combater.

O movimento estudantil hoje enfrenta uma crise política e ideológica. O Brasil tem finalmente um líder de esquerda - um líder que o ME ajudou a colocar no poder – mas não sabe como lidar com os limites de uma democracia globalizada. Apóia Lula - mas é contra a política neoliberal que viceja nos corredores de Brasília.

Além disso, muitos estudantes já não acreditam nos princípios sociais do movimento; estão descontentes com a forma como os diretórios acadêmicos – que deviam representá-los – buscam objetivos diversos dos seus.

Diz Felippe (18), estudante do segundo período de Direito na UFPE: "Eu não sou contra o movimento estudantil; sou contra a maneira como ele é feito através dos DA’s, de forma inadequada, servindo a interesses próprios. Em vez de encararem os problemas da faculdade, eles preferem se centrar em coisas impossíveis, que não têm nada a ver com os estudantes".

O que ele e muitos outros estudantes criticam é o fato de que, em vez de se preocuparem com a renovação das bibliotecas, a inserção dos estudantes no mercado de trabalho e outros problemas estruturais da universidade brasileira, os herdeiros do movimento estudantil que se rebelou contra Médici e companhia se preocupam com políticas inatingíveis. E não é só isso. "Preste atenção na propaganda política em época de eleição. Muita gente se promove dizendo que foi presidente de DCE, que participou do movimento. Usam isso como trampolim para a vida política, para serem eleitos como vereadores, deputados, senadores...".

Essa opinião ainda é minoria no corpo estudantil. Ao ingressar na faculdade, muitos estudantes são logo seduzidos pelo caráter histórico do movimento. "Ainda há muito pelo que lutar no Brasil. E o movimento estudantil é uma porta para isso. Eu participo do Contestação (grupo político da Faculdade de Direito do Recife) como cidadã, para lutar por aquilo que eu acredito", diz Caroline (19).

Afirma ainda o ex-vice-presidente da UNE, Roberto Amaral: "A história do movimento estudantil está inserida dentro do contexto nacional, na história do país, portanto, quando falamos em seu futuro, estamos falando do futuro da sociedade brasileira."

Mas mesmo os militantes do movimento estudantil reconhecem que sua principal entidade – a UNE – já não tem o mesmo brilho do passado. Alguns grupos atuantes no cenário político do ME reclamam do desmantelamento das organizações estaduais e municipais, assim como do distanciamento da União Nacional dos Estudantes daqueles a quem ela deveria representar.

Em Pernambuco, o cenário é ainda mais preocupante. A União dos Estudantes de Pernambuco, UEP, é uma entidade fantasma, que atua apenas como órgão expedidor de carteiras de estudante, recebendo os rendimentos decorrentes da confecção das mesmas, sem nenhuma prestação de contas e deixando de lado sua função de ponte entre o movimento estudantil pernambucano e o resto do país.

A fim de sanar essas deficiências, está marcado para os dias 20, 21 e 22 de maio um congresso de reconstrução da UEP, que conta com o apoio de todos os Diretórios Centrais do estado. Além disso, de 29 de junho a 03 de julho, em Goiânia, será realizado o 49º Congresso da Une, que elegerá a nova diretoria para o biênio 2005-2007, além de apontar os próximos rumos da instituição.

Resta esperar que, nesses próximos encontros que decidirão o futuro do ME – um dos mais importantes movimentos sociais de nosso país – a transparência, a independência e o respeito prevaleçam, e que os estudantes de hoje saibam honrar a herança que receberam de tantos outros que lutaram por seus ideais de liberdade, educação e justiça social.



A Coruja


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