10 de fevereiro de 2010

Batismo de fogo


Vou interromper rapidamente hoje a programação especial dessa semana, para escrever sobre algo menos alegre que chocolates, flores, cartões, poesias e degolamentos de mártires da Igraja Católica.

Diz que quando você passa por um acontecimento traumatizante, você não deve guardar ele para si, sob pena de começar a sublimar seus sentimentos e blá, blá, blá... Eu não acredito muito em Freud com todo aquele papo de tudo o que você faz, pensa e respira é um desejo sexual reprimido, mas, por via das dúvidas, eu prefiro escrever isso hoje e depois esquecer o que aconteceu e continuar em my merry, merry way.


Como em todos os dias, saí do escritório por volta de duas horas e, como minha usual carona não ia voltar para casa hoje, segui para a parada, peguei meu ônibus de sempre e me preparei para o curto trajeto - geralmente levo uns quinze a vinte minutos para chegar, a depender do trânsito.

Foi no Pina que eles subiram. À primeira vista, apenas mais dois passageiros, até que tiraram as armas e mandaram passar relógio, celular, carteira. Como hoje era meu dia de sorte e eu tinha escolhido sentar na cadeira bem da frente - como sempre faço, aliás, para poder ir olhando o caminho e não ficar tonta - um dos dois rapazes veio ficar exatamente do meu lado, apontando uma .38 para minha cabeça.

Ele tremia.

Eu não sei exatamente como foi que consegui manter a calma enquanto colocava tudo na mão dele, completando ainda com um "desculpe, isso é tudo que eu tenho".

Sim, eu pedi desculpas ao assaltante porque eu não tinha mais que ele pudesse roubar.

Mais dois quarteirões com aquela arma na cabeça e finalmente os dois saíram, na altura do Clinical Center, onde o motorista estacionou para poderem ligar para a empresa e a polícia. A essa altura, minha vista já começava a escurecer, mesmo porque, eu não tinha nem almoçado ainda.

Sorte a minha, tenho um tio cardiologista que trabalha no Clinical. Assim, desci do ônibus feito um saco de batatas, esfregando as mãos para tentar reaver a sensbilidade delas, até finalmente chegar no consultório dele, quando, só então, finalmente, desabei a chorar.

Eu nunca tinha sido assaltada até hoje, nunca tinham olhado para o meu lado nem como cara feia. Ainda estou surpresa de não ter entrado numa crise histérica, do jeito que minhas mãos tremiam... mas depois de chorar tudo o que podia, eu atualmente pedi a tio Chico que me levasse para ver Carol, que, de alguma forma que não sei explicar, fez com que eu sentisse que era meu aniversário.

Já vi e ouvi coisas muito piores do que aconteceu hoje - ao final das contas, eu trabalhei numa vara do júri e na promotoria do Estado. Mas ouvir histórias e ver o machado do crime nem de longe se equipara a vivenciar uma situação em que você percebe que o cara armado está drogado, que ele não tem nada a perder e que você é o alvo mais próximo, caso ele decida soltar fogos de artifício.

Vocês não precisam comentar esse post, uma vez que só o escrevi para usá-lo como tampa de panela de pressão. Só o que eu precisava mesmo era desabafar, contar a história de modo que ela se torne apenas uma de minhas histórias. Uma vez posta para fora, ela não terá mais como me assombrar.

Amanhã voltamos à programação normal com Shakespeare. Até lá, cuidem-se.


A Coruja


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Um comentário:

  1. Putz, Lulu, que situação!...

    Também já fui assaltada, só que o indivíduo que me abordou não estava armado (mas não devia estar sozinho, uns dois ou três deviam estar de botuca caso fosse necessário. Parecia malandro de gangue).

    Ele chegou ao meu lado, segurou minha bolsa e falou: Me dá a bolsa, não grita e não se mexe. Só que eu, muito doida - até hoje não sei explicar o que me deu -, segurei a bolsa de volta e exclamei: Mas nem pensar!

    Resultado: ficamos num patético cabo de guerra com a bolsa, só que ele levou a melhor, pois a alça arrebentou e ficou na minha mão. Fiquei até sem minha chave, tive que pedir dinheiro emprestado para pagar um chaveiro que arrombasse minha própria porta para eu poder entrar em casa.

    Até hoje, quando me lembro da cena, lamento não saber um "itsu" ou um "ô" qualquer e não ter podido espalhar todos os dentes daquele infeliz pelo chão.

    E foi muito barulho por nada, pq o babaca só ficou com meu celular, vinte reais e um batom. Nem valia a pena ter me abordado.

    Detalhe: eu retornava de uma partida de futebol e estava cercada por um porrilhão de pessoas. Ninguém se manifestou para me ajudar. Ok, nem devo mesmo reclamar, ninguém está nesta vida para brincar de super-herói...

    Eu tive mais sorte que você, não encarei nenhum 38... coisa mais apavorante.

    Lulu, você precisa tirar carteira de motorista e arrumar sua própria condução. É mais seguro para você, não acha?

    Beijocas, e que Deus continue te guardando, apesar do susto...

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