9 de janeiro de 2010

Para assistir: Sherlock Holmes



Consegui ontem sair um pouco mais cedo do trabalho - uma vez que já tínhamos dado conta de todos os prazos do mês, que era meu último dia de férias da pós e que eu não tinha levado almoço para o escritório.

O que eu poderia fazer com essa repentina tarde de liberdade? Poderia ter ido almoçar em casa e ter passado a tarde lendo ou escrevendo... mas aí lembrei que naquele dia estava estreando o novo filme de Sherlock Holmes.


Esbaforida, saí correndo para pegar ônibus, depois, correndo para chegar no shopping, depois correndo para arranjar meu almoço - a sessão era de uma e quinze (primeira sessão); uma e cinco, eu estava comprando o ingresso, uma e dez eu estava na fila do McDonald's recebendo meu cheddar (eu sou viciada, confesso... quando invento de comer sanduíche, tem de ser de cheddar...) e exatamente uma e treze eu estava tentando aspirar (não comer) minhas batatinhas, porque não queria ficar com o saco no colo fazendo barulho.

E então, começou o filme.

Eu confesso que, quando vi o trailer pela primeira vez, fiquei com um pé atrás. Tive uma fase em que só lia livros policiais (e quando digo , é mesmo), e devorei quase tudo entre Agatha Christie, Conan Doyle - entre outros autores menos conhecidos do gênero de detetive. Sendo assim, eu tinha uma figura muito acabada de Mr. Holmes; alguém que usava sobretudo a cabeça, um tanto letárgico quando não às voltas com seus casos, um cara genial, mas circunspecto, absolutamente fleumático.

A idéia de um Holmes que usava os punhos não casava muito bem com a imagem que eu tinha na cabeça. E, para gastar dinheiro e ver uma adaptação para a qual eu torceria o nariz, melhor comprar outro livro.

Mas aí, li uma crítica que focava especialmente sobre Watson e sobre o relacionamento dele com Holmes e que explicava como Holmes aplicava à luta os mesmos princípios que aplicava às suas deduções. Pensei então com meus botões - ok, vou assistir, e resolver por mim mesma se gosto de Sherlock Holmes ninja.

Não vou contar para vocês a história do filme, porque agora torço para que o assistam por si mesmos. Mas eu simplesmente amei a versão Holmes de Robert Downey Jr., bem como o Watson de Jude Law - embora esse Watson atlético também não se parecesse com o Watson meio gordinho que eu tinha na cabeça.

Porque cargas d'água eu achava que Watson era uma figura meio Sancho Pança para o Quixote de Holmes? Creio que essa imagem entrou na minha cabeça (e na de todo mundo para quem perguntei) por causa dos filmes mais antigos; porque fazendo um grande esforço de memória, não consigo me lembrar que Doyle tenha descrito Watson como baixinho, gordinho e bigodudo.

Em todo caso... o Holmes do filme continua sendo o homem genial que deduz tudo através dos detalhes, cínico, letárgico quando não está num caso, dado a pensar enquanto dá dissonantes no violino, dedicado a estranhos experimentos que só fazem sentido para ele mesmo... um especialista em química, em física, em biologia - mas apenas nas áreas em que esses temas interferem numa investigação.

Some-se a isso uma abordagem que não endeusa a figura do detetive como paradigma de homem racional, mas, pelo contrário, mostra-o em toda a glória de seus vícios, de sua egolatria. De seu egoísmo.

Mesmo a forma de lutar de Holmes - e, agora que páro para pensar no assunto, é inteiramente crível que ele fosse um pugilista, um especialista também em artes de luta, uma vez que elas poderiam ser necessárias para suas investigações e Holmes nunca deixou de investir em nenhum campo que trouxesse benefícios ao seu trabalho - demonstra a racionalidade sistemática e o cinismo do personagem.

Ele não calcula apenas qual a melhor forma de agir, de acertar seu oponente, de inutilizá-lo; ele também observa qual será o tempo de recuperação físico e psicológico de seus oponentes.

Esse Holmes pode ser bastante imaturo quando as coisas não correm como ele deseja... e, nessa fragilidade é que enxergamos a importância da figura de Watson.

Convido-os a pensar em Watson - caso já tenham lido algum dos livros ou visto versões de filmes mais antigos. Ele sempre me pareceu um personagem subserviente, o contraponto de homem comum para a genialidade de Holmes - e, por isso, Holmes se sobressaía ainda mais em suas histórias.

Holmes nunca o tratou realmente como igual, mas sempre como um espectador de um show de mágicas onde Sherlock era, claro, o grande mago tirando coelhos da cartola, sendo Watson completamente incapaz de acompanhar seus truques, batendo palmas contente, acreditando por completo na magia.

O novo Watson não é assim. Ele é mostrado como um igual e não como alguém inferior a Holmes. Mais que isso, identificamos uma verdadeira amizade entre os dois - algo que nem sempre podemos fazer na versão literária.

Watson também surge como uma espécie de... guardião, uma vez que salva a pele de Holmes mais de uma vez - o bom doutor tem reflexos mais rápidos, é mais forte, mas isso não faz dele os músculos da dupla, porque ele é também inteligente o suficiente para ajudar nas deduções de Holmes.

E isso faz uma diferença tremenda na forma como enxergamos o relacionamento deles. "irmãos, não de sangue, mas por escolha" - são mais ou menos as palavras da cigana que lê a sorte de Watson; palavras estas colocadas na boca da mulher pelo próprio Holmes, que está desesperado por fazer Watson desistir de seu casamento e permanecer em Baker Street.

Temos ainda, é claro, as figuras de Irene Adler e de Lorde Blackwood.

Holmes é um solteiro convicto nos livros. Irene Adler, que aparece em um dos contos do detetive, é uma das poucas mulheres por quem ele sente não atração, mas respeito, ainda que ela esteja do outro lado da lei.

Essa "admiração" demonstrada por ele em Um Escândalo na Boêmia é realçada no filme; e, embora Holmes ainda seja um misógino, ele demonstra gostar de Adler. E ela, por sua vez, também o ama - e esse seria seu ponto fraco, o calcanhar de Aquiles pelo qual Moriarty é capaz de manipulá-la.

Tudo bem que, na história original, Adler gosta de outro... mas essa licença literária do roteiro foi uma excelente escolha, ao menos ao meu ver, especialmente porque, apesar da atração que Holmes sente por ela, ele tenta negar isso de todas as formas. Talvez isso o torne ridículo em alguns pontos, mas o redime em muitos outros, porque o faz mais humano.

É claro, porém, que tudo isso não funcionaria para compor uma boa história se não tivéssemos um bom vilão. E que vilão nós temos, realmente...

Por boa parte do filme, somos levados em alguns pontos a crer que Lorde Blackwood é realmente capaz de magia... e chegamos mesmo a acreditar que Holmes se deixou levar por essa crença supersticiosa que, de repente, contamina Londres em peso (por sinal, a recriação gótica e os jogos de luz e sombra da Londres vitoriana foram de encher os olhos...).

Ao final do filme, eu cheguei à conclusão de que na cena em que ele tem suas "visões", ele não estava tomado pelo fervor religioso, mas pela cocaína (um vício do personagem literário). Não há nenhuma menção expressa a isso, mas explica bem a cena. As pessoas que não leram os livros vão achar que Holmes realmente foi visitado pela sabedoria da Ordem, mas... sério, se lembrem desse detalhe das drogas...

Exatamente pela forma como o filme se conduz em boa parte, sem nos revelar o que Holmes realmente sabe - o que ele só dirá ao final, como, aliás, também é típico de sua contra parte literária - é que ficamos com essa impressão e por isso, ao final...

Bem, se querem saber o que acontece ao final, eu os aconselho a assistir o filme.

Meu último comentário é... estou torcendo por uma continuação. Seria bastante injusto introduzir Moriarty nas sombras e depois nos deixar a ver navios. Enfim, eu me surpreendi com o fato de como gostei do filme.

Quando sair em DVD, será, defintivamente, uma aquisição para minha coleção...



A Coruja


____________________________________

 

8 comentários:

  1. Eu ainda quero esse filme, em DVD. Aqui, nem cinema temos. Isto é o Fim do Mundo, só pode.

    Eu acho que me recordo do Conan Doyle referir a certa altura que o Holmes que ele criou sabia lutar. Não me recordo já é em qual dos livros foi. Addler, claro, sendo a única mulher que ele viu com mais interesse do que meramente uma mulher comum, embora fosse porque ela era, de facto, aquele género de pessoa do outro lado da lei, e bastante esperta. E fora com o esterótipo do Watson gordinho. Doyle mostrava-o muitas vezes inferiore a Holmes, excepto, talvez, na Casa Vazia. E, mesmo assim, Holmes chegaria depois para fazer a maior parte do trabalho.

    Quanto ao ópio... ele também usava cocaína e morfina, numa proporção de partes que também já não recordo. Mero detalhe.

    ResponderExcluir
  2. Ah, estou querendo assistir esse filme *-* Eu também lia muitos livros de romance policial quando era mais nova e a primeira coisa que pensei quando vi o trailer do filme do Sherlock foi, "esse Holmes é pirata", mas as poucas frases trocadas entre ele e o dr. Watson me fisgaram de imediato.

    Não sei se alguém mais chegou a essa conclusão, mas eu pensei de cara em House M.D. E House foi mesmo baseado em Sherlock Holmes :P Ou seja, o Watson me chamou mais para esse filme que o próprio Holmes. Mas saber que essa é uma imagem mais humana do tal detetive deixa o cenário bem mais interessante... Na verdade, ele chega a encher o saco em alguns livros, porque é realmente egocêntrico e egoísta demais. Talvez por isso o Conan Doyle tenha se enchido e parado de escrevê-lo (XD) Aliás, eu pensava que era cocaína e não ópio @_@ ópio não é com o Alan Quarterman, na Liga Extraordinária, não?

    Er... Acho que estou indo meio longe. Empolgação de passar muito tempo sem comentar, eu acho. Vou indo então. Ciao o/

    ResponderExcluir
  3. Pois é, pessoas... Holmes era viciado em ópio, cocaína, tocava violino de forma altamente desafinada às três da manhã, dopava o coitado do cachorro com todo tipo de substância química...

    O cachorro, aliás, é licença poética do filme (hehehe...).

    Mas, venhamos e convenhamos, à época acreditava-se que pastas feitas com restos de múmias em pó eram boas para a pele, então... Então, talvez seja até bastante lógico que Holmes usasse ópio e cocaína para aguçar suas sensibilidades.

    No comments...

    E, Rafa, antes que eu esqueça... eu também acho que Hugh Laurie seria um perfeito Sherlock...

    ResponderExcluir
  4. O filme é realmente excelente e empolgante! Holmes e Watson criados pelos dois atores funcionam mto bem, com um entrosamento até mesmo divertido de observar. Eu li em algum lugar que, na coletiva de lancamento do filme, os dois comentaram que falaram tão bem do entrosamento que agora eles seriam chamados para ser uma dupla de comédia romantica hehehehe
    se nao me engano, nos livros, holmes explica que usa as drogas como uma forma de 'dar uso' ao seu cérebro, quando ele esta entre-casos. e watson fica extremamente... irritado não é bem a palavra, mas... incomodado com isso.
    anyway, ótimo filme, ótimos livros. espero também uma continuação - falaram no brad pitt como o moriaty... desde que não seja apenas mais um rosto bonito, e de um show de interpretação como o jude law, não tem problema =)

    ResponderExcluir
  5. Eu não sou tão chegada no Holmes quanto sou no Poirot, mas tou com vontade de assistir esse filme. Eu só tenho o Hastings como referência de "amigo do detetive", mas acho que o Watson é menos passivo do que ele. Enfim, entre Avatar e Holmes, eu vou ver o detetive primeiro... =D

    ResponderExcluir
  6. Vi o filme HOJE! Muito bom mesmo! Os efeitos, a história, os atores! TUDO! É um filme pra ver de novo com certeza! ^_^

    ResponderExcluir
  7. Interessante como vocês se empolgaram com o detetive... talvez eu deva anotar este fato para ecsrever uma futura série sobre detetives literários...

    ResponderExcluir

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog