7 de janeiro de 2010

O hábito e a indiferença


Como em todos os outros dias, o despertador toca às seis e meia da manhã. Dona Joana acorda. Quinze minutos no banheiro e ela está pronta. Café da manhã. Sete horas: parada de ônibus. Ela poderia ir de carro. Mas depois de dois assaltos, a carteira de motorista e a chave do automóvel foram trancadas no cofre. Quando tivesse dinheiro para colocar um ar-condicionado nele, aó poderia voltar a usá-lo.

No ônibus, nada de novo. O motorista queima tantas paradas, os vendedores de jujuba e outras baboseiras tentam chamar a atenção de sua indiferente freguesia e dois ou três moleques interpelam os passageiros com seu habitual discurso: "Minha mãe está doente; meu pai desempregado; tenho cinco irmãozinhos para cuidar. Não roubo, não fumo, não cheiro, em vez disso estou aqui para pedir uma ajuda...", etc, etc, etc.


Sete e quarenta e cinco, Dona Joana desce do ônibus. Na frente do escritório em que trabalha como secretária, está o velho José. Há quase um ano, aquele nicho de parede serve de morada para o velho. Joana não sabe, mas ele foi abandonado pela família, que já não tinha como cuidar daquele peso morto. Como de hábito, ela joga uma moeda no chapéu do triste vizinho, recebe com passividade o múrmurio de benção e entra no escritório.

Às oito, doutor Mário chega, esbravejando contra o vagabundo que dorme à sua porta. Dona Joana já está acostumada com o mau humor do chefe pela manhã, por isso fica calada. Ela simpatiza com o pobre José, mas doutor Mário é doutor, então, ele deve ter razão.

Os colegas de trabalho chegam, sempre com uma história para contar junto à máquina de café. Quase todos os dias, alguém sofreu um assalto. Resmunga-se um pouco contra o governo e depois volta-se ao trabalho. Tudo acontece mais por hábito que por consciência.

Meio-dia, hora do almoço. Dona Joana sai do escritório e descobre, sem muita surpresa, que seu José foi enxovalhado da porta. Como em todos os outros dias. Dois quarteirões depois, chega ao restaurante em que almoça sempre. Alguns meninos cheirando cola olham cobiçosamente pelos vidros, enquanto dezenas de pessoas almoçam sem se importar com a cola ou a fome deles.

Dez minutos depois, um carro de polícia chega, e as duas crianças são levadas debaixo de tapa. Ninguém no restaurante dá um único pio; são poucos os que levantam os olhos do próprio prato para assistir ao espetáculo; e esses o fazem mais por curiosidade do que por qualquer outro sentimento, e logo abaixam novamente a cabeça, em murmúrios de concordância com o fato de que, afinal, a polícia tomou alguma providência.

Algum tempo depois, Dona Joana deixa o restaurante de volta para o escritório. No caminho, uma moça com um bebê de colo pede um trocado. Depois, uma menina de não mais que dez anos. E, por fim, o velho José, que já voltou ao seu posto.

Seis horas, fim do expediente. Joana joga uma terceira moeda para seu José, solidariedade já mecânica. Ela não espera que ele saia de sua imobilidade no canto escuro em que se aninhou; sai correndo para a parada antes que ele possa abençoá-la, afinal, não pode perder o ônibus ou ficará muito tarde para se estar na rua. Todo o ristual da manhã se repete. Os discursos decorados soam nos ouvidos de Dona Joana e ela já os repete mentalmente.

Tudo se tornou hábito. Nenhuma das cenas do dia realmente faz Joana, ou qualquer outra pessoa, se revoltar. São cenas do cotidiano, normais em sua brutalidade; regularmente nos noticiários sensacionalistas. Tanto que, no dia seguinte, quando abrirem o escritório e doutor Mário for expulsar seu José, o fato de o mendigo estar morto servirá até de alívio. Afinal, ele era um péssimo cartão de visitas.

É tudo tão comum que já nos tornamos insensíveis. É mais fácil apenas reclamar nas horas vagas do governo e jogar algumas moedas à triste figura. É mais fácil fingir-se de cego e fazer de conta que tudo está no lugar. É mais fácil ser fatalista e pensar que Deus quis daquele jeito, não há nada que se possa fazer.

É mais fácil se resignar... Cruzar os braços e esquecer a condição humana daqueles que estão do outro lado do vidro no escritório, no restaurante, na vida. Pensar que tudo é normal. E esperar que algum dia as coisas melhorem.


A Coruja


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