14 de dezembro de 2009

Trabalhos de Faculdade



O texto a seguir foi apresentado como trabalho de sociologia, nos idos de 2004, primeiro ano de faculdade de jornalismo. Lulu interpretou a Inquisição e uma das cenas inesquecíveis dessa época é a de Lulu, no meio da aula de História da Comunicação, costurando uma estola branca - como a que os padres usam na missa (só que a deles geralmente é lilás ou vermelha... só o Papa usa branca... e dourada... ou estou confundindo as coisas???)


Mesa Redonda: Reverenda Inquisição e Excelentíssima Ditadura (com comentários de Fidel Castro e Getúlio Vargas)




Elenco:
[entrevistador]: Catarina de Angola, em todo o esplendor de suas trancinhas
[Ditadura]: Leo, largando do braço de Lulu por um tempo
[Inquisição]: Lulu, às voltas com um legítimo missal em latim dos tempos do ronca
[Fidel Castro]: Marquinhos, estiloso com uma boina militar
[Getúlio Vargas]: Marcelo, antes de raspar o cabelo para fazer o skinhead da 2ª Avaliação


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[entrevistador] Toda sociedade necessita assegurar sua sobrevivência e sua permanência, enfim, sua reprodução. Essa reprodução é assegurada por diversos aparelhos e mecanismos que a sociedade cria para se fortalecer e legitimar-se no poder. Existem duas categorias fundamentais: Os aparelhos repressivos e os aparelhos ideológicos. Falando nisso, deixe eu lhes apresentar nossos amigos Getúlio e Fidel... (os dois cumprimentam a platéia antes de tomarem assento) que daqui a pouco comentarão o discurso das nossas duas convidadas de hoje. Sejam bem-vindas, Reverenda Inquisição e Excelentíssima Ditadura! (as duas entram) Excelentíssima Ditadura, fale-nos um pouco sobre sua história e sua utilização dos aparelhos de reprodução que usou para manutenção do seu poder.

[Ditadura] Eu vivo em sua sociedade há muitos anos, por vezes escancaradamente, por outras, escondida sob nomes muito complicados para que o povo possa me entender. (enquanto isso, a Inquisição abre seu pequeno missal arruma a estola e começa a se preparar com um olhar muito sério e digno) Inspirei muitos homens a seguir meus passos... O fürher, por exemplo. (fazendo a saudação nazista) Heil, Hitler! E il Duce, Mussolini. Os próprios Vargas e Fidel aqui presentes foram meus pupilos.

[Inquisição] (andando de um lado para o outro e se persignando) In nomine Patris, et Fílli, et Spíritus Sancti. Amen.

[Ditadura] Sempre que estou no poder eu uso a ideologia e a repressão, juntas ou separadas. É muito mais fácil quando se está num país de terceiro mundo, mas isso não significa que eu não tenha imperado em outros lugares que hoje são vistos como o ápice da evolução das sociedades. O nazismo, o fascismo, o integralismo, o socialismo, todos esses ismos foram mecanismos que inventei para controlar ideologicamente o povo.

[entrevistador] E funcionou?

[Inquisição] Introíbo ad altáre Dei. Ad Deum qui laetíficat juventútem meam.

[Ditadura] Se funcionou? Funcionou até bem demais, eu diria. Fucionou tanto que, por diversas vezes, o povo acabou se voltando contra mim. Você acredita que tem gente que até hoje suspira pelas épocas em que estive no poder? Eles não conseguem perceber como os manipulei através das escolas, da "instituição familiar", da igreja (nesse ponto ela olha para a Inquisição, que continua cantando em voz baixa como se nada estivesse acontecendo), da mídia... Ah, a mídia...

[Inquisição] Júdica me, et discérne causam meam de gente non sancta: ab hómine iníquo et dolóso érue me.

[entrevistador] E os aparelhos repressivos?

[Ditadura] Eu tive que usar da força por diversas vezes. Coloquei exército nas ruas, criei polícias políticas, prendi meus desafetos sempre que eles baixavam a guarda... Usei das leis, que muitos julgam a melhor parte da democracia, para dar base às minhas decisões.

[Inquisição] Quia tu es fortitúdo mea: quare me repulísti, et quare tristis incédo, dum afflígit me inimícus?

[Ditadura] (começando a se irritar e lançando olhares raivosos para a Inquisição) Eu persegui. E torturei. E massacrei. E censurei...

[Inquisição] Glória Patri, et...

[Ditadura] CHEGA! (virando-se para a Inquisição) NÃO me irrite. Eu estou ficando sem lugar para esconder os corpos.

[Inquisição] (calma) Fique quieto ou eu vou te excomungar. Você vai morrer na fogueira e engolir seus pecados com farinha no caminho do inferno.

[Ditadura] (sarcástica) O inferno é aqui, querida. Aliás, já que estamos no Inferno, abracemos o capeta! (caminha para abraçar a Inquisição)

[Inquisição] Vá de retro, Satanás! (afastando-se e fazendo o pelo sinal)

[entrevistador] Certo, certo, vamos com calma. Reverenda inquisição, o que nos pode dizer sobre a manutenção do seu poder enquanto esteve em voga?

[Inquisição] Meu trabalho foi, fundamentalmente, reprimir os hereges. Mas a Santíssima Igreja, no seio da qual estou inserida, não usou apenas da repressão. Em matéria de ideologia, eu poderia dizer que a Igreja foi a maior de todas elas. Por diversas vezes na história da humanidade, a Igreja ajudou a Ditadura a se manter no poder com seus discursos de resignação para o povo e suas promessas indulgentes de paraíso. Em matéria de manipulação, acredito que a Igreja seja mais do que diplomada. Infelizmente, aqueles mesmos a quem ajudamos acabaram por se voltar contra nós e em nome de direitos humanos e coisas do tipo, acabaram por nos cercear parte do poder. A Igreja ainda é poderosa, mas eu não passo de uma pálida imagem do que fui. Na minha época, as pessoas tremiam a simples menção de meu nome. Bons tempos aqueles...

[entrevistador] (com cara de quem não tem tanta certeza sobre isso) Hum... é. Bons, hã... Tempos. Vamos agora pedir a opinião de dois especialistas em aparelhos repressores e ideológicos. Fidel, não seria uma contradição você ter lutado contra a ditadura, e depois passar 45 anos no poder como ditador?

[Fidel] Yo no se ditador.

[entrevistador] Ahn, claro... o senhor não é ditador. Então, nos fale um pouco sobre os aparelhos de reprodução que o senhor, como adepto do socialismo, implantou em Cuba.

[Fidel] Como a própria ditadura já falou, yo usei, e uso de todos os mecanismos para perpetuar-me no poder. Implantei um sistema onde o povo venera seus governantes. E fechei minha ilha a todos os malditos ianques capitalistas. Yo concordo em usar da repressão, mas acho que os aparelhos ideológicos, por su sutileza, são muito melhores para resultados a longo prazo.

[entrevistador] (com semblante curioso) O senhor acha sutil discursos de oito horas de duração? (se apercebendo de com quem está falando e mudando rapidamente de assunto) Certo. Senhor Vargas, o que o senhor pode nos dizer do assunto?

[Vargas] Eu não agüentaria passar oito horas ouvindo discurso nem da minha mamãe.

[entrevistador] (rindo amarelo) Não, não... O que o senhor pode dizer sobre a repressão e a ideologia?

[Vargas] Eu usei dos dois. Como a própria Ditadura disse, eu fui um pupilo dedicado. Tanto que hoje, cinqüenta anos após a minha morte, há centenas de pessoas que ainda me veneram. Eu posso, por algumas vezes, ter sido bastante violento. Mas dei ao povo muito do que eles desejavam. O populismo é uma excelente maneira de manipular uma nação. Há problemas. O povo exige solução. Mas porque solucionar tudo de uma vez se a cada pouquinho que você faz, as pessoas te adoram? O negócio é fazer medidas paliativas para tudo o que aparece. Assim, sempre vão achar que você está realmente interessado em mudar alguma coisa. Não vou dizer que tudo o que fiz foi paliativo... O Brasil deve grande parte do que é hoje a mim. Quanto a me manter no poder, acredito que o slogan "pai dos pobres" já te dê uma dica suficiente para saber como eu usei a mídia, a educação, os sindicatos... Sumiram algumas pessoas nos meus porões, sim. Mas em que governo não some?

[entrevistador] Mais alguma palavra?

[Vargas] "Serenamente dou o primeiro passo no caminho da Eternidade e saio da vida para entrar na História”.



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Na segunda parte do trabalho, Marcelo e Aninha explicaram os conceitos de super e infra-estrutura usando... um prédio construído de Lego e um rolo de papel higiênico sorridente.

Tiramos dez nesse trabalho.

E foi nessa época que nasceu a trupe de anti-sociais mais sociais que já se viu...


A Coruja


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3 comentários:

  1. Fantástico! Eu ri muito com a dona Inquisição falando latim - é, eu entendo um pouco de latim... E que bom que tiraram 10! =D

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  2. Pois é, pense numa turma sem noção...

    E isso é porque ainda não lembrei do trabalho em que gravamos uma novela mexicana (eu fui a vilã da história, Maria Antonieta, matando meu ex-marido com meu poderoso licor de cacau xavier...) ou do júri simulado em que os meninos interpretaram travestis... e foram para a sala vestidos em lindos e coloridos terninhos...

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  3. Nooobody expects the Spanish Inquisition!!!!!!

    XD

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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