23 de dezembro de 2009

"Mas você sumiu!"



Se existe algo que eu detesto com todas as forças é quando, ao reencontrar uma pessoa que não vejo há muito, a criatura abre aquele sorriso inconveniente, estica os braços (uma vez que você tentava não fazer contato visual e assim, voltar a sumir na multidão), te agarra num abraço de urso com direito a dois beijinhos (bastante desconfortáveis) e então solta: “mas você sumiu! Nunca mais deu notícias, nunca mais ligou...”

No momento em que o ser solta o “mas você sumiu” eu sinto um quase incontrolável desejo de conectar meu punho diretamente com o nariz dele.


Explico minha aparente sanha violenta... tal frase implica num certo tom de acusação; um puxão de orelha, e o que está subentendido é “você não se importa comigo, não liga mais para mim, nunca mais me deu atenção...”

Agora, eu reconheço que não sou a pessoa mais presente do mundo. Conseguir falar comigo no meu celular é quase um milagre – eu uso meu telefone mais como relógio que qualquer coisa. Isso acontece porque eu nunca fui exatamente ligada em telefone, eu sempre deixo meu celular no silencioso e, geralmente, esqueço-o na bolsa ou no armário.

Mas, tudo bem, porque as pessoas que precisam realmente falar comigo têm o telefone da minha casa e eu sempre atendo o telefone da minha casa. Não tem como colocar o telefone de casa no silencioso...

Eu também não respondo mensagens de celular por uma questão econômica: o plano de telefone daqui de casa me dá minutos de sobra, mas as mensagens são pagas. De modo que se me mandarem mensagem, é mais provável que eu ligue para responder que escreva de volta.

Quando, é claro, eu me lembro de ligar.

Podem tentar me alcançar pelo orkut – que aparentemente, é o meio pelo qual minha antiga turma sempre me deixa recados. Só que eu também sou anti-orkut e só mantenho meu perfil para poder pesquisar por links de download.

De resto, contudo, eu nunca deixo de responder um email ou uma carta (sou uma correspondente extremamente fiel), ou desmarco um encontro ou qualquer coisa do tipo. É só que eu prefiro falar com as pessoas em particular (algo não tão provável no orkut, onde qualquer um pode fuçar o que você escreve para os outros) e em pessoa ou por escrito (ou talvez eu seja apenas alguém meio anti-tecnologia...).

Feitas essas observações sobre meu próprio comportamento... o negócio é o seguinte... quando você passa muito tempo sem falar com outra pessoa (mesmo que vocês sejam os melhores amigos do mundo), a culpa não é de uma única pessoa. E é por isso que eu detesto essa frase “mas você sumiu”.

Quem fala essa frase primeiro tenta se eximir da culpa (e, como eu nunca falo essa frase por questão de princípios, eu sempre me vejo no papel de “ré”). É exatamente isso que me irrita, o fato de a criatura inconveniente jogar toda a culpa para cima de mim.

Isso já aconteceu milhares de vezes, inclusive com pessoas que considero meus amigos de fé, meus irmãos camaradas (estou no momento gravando um CD de Jovem Guarda para meus pais irem ouvindo na viagem) – e aconteceu anteontem, quando eu estava no shopping, fazendo hora antes de ir jantar com uma grande amiga que eu não via há quatro meses (e que não veio para cima de mim com um “você sumiu, está quase uma estranha!”)

Agora, é claro, eu também tenho culpa quando passo muito tempo sem falar com algumas dessas criaturas que considero meus grandes amigos. Mas eu sempre posso culpar o trabalho e a pós, em vez de a outra pessoa (embora a outra pessoa tenha meus telefones e todos os outros meios de contato para falar comigo, tanto quanto eu tenho os dela).

Na verdade, eu culpo o CNJ, a Meta 2 e o Judiciário de uma forma geral, que depois de passar o ano todo enrolando, decidiu cumprir a Meta no último mês do ano (seguindo a derivada da lei de Murphy que diz que fazemos 10% de um trabalho em 90% do tempo disponível para fazê-lo... e 90% do mesmo nos 10% que restam).

Nas últimas semanas, eu tenho dobrado no escritório; não vou ter recesso de fim de ano e só não vou levar trabalho comigo para Mirandiba, porque Mirandiba é sagrado – ninguém merece ter que trabalhar (ou mesmo ter de pensar muito) em Mirandiba.

Assim é que até domingo eu pretendo apenas me revezar entre cama-rede-cadeira de balanço-espreguiçadeira enquanto durmo-leio-assisto, com intervalos bastante regulares para ir à cozinha e surrupiar doce de leite-sequilhos-o que quer que vovó esteja cozinhando.

E, como em Mirandiba não pega celular, nem tenho acesso à internet enquanto estou lá... e nem iria querer também, ou Mirandiba deixaria de ter o significado que tem Mirandiba... Nos próximos dias, ficarei completa e absolutamente fora de área para qualquer um que tente me alcançar.

Assim sendo... até a volta, turma! E não se tornem estranhos, nem sumam, viu? Huahuahuahua... Quando eu estiver de volta, teremos muito que conversar...



A Coruja


____________________________________

 

3 comentários:

  1. Ecscuse: estou aqui. Eu existo!!! Se esqueceu de moi, foi? Hum, tô vendo viu.
    Tentei escolher uma identidade no comentário mas a única que surgiu foi essa, a minha mesma. Tentei colocar anônimo, mas como posso estar anônima se tem pessoas que me conhecem?

    ResponderExcluir
  2. Ah, Lulu, sabe que você tocou meu coração agora?

    Eu me sentia muito sozinha na raiva incondicional a esse maldito "Você sumiu", ainda mais quando ele vem agregado ao absolutamente desagradável "pois é, você não liga, não dá notícias, abandonou a gente, mesmo".

    Uma parte de minha família adora esse bordão, mas, olha que curioso: ninguém me liga, ninguém procura saber se eu ainda estou viva, mas, quando os encontro na rua eu não digo essa chatice de "você me abandonou"!

    Boa Mirandiba procê, sagrada Mirandiba onde nem celular pega! Eu adoraria passar uns dias assim, incomunicável... Deve ser uma delícia, hehehehe! Eu acho que todo ser humano tem direito a pelo menos 24 horas de incomunicabilidade...

    Feliz Natal, Lulu, procê e pros seus. Sua lembrancinha vai pós-Natal, pq, claro, essa sua amiga sagitariana se enrolou toda e, quando viu, já era dia 23 de dezembro.

    Ninguém me merece, viu? :P

    Beijocas mil!

    ResponderExcluir
  3. Huahuahuahua...

    Não esqueci de ninguém, não sumi, estou de volta!

    Eu voltei, agora pra ficar... porque aqui.. aqui é o meu lugar...

    *Lulu escutou muita Jovem Guarda no caminho...*

    ResponderExcluir

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog