6 de outubro de 2009

Do acesso à cultura e outras cifras


A VII Bienal do Livro de Pernambuco começou na sexta-feira, dia 02. Infelizmente, tive de viajar na sexta, mas, tão logo cheguei no domingo de tarde, só desfiz as malas, coloquei o cartão no bolso e fui embora para o Centro de Convenções, de onde só vim a sair cinco horas depois, quando os stands já estavam fechando e ninguém mais queria me atender.

Esqueci até de jantar... e dei um jeito no joelho de tanto caminhar. Queria poder dizer que valeu infinitamente toda a dor (e fome, da qual só fui me lembrar quando já estava com a cabeça no travesseiro e cansada demais para me levantar), mas não foi bem assim. É verdade que encontrei alguns bons livros e vi muita coisa que, definitivamente vai para minha lista de livros que quero ler... mas tive de me refrear porque (1) não tinha assim tanta promoção e (2) os livros estão me levando à falência.


Já falei várias vezes sobre como os livros estão sempre me levando à falência. Claro que é um exagero meu - tendo um certo pendão para Drama Queen -, mas não é de todo mentira. Mais de 80% da minha mesada (era mesada até mês passado, a partir desse mês eu começo a ganhar salário e aí veremos como ficará a porcentagem...) eu gasto com livros. O resto ou vai para poupança ou financia meus outros vícios: filmes e chocolate.

Às vezes, esses 80% que citei são gastos num único livro. E não estou falando de livros técnicos, de Direito - já comprei livro de mais de duzentos reais... se bem que isso não é nada comparado aos livros de medicina do meu irmão... -, mas de livros de literatura mesmo.

E esse fato explica muita coisa.

Recentemente, o Diário de Pernambuco publicou uma reportagem acerca das preferências do público consumidor, no Recife, em termos de cultura. Dos entrevistados na pesquisa, 59,83% dos entrevistados declarou que não foi nem uma única vez a alguma livraria no ano passado. Em compensação, quase 70% foi a shows - principalmente do chamado forró estilizado.

Não sou exatamente crédula dessas pesquisas - nunca sequer conheci alguém que tenha sido entrevistado por entidades como o Ibope e outras do tipo - mas eu acredito no perfil traçado nessa reportagem e acredito também que os números são muito mais amplos termos nacionais.

O Brasil não é um país conhecido por sua imensa tradição literária. Bem certo, temos nossos gênios, e alguns outros que estudamos em literatura no segundo grau. Mas não somos tão consistentes quanto outros povos - não existem cursos para estudar literatura brasileira como se estuda literatura russa ou inglesa, por exemplo. E, pior, nem temos tanto orgulho assim desses nomes.

Aí vai um teste simples... quantos livros você já leu de Machado de Assis fora das obrigações escolares? Fiz essa pergunta a umas dez pessoas, incluindo na conta indivíduos que gostam de ler. Nenhum deles conseguiu me dar qualquer título.

Agora, diga outro nome de um autor brasileiro de peso dentro da literatura nacional e internacional.

Se você disser Paulo Coelho, eu vou deserdá-lo.

Para ficar em alguns grandes nomes de relevo nacional, cito entre meus favoritos Drummond, Vinícius de Moraes, Veríssimo e Manuel Bandeira. Vocês podem adicionar à lista Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Clarice Linspector...

Todos estes autores são expoentes no cenário da literatura brasileira... mas não possuem a mesma visibilidade no cenário internacional. São pouco ou quase nada conhecidos. Pior que isso, eles também são pouco ou quase nada conhecidos em seu próprio país de origem.

Por que isso acontece? Por que as pessoas que gostam de ler parecem ser uma exceção à regra? Por que quando digo que prefiro ficar em casa com um livro a sair para uma boate o povo me olha como se eu fosse louca?

Não vou entrar na discussão que isso depende da pessoa, varia de cada um. Tampouco vou falar que isso depende de criação, porque discordo totalmente disso - afinal, meu irmão teve ainda mais oportunidades que eu, pois quando ele estava crescendo, já tínhamos em casa as coleções de Monteiro Lobato e do Escoteiro Mirim, enquanto comigo, elas ainda estavam sendo formadas e, mesmo assim, ele nunca demonstrou grande amor pela leitura, preferindo o futebol.

Mas vou falar sobre o mercado editorial.

Não sou uma especialista em economia, em direitos autorais ou mesmo em mercado editorial. Sou apenas e unicamente uma pessoa meio anti-social, que gosta muito de ler e que, sobrevivendo ainda das minhas "rendas" como estudante (mas tá chegando o dia, tá chegando o dia de receber meu primeiro e suado salário...), não sabe como fazer para acalmar seus impulsos consumistas sempre que entra numa livraria.

O resumo da ópera é o seguinte: livros são caros. E, sendo caros, são quase um artigo de luxo. Dependendo do lugar em que a pessoa more, ela também não tem acesso à bibliotecas, ou, quando estas existem, estão terrivelmente defasadas.

Livros estão também na contramão da sociedade moderna; a sociedade líquida, consumista. O prazer de ler é introvertido, demanda tempo, paciência, sensibilidade - todas características que não se coadunam com a rapidez com que tudo corre ao nosso redor hoje em dia.

A coisa melhorou um pouco com a introdução, no mercado, de editoras especializadas nos chamados pocket books. O risco que existe nesse caso são as traduções, algumas bastante mal-feitas. Nesse aspecto, eu, particularmente, prefiro a LP&M à Martin Claret - que são as duas maiores editoras nessa área.

Como já disse antes, não sou uma especialista no mercado editorial e, por isso, não sei dizer porque livros são tão caros. Como alternativa, eu passei a comprar livros em inglês, que são incrivelmente mais baratos que as traduções brasileiras; mas nem todo mundo sabe ler inglês, então, essa não é realmente uma alternativa para grande parte da população.

Contando, é claro, com a hipótese de que a população queira ler.

Como já disse antes, não vou atacar essa parte da equação, porque acho que ler ou gostar de ler é algo muito pessoal. Minha crítica, hoje, é acerca da oportunidade de ler.

Essa é, afinal, a grande questão da história: o acesso aos livros e, de uma forma mais ampla, à cultura.

E é aqui que a porca torce o rabo, já que entra em cena... a política.

(Continua em “Bem-vindos à Roma: a política do pão e circo”...)


A Coruja


Arquivado em

____________________________________

 

2 comentários:

  1. A pior parte é que você está completamente certa... =/ Quem ama os livros como eu e você sofremos muito! Claro que isso vai mudar quando eu montar minha própria editora *-------* (Ei, que foi?! Eu posso sonhar! XD).

    Espero ansiosa pelo restante do post.

    Beijos!

    ResponderExcluir
  2. Livros são muito caros. É uma pena. Eu que nem mesada tenho, de cada vez que vejo um que queira, é para chorar por não o ter (a não ser que a vontade seja tanta que baixe em e-book, e como eu odeio e-book).

    Vou ser sincera: como sendo de outro país, mesmo que seja português, são muito poucos os escritores brasileiros que conheço (e estão ai listados).

    E ler para 85% das pessoas aqui é um bicho de oito cabeças. Futebol é melhor, arranja-se logo mais amigalhaços, enfim...

    Leitor que é leitor, gosta do que lê.

    ResponderExcluir

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog