24 de setembro de 2009

Exercícios de interpretação

Ando com um baita bloqueio criativo esses dias. Já me sentei duzentas vezes para escrever e, toda vez que olho a tela em branco, a única coisa em que consigo pensar é na teoria geral dos recursos.

E, venhamos e convenhamos, não há nada de muito literário em cabimento de recurso de agravo...

Decidi então fazer um exercício meio sem noção. Peguei uma palavra e saí fazendo conexões. Comecei com "amizade" que me faz pensar em "sorriso" que me faz pensar em "fotografia", que me lembra "memória" que por sua vez puxa o "tempo" que acaba em "velhice" e certa "melancolia" quando então sentimos "nostalgia" e pensamos na nossa "infância", lembramos dos "contos de fadas" e dos "amores" da princesa e do príncipe e assim por diante...


Quando percebi, já estava por volta da octagésima conexão e descobri que tinha feito algumas ligações até meio bizarras... "Razão" me fez pensar em "óculos", porque óculos são uma parte integrante da minha visão de nerd - eu disse, conexões bizarras.

Em todo caso... feita a lista, agora, vou usar cada palavra dela para criar uma cena bem pequena, que traduza o significado daquela palavra (e, se a palavra tem mais de um sentido, eu posso usar no excerto um sentido oposto ao que pensei quando estava fazendo as conexões... como "peças", de pregar uma peça, derivado de "surpresa"; que pode virar uma peça de quebra-cabeça ou coisa do tipo...).

Não usei nomes... mas alguns dos excertos são bem óbvios e os leitores do expresso e da amaterasu certamente reconhecerão. De uma forma ou de outra, esse é só o começo. Já fiz cinco dos tópicos da minha lista. Vejamos quantos mais faço até o final de semana...




52. AMANTES

Ela fechou os olhos, sentindo os dedos percorrerem céleres as cordas do violoncelo, a melodia fluindo ao seu redor, grave, pesada e cheia de fúria. Toda sua concentração estava voltada para a peça que tocava e foi com surpresa que ela percebeu os sons de violino harmonizando-se com o cello, os tons mais agudos entrelaçando-se com o peso de seu instrumento sem, contudo, ofuscá-lo, como acontecia tantas vezes na orquestra.

Ela podia perceber o dueto mudando quase imperceptivelmente o sentimento por trás da canção. Onde antes havia fúria e força, agora havia graça e paixão. Quando antes as notas na partitura se somavam difíceis sob seus dedos; agora elas vinham sem qualquer dificuldade.

Levantando os olhos, ela o encarou, encontrando no rosto familiar o sorriso doce, tranqüilo, que ele reservava apenas para ela.

Quase sem perceber, ela sorriu de volta, enquanto a melodia espiralava ao redor deles, a leveza do violino complementando à perfeição o baixo do violoncelo, tal qual amantes moldados um ao outro.

66. FÉ
Ele se largou na cama, cansado demais para se preocupar até em tirar os sapatos. Apesar disso, havia em seu peito uma estranha leveza, algo muito diferente da névoa e tristeza que pareciam permear seus dias desde que se despedira de sua fadinha.

Aquela era a sensação de um dever cumprido.

Cada um deles estava se esforçando, à sua própria maneira, para fazer aquilo que acreditava certo. Apesar de todas as pedras no caminho, de todas as perdas que tinham sofrido, ele sabia que isso significava muito. Significava que ainda tinham esperança. Eles lutavam porque ainda tinham .

Fé de que estariam vivos no dia seguinte. De que suas ações faziam alguma diferença. De que eram capazes de construir um mundo um pouco melhor.

Viviam o presente, na crença de que alcançariam um futuro.

73. ÓCULOS

O sol brilhava forte do lado de fora do prédio e, enquanto saía pelas portas com vidros fumê, ele empurrou os óculos escuros do alto da cabeça para baixo – não sem antes dar uma piscadela para uma graciosa loirinha que fazia o caminho inverso ao seu, provavelmente para fazer o próprio teste e tirar a carteira.

A garota ruborizou, respondendo com um sorriso tímido, ao que ele abriu o riso de orelha a orelha, no melhor estilo comercial-de-pasta-de-dente.

Em sua cabeça, James Brown entoava “I feel good... taranranranranranran… I knew that I would... taranranranranranran…” e ele quase dançava, os passos apressados e surpreendentemente graciosos – gestos de um predador, como sua mãe costumava dizer.

Encostados ao capô do Lamborghini preto – agora, oficialmente, seu carro – o irmão e o tio o esperavam. Nenhum dos dois precisou perguntar se ele tinha passado no teste. A resposta era suficientemente óbvia.

Rindo, o rapaz jogou os braços por cima dos ombros dos dois companheiros, os óculos escorregando ligeiramente pelo nariz, revelando os olhos marotos do caçula.

- Caras... nós estamos saindo para comemorar hoje.

75. LIBERDADE
Delicadamente, ele traçou os contornos do rosto dela, observando as olheiras sob os olhos cerrados, o rosto fino, cansado, sob os curtos cachos carmim. Tanta coisa acontecera... tanta coisa ainda estava acontecendo... E ele sabia que todo aquilo pesava mais do que nunca sobre os frágeis ombros de sua fraülein.

E, apesar da consciência de que a cada dia as coisas ficavam mais e mais perigosas, que, por vezes, eles pareciam lutar uma batalha perdida; naquele momento, naquele único instante, ele se sentia estranhamente leve... e livre.

Porque ela estava ali com ele. Porque não existia mais necessidade de mentiras. Porque ele não precisava mais fingir que não a queria.

E a verdade é que não havia nada de mais libertador do que poder gritar para todos o que realmente sentia... ainda que ele preferisse proferir as palavras apenas para ela.

81. PERTO
Desde que tinham chegado à Escócia, ele tomara por hábito fazer longas caminhadas pela praia, do hotel até a pequena enseada, onde então se sentava, observando o sol se pôr, mergulhando nos mares gelados que cercavam as ilhas.

Ali ele permanecia por quase uma hora, até que o céu se enchesse de estrelas e o vento frio se tornasse insuportável. Com o olhar fixo no horizonte, ele imaginava outra ilha, outras enseadas e uma figura quase etérea a observá-lo de volta com grandes e inocentes olhos castanhos.

Ela podia estar logo atrás da névoa que se erguia mais adiante... ou tão distante quanto se vivessem em mundos diferentes... Mas ali, naquelas encostas escarpadas e quase selvagens, ele se sentia quase em casa... pois sabia que aquela era a casa dela.

E, se por agora não podia tê-la nos braços, ao menos podia se consolar com a idéia de que ela estava próxima... próxima o suficiente para que ele sentisse sua presença. Próxima o suficiente para que ele pudesse alcançá-la.


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E aí, o que acharam? Vocês sabem quem são os personagens de cada uma das cenas? E que tal fazerem seus próprios exercícios de conexão e interpretação? Comecem com cinco palavras - sou eu sou louca de começar logo com cem...

E semana que vem, tem Bienal aqui no Recife! Peguei a programação, me inscrevi numas oficinas e estou pensando seriamente na possibilidade de publicar um conto no site para ver se o povo vota em mim... huahuahuahua... Se eu publicar, vocês votam? Hein, hein, hein?

Au revoir, mes cheries! Je vais travailler! Baisers!


A Coruja


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2 comentários:

  1. Lulu, adorei!
    Acho que reconheci todos os personagens.

    Hanako
    Herman
    O filho da Mina e do Isaac que deu branco no nome...
    Lucien
    Isaac

    Na verdade, gostei tanto que vou salvar esses trechos para usa-los nas nossas fics oficiais. \o/

    Ah, eu voto em vc!!!

    Beijos ainda corridos.

    ResponderExcluir
  2. Eu já tinha feito um exercício parecido... mas com menos método =P Pensava que só eu fazia conexões absurdas (as minhas vêm no meio de uma conversa e as vezes me fazem passar por esquizofrênica, porque eu as falo em voz alta u.u), mas algumas das suas estão num nível bem semelhante...

    Nossa, deu vontade de fazer esse exercício agora *-*

    Acho que reconheci pelo menos alguns personagens, uns três, com sorte quatro, mas não vou me arriscar a passar vergonha (>///<) Eu voto no seu conto se você mostrar o link para votar... Bienal só em novembro aqui... ç.ç E na mesma época do seminário da universidade.

    Quero ver mais tópicos! beijos o/

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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