15 de julho de 2009

Relatos de um contista frustrado no divã

Esse "conto-pílula" já foi anteriormente publicado no Diário de Bordo do site Amaterasu, na revista literária da Faculdade de Direito do Recife e em um trabalho na Aliança Francesa (vertido para o vernáculo, claro). É um dos contos que escrevi que mais gosto (embora o pessoal me conheça mais pelas longas, longas histórias no ff., Expresso, Amaterasu e New Dawn, eu também tenho uma série de crônicas e contos - e alguns muitos raros poemas, porque não sou lá uma grande poetisa) e não de todo longe da realidade.

Sim, eu já fui expulsa da minha cama pelos meus personagens. E não aconteceu só uma vez... Embora eles não me persigam como ao pobre contista deste excerto...



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[1º dia de sessão]

- Doutora, hoje eu tive um lampejo de iluminação! Eu acho que dessa vez sai! Dessa vez vai sair uma obra ímpar! Tenho certeza que não vai ser como nada do que já foi escrito antes!

- Sim, sim, continue. Como é o enredo?

- Ah, é uma coisa mirabolante... Eu nem sei como ela apareceu na minha cabeça, sabe? Mas acho que dessa vez, sim. É a chance. A idéia em um milhão. Eu acredito firmemente que finalmente poderei lançar meu livro e blá, blá, blá...

Diagnóstico: fala e gesticula muito. Quase fora de si. Olhos febris. Entretanto, parece feliz. Talvez essa idéia de escrever um conto seja bom para ele afinal. Talvez ele realmente tenha achado o que tanto estava procurando e assim preencha seu vazio existencial presente.

[5º dia de sessão]

- ...e então, eu estava no meio do banco e ela me deu uma rasteira por trás, e eu...

- Só um instante... O banco estava sendo assaltado? Acho que perdi o fio da meada aqui, eu peço que me perdoe, você estava falando do seu conto...

- Mas eu estou falando do meu conto, doutora. O que eu quero dizer é que a personagem principal do meu conto, sabe, a filha do rei, eu já falei dela para a senhora... Pois bem... É que ela não me deixa quieto. Ela quer sair de qualquer jeito, entende? Quer ser escrita. É quase como se... Quase como se ela quisesse se apossar do meu corpo e sair em forma de palavras através da caneta. Será que dá para entender?

- Claro, claro...

Diagnóstico: não consegue ficar muito tempo parado no mesmo lugar. Fala alto, não pára de gesticular, tem o olhar injetado, como quem não dorme há várias noites. Fala de coisas estranhas como possessão por espíritos e coisas do tipo.

[17º dia de sessão]

- Doutora, eu juro! Eles simplesmente me chutaram da minha cama! Eu não consigo mais dormir, nem comer, nem trabalhar! Eles querem sair! Eles não me deixam em paz!

- Tenha calma. Novamente, eu pergunto, de quem você está falando?

- Dos personagens, doutora! Os personagens!!!!

Diagnóstico: tem alucinações. Precisa de alguma coisa para dormir. Talvez algumas pílulas. Necessita de mais sessões. Pedir para que marque com a secretária três vezes por semana. Talvez necessite internação.

[29º dia de sessão]

- Acabou.

- O que acabou? Não está pensando em...

- O conto, doutora. Finalmente, acabou. Não ficou essas coisas todas, mas... Aqui. Talvez a senhora goste. Eu não vou publicar.

Diagnóstico: mais um escritor frustrado. Uma pena... Ele até que escrevia bem...

A Coruja


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